CONQUISTA DA INDECÊNCIA

abril 7, 2011

fui fiel com os desejos para que as cores pudessem aparecer em toda sua profundidade reveladora, minha vida em trânsito, útero ao pó, inclemente, implacável, sinuosa, oferece seus atrativos : amor, desilusão, crepúsculos, perdas, conquistas, pedras

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A SUJEIRA QUE NÃO QUEREMOS VER

março 8, 2011

   

Ontem vi na TV de novo. Acho que foi a quarta vez em menos de um mês. Parece se tratar de uma daquelas pautas epidêmicas que, de tempos em tempos, virotizam os telejornais brasileiros. É o seguinte : casal resolve dividir as tarefas domésticas. Alegam que o orçamento não está dando para contratar uma empregada doméstica, e, principalmente, que as coisas mudaram muito depois que a mulher “conquistou o seu espaço no mercado de trabalho” ( não aguento mais ouvir esta expressão!). Na reportagem de ontem, a imagem mostrava um um engenheiro civil, um rapaz de aproximadamente 27 anos, diante da pia, com uma bucha na mão, lavando, sem nenhuma intimidade, uma xícara que, suponho, tenha sido usada no café da manhã do casal em questão.  

Enquanto ele, um claro neófito absoluto naquele mundo de detergentes e espumas, tentava se entender com a parte que lhe cabia na nova divisão de tarefas domésticas, ela, trajando aquela típica roupa que caracteriza as mulheres que ocupam cargos executivos – tailleur preto até o joelho, camisa de seda branca, sapatos meticulosamente discretos – era entrevistada pelo repórter. Nesta altura deste tipo de reportagem epidêmica, o texto é sempre o mesmo, seja qual for a emissora, o telejornal, ou a entrevistada. Algo como “ é… o mundo está muito diferente. Foi-se o tempo em que lavar louça era um trabalho feminino….”. E o resto do texto todo mundo já sabe de cor.  

O que me deixa perplexo nesta ceninha “cada vez mais comum nos lares do mundo inteiro” ( será que na China também? vou investigar…) é a aversão que se criou, historicamente, pela sujeira. Parece ser um dado atávico, imemorial, a idéia de que sujar é bom e limpar é ruim. Ou, por outra, limpar é degradante, torna a pessoa que se habilita a tal tarefa menor do que a aquela que se compraz em sujar. É uma espécie de continuação do sinal de opulência ter alguém para lavar e limpar depois que o banquete ou a festa se acabar. “Olha quanta fartura em nossa mesa : frango assado, macarrão a bolonhesa, taças de vinho, musse de chocolate, vamos nos fartar que depois alguém limpa”. Este parece ser o pensamento que domina a nossa sociedade.  

Quantas e quantas vezes eu já ouvi a seguinte expressão : “pode deixar que depois eu lavo a louça”, quase sempre seguida de uma outra ;” não, não, eu te ajudo, o que é isto?”. Como se lavar louça fosse uma aberração social. E aqui, é impossível não lembrar do descaso com que são tratadas, na maioria das casas onde trabalham, as profissionais de limpeza, como se diz hoje, ou as empregadas domésticas como se dizia até pouco tempo atrás. Em geral, ela fica lá, sem direito a interlocução, a atenção, a beijos. “Lá” é o seu depósito de sujeiras. Vocês já viram uma visita chegar numa casa de classe média onde trabalha uma empregada e ir à cozinha cumprimentá-la com um beijo e perguntar-lhe algo sobre sua vida? Eu, que me lembre, não. Cabe a ela ficar em silêncio no seu mundinho de louças e panelas sujas, lavando, limpando, limpando, lavando.  

Estou morando sozinho a cerca de três anos. Neste período, intenso para quem nunca tinha convivido com a solidão em quarenta sete anos de existência, aprendi quase todos os macetes da limpeza doméstica. Devo confessar que, logo que assumi a solidão, parti para o velho expediente de ter uma faxineira que vinha na minha casa uma vez por semana. Com ela, fui aprendendo como e aonde se usa, por exemplo, a cândida, que tipo de produto de limpeza é melhor para limpar os vidros, o chão da cozinha, enfim, Dona Zica foi, durante um ano, a minha mestra e, principalmente, aquela que me fez perder aquele perturbador medo que até então eu tinha da sujeira.  

Seguiu-se a esta primeira fase, de maneira natural, a minha total iniciação à manutenção do lar propriamente dito. Aprendi a fazer compras no supermercado e escolher de maneira criteriosa os produtos que de fato estou precisando e vou usar. Para quem não sabia distinguir uma rúcula de um agrião, uma salsinha de um coentro, este último ano foi de progresso absoluto. Por exemplo, ao comprar um abacate verde sei em quanto tempo vou poder consumí-lo, aprendi a distinguir os diversos tipos de tomate e suas finalidades, molho, salada, tempero. O resultado deste processo é que cada vez mais fui abdicando dos restaurantes e lanchonetes e me entendendo com o forno e o fogão da minha casa. Hoje posso receber amigos para um jantar e não fazer feio. Com muito auto-didatismo, especializei-me em algumas receitas que se tornaram clássicos da minha culinária. Como a carne moída ao curry com lentilha e arroz integral com brócolis. Gosto do aroma, das cores e do sabor deste prato.  

Considero que esta minha autonomia no serviço doméstico, foi, de longe, o legado mais importante de toda minha vida. Sem exagero. Bem, agora chega desta conversa que eu tenho passar cera líquida incolor no assoalho da sala. Querem saber que marca eu uso? Segredo de estado.

 

 

 


(ELE NÃO SE CONFORMAVA)

janeiro 23, 2011

 

Durante muitos desertos vagou pelos quatro cantos do tempo à procura dos pais, dos irmãos e dos filhos. Embora nunca tivesse ido à Lua, conversava com formigas e vagalumes. Um astronauta.

Ontem ou antes de ontem, andando, não me lembro bem aonde, agora, desaprendi toda aquela lição, inalando a pura sabedoria pelos flancos indiretos do cérebro.

   

Ontem ou antes de ontem, não lembro bem agora quando, uma piscina com azulejos quebrados e musgos na borda sorria para um Sol de Janeiro.

Pensando bem, foi um dia de intensas revelações. Tinha chegado a um tal volume de conclusões num espaço tão curto de tempo que cheguei a desconfiar da veracidade destas conclusões. De qualquer forma, foi um dia propício para ser esquecido amanhã. Um bom dia.

 

 A uma certa altura da tarde, os raios do sol fustigando minhas pupilas, concluí que estava me acabando. Ah…que lembrança mais fugaz!


Está tudo certo conosco

junho 21, 2008

Está tudo certo conosco. O pensamento que pensa em você. A liberdade livre. Parece filme. Hoje eu ví um casal partindo rumo à escuridão : abraçados, dividiam animadamente um potinho de salada de frutas . O que me encanta é você, é o seu segredo. Nele reside a minha vida agora. Só choro às vezes,  comendo sucrilhos, “ meu deus, como isto é bom!”.

 

Nada de novo no mundo a não ser nós. Hoje você veio aqui e me disse literalmente : “ o cérebro em seu leito flui macio e verdadeiro. Mas deixe um desvio acontecer : seria mais fácil para você devolver a correnteza aos seus caminhos quando as correntes cortarem as colinas.”

 

Odeio estar sozinho mas não suporto interrupções. Abro minha janela e vejo sabe-se lá o quê. Um esquilo, nunca ví. Com binóculos, menos ainda, nem formigas. “Não é possível que no fim o milagre não aconteça.” Como eu pensava em você , enquanto você não vinha.

 

Ninguém sabe de onde vem o vento. E tampouco as sobrancelhas. Dito isto vamos nos perder.Muito mais razoável, portanto é abrir espaço para o acaso, o fortuito. Afinal, a vida é casual, fortuita. Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos. E nos procuramos em vão.

 

A descendência do caos, do mar e do céu. Ela me explicou, eu não ouví porque estava ocupado inventando um nova visão do amor. A verdade é que não me lembro mais com o que não me conformo. Fã do oxigênio, arauto da luz, protetor das formigas. A vida é uma seqüência de tragédias com pores do sol. E a Amazônia com sua pertubadora bio-diversidade.

 

Não sei o que será da Avenida Paulista quando Cronus agarrado em Zeus cuspir sua última pedra. De Ipanema quando Iemanjá e suas nove musas conferir o divino poder das canções. O próprio comportamento sexual deverá tornar-se pingüim. E assim por diante.

 

Guardem isso : “ mudar a mentalidade e a vida dos homens”. Os seres humanos são apenas uma parte do tecido da vida – dependentes do tecido completo para sua própria existência. Não podemos ignorar as formigas. Elas são galáxias em si. E por aí cintilam. Cada animal é um fim em si mesmo – sai perfeito do ventre da natureza e gera filhotes.

 

Eu falo em nome do verde da folha.

 

A meta é ar puro circulando, rios correndo limpos e soltos. E a presença de pelicanos, águias e baleias em nossas vidas. Salmão e trutas em nossas correntes. Linguagem cristalina e sonhos bons. Outra operação. Tipo tecido cósmico alinhavado. Não é possível que no fim o milagre não aconteça. Conosco vai tudo bem : não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.

 

“Mas Mantraman…’

 

Fim de papo.