O LABIRINTO DO SR. ENO

abril 22, 2011

 

o que se conta aqui é a história do homem. segredos. túmulos. miragens. o que se conta aqui é a história dos disfarces. a Terra permanece intacta. o que se conta aqui é a história secreta dos homens : um mostruário dos seus disfarces. a Terra é a mesma que gira entre planetas. o que se conta aqui é a história dos disfarces humanos. das máscaras chinesas às alegorias carnavalescas. a Terra é a mesma. o que se conta aqui é a história das grafias. dos hieroglifos egípcios aos dígitos computadorizados. caligrafias. o que se conta aqui é a história da Terra. a mesma que gira sem disfarces. o pêndulo e suas leis imutáveis. o que se conta aqui são os olhos de um silvícola assustado e o leme de uma embarcação perdida. a Terra é um mistério insondável. o que se conta aqui é a história de um segredo. a Terra pertence a um povo nu e sem memória. o que se conta aqui é a história dos esquecimentos humanos. o que se conta aqui é a história dos silvícolas assustados com a luz de uma manhã e com o poder mortal da pólvora. a Terra é que gira. o que se conta aqui é a história da luz que deram cor aos quadros de Van Eyck e sombra aos afrescos de Michelangelo. a Terra é a que abençoa. o pretexto intacto. o que se conta aqui são as pessoas e os seus elos. os infinitos infinitos contemplados por um Buda e o segredo que encerra a palavra nirvana. a Terra é um pássaro. o que se conta aqui são as fábulas de uma ilha e as crenças do povo que morava naquela ilha. os peixes são o pretexto desta fábula. o que se conta aqui é a história da vaidade. o veludo é a Terra. o que se conta aqui é a história de um coração. a Terra é um pêndulo a qual Mallarmé se referiu como sendo aquilo que liga a noite ao dia. o que se conta aqui é a história de uma manhã que se negava a nascer e por isto a festa e a celebração foram dando lugar às trevas e ao vazio. a Terra dá as árvores. o homem viaja no veículo. a luz no tempo. as vacas etc. o que se conta aqui é a história dos hexagramas e a origem do verbo. o que se conta aqui é a história da roda e da fala. a Terra intacta. o que se conta aqui é a história da história das repetições. o homem ora. algumas vacas. 

 

 

o que se conta aqui. vacas. manhãs intermináveis.

 

 

 

 

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FAMÍLIA

março 29, 2011

 

 

tomado por megalomaníaco excêntrico desajustado gênio derrotado cada qual com seu adjetivo e seu afeto recalcado preocupante sou expulso de casa em casa até chegar nesta cabine de navio onde passo os meus dias misturando o azul entediante do céu com o amarelo sonoro da bandeira de karmapa : o próprio cinema novo quis levar um papo comigo mas eu sou o grilo e temo sapatos vulcabrás


CINEMA

março 24, 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

era um dia de sol e todos andavam em seus submarinos através das paisagens aquosas enquanto eu e meu rinoceronte sonhávamos novas formas atômicas pelo simples prazer de passar o tempo em contato com algo interessante, engraçado, inusitado, ah sim, a originalidade em sua extensão mais egoísta, nunca fui com a cara de religiosos previsíveis receituários da mesmice entediante

 


PIERROT

março 23, 2011

 

 

 

 

 

 

do que me lembro, jamais as vísceras expostas, sempre uma máscara, uma pele de escafandro, um querer ser e jamais ser, só aparência, espuma, quando raras vezes o coração tocado através da couraça, um séquito de lágrimas, dor da beleza, isto tudo, ser, dói


INSANIDADE

março 19, 2011

pouco sentido em objetividade, rasgo o céu em dois, cubro um pasto com deus e oro para que o acaso mantenha sua vigília de cartas errantes sobre o café da manhã dos texanos, dos texanos quero somente tunis e uma babel devidamente destruída


MANTRAMAN NO SÍTIO DO PICAPAU-AMARELO (FINAL)

fevereiro 15, 2011

 

 

 

 

 

 

A entrada do Reino de Águas Claras ficava numa gruta camuflada por uma densa vegetação às margens de um ribeirão de águas transparentes. “Aposto que o Mantramanco tem medo de escuro!” exclamou Emília, “é Mantraman, Emília!” , respondeu-lhe Narizinho, “e olha só quem fala, a boneca mais medrosa do planeta!”. De fato não se enxergava um palminho além do nariz. Mas logo Narizinho tirou do bolso um punhado de vagalumes que nos serviram como “lanterna viva” durante o percurso onde fomos saudados por várias corujas e numerosos morcegos. Minutos depois, chegamos a um maravilhoso portão de coral guardado por um imenso sapo “ é o Major Agarra-e-Não-Larga-Mais” informou-me Pedrinho com naturalidade. E logo atrás do portão, avistamos o Palácio Do Reino das Águas Claras com seus muros feitos de conchas, madrepérolas e corais reluzentes. 

Fomos diretamente para a sala do trono, toda feita de um coral cor de leite com franjas de musgos e milhares de pingentes de pérolas pendurados que tremiam ao menor sopro. O chão, de nácar furta-cor, era tão liso que Emília escorregou três vezes. Por fim, avistamos o Príncipe Escamado sentado em seu trono : tratava-se de um peixinho vestido de gente, com um casaco vermelho, cartolinha na cabeça e um cetro de diamantes na mão. Assim que viu a turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo aproximando-se saudou-os com um claro entusiasmo : “ Meu dia está ganho! Quanto tempo que não vinham aqui! Que bom vê-los!”. Depois de cumprimentarem-se efusivamente, Narizinho apresentou-me para o príncipe : “ Este é o Mantraman, Príncipe. Ele veio lá de muito longe para escrever sobre as maravilhas do Sítio do Pica-Pau Amarelo em sua revista Pirlimpimpim! ” . “ Ora, ora, por Netuno, que seja bem vindo!” disse-me o Príncipe Escamado, “ vamos levá-lo para um tour no coche de gala do Mestre Camarão!”. “ Bela idéia! Digna de um monarca da sua magnitude, Alteza!” disse-lhe o Visconde de Sabugosa com sua voz empostada de orador de baile de debutantes.  

Minutos depois, deslizávamos sobre a areia alvíssima do fundo do mar a bordo do coche de gala do Mestre Camarão, que era uma carruagem submarina puxada por seis cavalos marinhos. Em vez de chicote, o Mestre usava os fios de sua própria barba. Foi um passeio e tanto : passamos através de florestas de coral, bosques de esponjas vivas, campos de algas das formas mais estranhas, conchas de todos os jeitos e cores. Polvos, enguias, ouriços, milhares de criaturas marinhas tão estranhas que até pareciam seres saídos de um sonho. E o mais espetacular nisto tudo era que todos aqueles seres submarinos saudavam o Príncipe Escamado com reverência e amor. Quando estávamos voltando, o Príncipe desceu do coche, tirou uma luminosa pérola de dentro de uma ostra e deu-me de presente “ para que jamais se esqueça do Reino das Águas Claras, Mantraman…”. Quis dar-lhe um abraço mas fiquei com medo de quebrá-lo ao meio. “ Creia, é inesquecível, Príncipe Escamado…” foi tudo que conseguí lhe falar.  

De volta ao Palácio, fui apresentado ao médico da corte, o Doutor Caramujo que, segundo o Visconde, “ cura todas as doenças com suas pílulas, exceto sua própria gosma.” Ele ofereceu-me um punhado de suas pílulas “ com a umidade do Reino das Águas Claras, sempre aparecem algumas complicaçõezinhas pulmonares” que enfiei no bolso não sem antes pedir para que ele pousasse para uma foto. “Será que dá para você me mandar um exemplar quando a revista sair?” ele me perguntou. “ Claro Doutor Caramujo, vou arrumar um jeito, sim…”. O próprio Príncipe nos acompanhou até o portão de saída , e, à medida que nos distanciávamos, ele nos acenava com mais e mais convicção. “Vou sentir saudades de vocês…” foi tudo o que conseguí dizer quando já nos aproximávamos da entrada da gruta.  

No caminho de volta para o Sítio, paramos no pomar e nos deliciamos com algumas centenas de jaboticabas que de tão maduras explodiam dentro da boca. Pedrinho queria saber mais detalhes sobre a vida de um repórter de uma revista de viagens, Narizinho queria me levar para conhecer o Minotauro, Visconde, sempre erudito, declinava o nome científico de cada árvore frutífera e Emília, bem Emília continuava com sua mania de me chamar de Mantramanco. Assim que retornamos à casa, fui ter com a Tia Nastácia e perguntei-lhe sobre a receita de seus famosos bolinhos de chuva. “ Ah, vosmicê pode panhar com Dona Benta que já escreveu num papelzinho. Sabe?, continuou, receita eu dou mas o segredo não está na receita, mas no jeitinho de fazer…” . Agradeci efusivamente à nobre e famosa quituteira e, quando pensava em retornar, fui abordado por Dona Benta.  

Aqui está a receita, senhor Mantraman”, ela me disse estendendo um papel em minha direção, “ espero que volte sempre. Mas antes que parta tenho uma pergunta a lhe fazer : afinal, como conseguiu chegar no Sítio do Pica-Pau Amarelo?” . Sem pestanejar, tirei do bolso o envelopinho azulado e lhe segredei “ pó de pirlimpimpim, Dona Benta…”. Ela franziu a testa e com um sorriso no canto da boca emendou “ tinha certeza que o seu editor Macro Céfalo havia levado um pouco do nosso secreto pó de pirlimpimpim….” E, tirando do bolso de seu vestido um outro envelopinho azul, idêntico ao que eu tinha, colocou-o dentro do meu bolso “ dê isto de presente para o Macro Céfalo, senhor Mantraman, e diga-lhe que o Sítio está de portas e janelas abertas para ele!”. Agradeci à bondosa e simpática velhinha e, após despedir-me de todos, fechei os olhos, pensei forte na Sala de Navegação, inalei o que restara do pó de pirlimpimpim e fiiiuuuuu fui parar na redação da Pirlimpimpim, diante do insano Macro Céfalo. “Cadê a receita?” ele me perguntou quando ainda despencava sobre a cadeira. Suspirei e entreguei-lhe a receita. “Mais nada?” perguntou-me apontando para o meu bolso de onde pendia o envelope azul. “Presente da Dona Benta” disse-lhe enquanto lhe entregava o pó de pirlimpimpim. “Melhor assim”, ele falou. “Agora pode ir. Quero a reportagem para amanhã. E, pelo amor de Deus, não me escreva mais aquela expressão “quando dei por mim estava não sei aonde…” .  

Com o Macro é sempre assim : tudo para ontem.

 

 


MANTRAMAN NO REINO DE SHANGRI-LÁ (FINAL)

fevereiro 9, 2011

 A parte do declive, que percorremos sobre uma estradinha de no máximo um metro de largura, durou quase toda a manhã. Evitava falar com Tchang e Tenzin, o tibetano, porque o ar rarefeito não deixava energia suficiente para falas dispensáveis. Um ar, diga-se de passagem, tão límpido que parecia vir de outro planeta. Era necessário respirar conscienciosamente, refletidamente. E isto, que a princípio parecia atrrapalhar, ao fim de um certo tempo foi provocando uma formidável tranqüilidade de espírito. Todo o meu corpo se movia no ritmo único da respiração, do andar e do pensamento.

                                                             

Depois de três horas costeando o vale, a subida foi pouco a pouco tornando-se mais abrupta e a paisagem foi envolvida por uma névoa densa que obscurecia tudo ao nosso redor. O ar esfriou e o frio tornou-se intensíssimo. Fomos encharcados por rajadas de chuva e neve e, por um determinado momento, quase pedi para voltarmos. Percebendo meu desconforto, Tenzin sinalizou que, passado aquele trecho, o resto da viagem seria mais amena. De repente a chuva cessou e o ar aqueceu um pouco. Pensava comigo que era imposível continuarmos subindo quando avistei mais um aclive. Era o último.

 

Logo se aplainou o solo e, à nossa frente, surgiu uma atmosfera clara e cheia de sol. Em frente, a pouca distância, como se saído de um conto de fadas apareceu o mosteiro de Shangri-Lá. Era, na verdade, um espetáculo estranho, quase inacreditável. Um grupo de pavilhões coloridos pendurava-se à encosta da montanha com a delicadeza aventurosa de pétalas de flor encravadas num penhasco. Mais além, numa pirâmide deslumbrante, pairavam as encostas nevadas do Karakal. Na parte de baixo, o Vale das Lua Azul, um vale verdejante repleto de pequenas habitações mas absolutamente isolado, completava o mágico quadro do reino de Shangri-Lá. “ E, então, sr. Mantraman, perguntou-me Tchang, como está se sentindo?”. “No céu, meu caro, Tchang, no céu!” exclamei com todos os ares que ainda restavam no meu pulmão.

 

A seguir, Tchang me conduziu até os meus aposentos “ nossa instalação é simples, mas espero que nada lhe falte…” disse-me enquanto caminhávamos em direção a um pavilhão de madeira. Mas o fato é que as instalações do meu aposento eram simplesmente maravilhosas : caleifação, uma banheira delicada de porcelana verde, uma cama com lençóis de linho leves e limpos, cobertores feitos de pele de iaque, enfim, tudo o que costuma haver de melhor num hotel cinco estrelas. Enquanto me deliciava na banheira, pensava numa forma de chegar ao tal Lama Superior. E o caminho, claro, seria o simpático Tchung.

 

Despertei quando o Sol mal havia se erguido por detrás da Montanha Karakal. Ouvi ao longe o som de um piano, parecia ser uma sonata de Mozart. Levantei-me da cama, abri a janela e vi, ao longe, um ser humano ( parecia ser um Lama) levitando. Depois outro, outro, até que o céu ficou todo pintado de bolinhas vermelhas levitantes. Na sala de refeições, Tchang já estava à minha espera. “ Levitam todas as manhãs, estes lamas? “ perguntei-lhe mesmo antes de dizer-lhe bom dia. “ Não, só quando o ar está muito rarefeito, como hoje…”. “E quanto ao piano, de onde vem o som do instrumento? Quem está tocando-o?” “Chama-se Lo-Tsen. É uma chinesa que está conosco há mais de cinqüenta anos. Quer vê-la?”. Caminhei atrás de Tchang por diversos pátios até chegarmos numa escadaria que dava para um jardim em cujo centro encontrava-se um pequeno lago alimentado por algum artifício delicado de irrigação. Ele abrigava tamanha quantidade de flores de lótus que as folhas, unidas na superfície, davam impressão de um pavimento de tijolos úmidos e verdes. Ao redor do lago, pousava uma coleção de leões, dragões e unicórnios de bronze, cada um apresentando uma ferocidade estilizada que não só não perturbava como acentuava a paz no ambiente. Fiquei aterrorizado pela beleza do local e, sem que me desse conta, exclamei “ que lindo recanto!”, enquanto Tchang me conduzia para um pavilhão aberto onde havia um cravo e um piano.

 

Lo-Tsen estava sentada ao piano e súbitamente interrompeu a sua música e me cumprimentou com delicadeza. Era de uma clássica beleza oriental, o nariz pequeno e delgado, as maçãs do rosto salientes, o cabelo negro muito puxado para trás e trançado. Aparentava ter, no máximo, vinte e cinco anos de idade, o que deixava a afirmação de Tchang de que ela estava em Shangri-Lá há mais de 50 anos bastante confusa… Fui imediatamente tomado por um encanto sem precedentes por Lo-Tsen. Ela era absolutamente apaixonante. Fiquei ouvindo-a tocar durante meia hora e, ao fim do seu magnífico concerto, fui convidado por Tchang para conhecer a biblioteca.

 

Alta e espaçosa, a Biblioteca de Shangri-Lá causou-me espanto tanto pela quantidade de volumes como pela variedade. Alí, encontrei desde Cervantes e Dante Aligheri até uma imensa quantidade de escritos em chinês e outras línguas orientais. Mas o mais surpreendente foi ter me deparado com a coleção completa da revista de viagens Pirlimpimpim. Ao ver o meu espanto, Tchang comentou “ Tanto o Lama Superior quanto nós adoramos a revista…”. Achei que era uma boa chance para me conectar ao Lama Superior e saí com esta “ Pois o senhor sabe que vim aqui para entrevistá-lo? Não vejo a hora de conhecê-lo, Tchang!” Ele me olhou com afeto e compreensão e limitou-se a me dizer que “ na hora certa você terá um encontro com ele, sr.Mantraman…”.

 

Naquela noite, depois do jantar, resolví passear pelos pátios tranqüilos, banhados pela luz do luar. Caminhei ao longo de um dos claustros até atingir o terraço que se debruçava sobre o vale . Pensei comigo se seria permitido visitar o Vale e conhecer a civilização que ali vivia. Súbitamente, trazidos pelo vento, pude escutar sons de gongos e trombetas e um vozerio que parecia entoar um mantra. Estava imerso neste sonho quando Tchang tocou nos meus ombros. Era a minha chance de lhe perguntar sobre uma série de mistérios que rondavam Shangri-Lá : porque os lamas nunca eram vistos? ( a resposta foi tremendamente evasiva “ os lamas nunca são vistos por gente estranha ao mosteiro”, quem havia construído aquela maravilha? (“ao tempo certo você vai saber”) e uma série de outras dúvidas que martirizavam a minha mente. Quanto a conhecer o Vale, nenhum problema, na manhã seguinte poderia descer contanto que fosse escoltado por um membro do clã.

 

Portanto, na manhã seguinte, logo ao alvorecer, fui despertado por Tchang para uma excursão ao Vale da Lua Azul, como é conhecido aquela parte de Shangri-Lá, uma vez que Karakal no dialeto local significa Lua Azul. Viajei durante todo o dia numa cadeirinha de bambú que balançava perigosamente por cima dos precipícios mas quando finalmente atingimos os planos mais baixos da floresta, defrontei-me com um paraíso fechado, de assombrosa fertilidade, onde plantações extraordinárias cresciam em profusão, umas aos pés das outras, sem que ficasse inaproveitada sequer uma polegada de terra. O vasto maciço, em torno, formava perfeito contraste com os pequenos relvados e jardins de ervas, com as coloridas casas de chá à beira do regato e com as habitações tão leves que pareciam casas de brinquedo. Os habitantes eram uma mistura das raças chinesa e tibetana e estavam sempre sorrindo e dizendo palavras amigas quando me viam. Eram bem-humorados e levemente curiosos ( um senhor quis experimentar meu tênis americano, e não havia jeito de demovê-lo de sua idéia), corteses e despreocupados, ocupados com diversos afazeres mas sem nenhum sinal de pressa.

 

Minha vida em Shangri-Lá ia de vento em popa. Passados dez dias, sentia-me em casa, realmente ambientado com os moradores ( neste interlúdio conhecera rapidamente três lamas semi-iniciados, um francês e dois ingleses, que acabaram me informando que ali viviam lamas de diversos países mas que a maioria eram da China e do Tibete; mas como o encontro fora por demais furtivo, nada pude deduzir acerca de seus ensinamentos) e cada vez mais próximo da bela Lo-Tsen. Para ser franco, já me imaginava com um dos seus moradores, ou seja, não pensava mais em voltar para a cidade de São Paulo e tampouco preocupava-me com a zanga que esta minha decisão provocaria em Macro Céfalo. Pois foi exatamente neste período que, numa noite, Tchang aproximou-se de mim enquanto escutava Lo-Tsen tocando Bach no cravo e sussurou-me no meu ouvido : “ O Lama Superior quer vê-lo”. “Quando?” perguntei-lhe. “Já.” Ele me respondeu. “ Venha comigo…” Despedi-me de Lo-Tsen e, tomado por uma sensação que mesclava o medo com a ansiedade segui os passos de Tchang.

 

Passamos por diversas salas, todas elas magicamente iluminadas pela luz fosca das lanternas até atingirmos uma escada caracol que nos levou a uma porta em que o chinês bateu. Prontamente, a porta foi aberta por um tibetano e a minha primeira impresão foi que a atmosfera do ambiente era quente e seca ao extremo, como se todas as janelas se achassem herméticamente fechadas e algum aparelho de aquecimento interno estivesse funcionando a toda pressão. À medida que avançava, a falta de ar parecia aumentar até que Tchang se deteve diante de uma porta e me disse num murmúrio “ o Superior o receberá sozinho”.

 

Como a sala estava excessivamente sombria, no começo nada ou quase nada pude avistar. Pouco a pouco, contudo, meus olhos foram divisando uma pequena, pálida e enrugada figura, imóvel na sombra, dando-me a impressão de um quadro antigo e descolorido, em claro-escuro. Quando me aproximei do vulto, percebí a presença de um velhinho vestido à chinesa, e as amplas pregas da túnica lhe envolviam frouxamente o corpo exíguo e emaciado.

 

– É o sr. Mantraman? , murmurou em excelente inglês.

– Sou, respondí.

– É um prazer conhecê-lo pessoalmente sr. Mantraman. Mandei chamá-lo aqui porque fiquei sabendo que está fazendo uma reportagem sobre Shangri-Lá para a revista de viagens Pirlimpimpim. Nós de Shangri-Lá temos grande apreço por esta publicação e para mim será, certamente, uma honra informá-lo tudo o que eu puder informar a fim de contribuir com a reportagem.

– É uma honra ser recebido pelo senhor…, foi o máximo que consegui balbuciar diante daquela entidade sobrenatural.

 

Assim que pronunciei estas palavras o Lama Superior fez um aceno com a mão e, imediatamente, graças a um sistema de comunicação que ficou sendo um mistério para mim, entrou um criado a fim de preparar o elegante ritual do chá. Numa bandeja de laca foram colocadas as taças de porcelana fina contendo um líquido quase incolor. O fato é que o chá criou um clima propício para uma conversa que se estenderia por muitas horas. E quando já tinham se passado mais de três horas, entrei com tudo no tema de sua longevidade.

 

E entre um e outro gole do aromático chá, o Lama Superior foi me contando como sua chegou àquela idade. “ Como não morri na idade normal, comecei a sentir que não havia nenhum motivo conhecido para que isso acontecesse em tal ou tal época do futuro. Percebí que era anormal e acreditei que a anormalidade tanto poderia persistir quanto ter fim a qualquer momento. Assim sendo, comecei a viver sem mais cogitar da iminência da morte, que por tanto tempo me havia preocupado. Comecei a viver como sempre desejara, conservando meus gostos pela ioga e pelos estudos.

 

Quanto a você, meu caro Mantraman, tempo virá em que comece a envelhecer como os outros. Mas se souber como fazê-lo, em condições nobres, aos oitenta anos poderá subir ainda ao desfiladeiro com a agilidade de um moço, mas quando contar o dobro desta idade não deve contar que o mesmo vigor ainda persista. Não fazemos milagres, não vencemos a morte e nem sequer a decadência. Tudo que podemos fazer e temos feito algumas vezes é retardar a marcha desses breves momentos que constituem a vida. Logramos isso mediante métodos tão simples aqui quanto impossíveis em outros lugares. Mas não se iluda : o mesmo fim aguarda a todos nós”.

 

As palavras do Lama Superior deixaram minha mente extasiada. A forma como falava, o timbre de sua voz, o espaçamento entre as palavras, a clareza, enfim, tudo me deixou poussído por um encantamento sem igual. Não sabia mais o que lhe perguntar e quando me preparava para me levantar e começar a me despedir, ele ainda lembrou-me de não esquecer de enviar-lhe a Pirlimpimpim de Shangri-Lá. Nos beijamos afetivamente e, a seguir, o tibetano me conduziu de volta aos meus aposentos. No caminho comecei a ouvir a mágica música de Lo-Tsen ecoando pelas salas. Pensei em me despedir dela antes de partir. E foi o que fiz.

 

Sentei-me ao seu lado maravilhado com a agilidade dos seus dedos e, assim que a música parou, olhei-a profundamente disse-lhe com uma voz que até hoje não sei precisamente de onde veio “ Lo-Tsen, venha comigo, por favor, venha comigo…” Ela sorriu com sua meiguice estonteante e disse-me que ainda não havia chegado o seu momento de partir. Mas que gostaria imensamente de, um dia, encontrar-se comigo na civilização.

 

Durante aquela que seria a minha última noite em Shangri-Lá, desci até o Vale da Lua Azul e fiquei bebericando uma taça de vinho numa casa de chá, conversando com uma senhora tibetana e uma jovem chinesa. Estava triste por causa da partida e as duas percebiam a minha desolação. Depois de algumas taças, confessei-lhes o meu amor por Lo-Tsen e as minhas amigas disseram para eu não perder a esperança “ Com Lo-Tsen tudo é possível”, disse-me a mais velha.

 

E na manhã seguinte, qual não foi a minha surpresa ao ver Lo-Tsen ajeitando sua bagagem junto à minha. “ Não acredito, lhe disse, você vem comigo?” Ela acenou positivamente com o rosto e me deu uma longo e profundo abraço. Senti-me o mais glorioso e feliz dos homens naquele momento. Sem perda de tempo, despedi-me de Tchang com muita força e sinceridade afetiva e partimos rumo ao precário aeroporto de Shangri-Lá.

 

Foi sómente quatro dias depois, quando já nos encontrávamos em Pequim, que comecei a perceber as mudanças no rosto e no corpo de Lo-Tsen. Em menos de seis dias desde que saíramos de Shangri-Lá ela parecia ter envelhecido mais de trinta anos. Aparentava, naquele momento, uma mulher de sessenta anos de idade. E foi só então que entendi o segredo da longevidade em Shangri-Lá. Estava na atmosfera do próprio Shangri-Lá!