A CIDADE TRIUNFANTE

dezembro 19, 2008

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 São Paulo, 12 de junho de 2028

 Querida Anna,

cheguei ontem em São Paulo e não via a hora de lhe escrever que Bóris não estava delirando quando nos relatou as impressionantes mudanças operadas nesta cidade nos últimos vinte anos. Imagine que o desembarque no Aeroporto Internacional de Cumbica durou menos de dez minutos. Você se lembra da última vez que estivemos por aqui? Ficamos seis horas na fila de desembarque e quando voltamos para Paris pegamos uma outra filinha de oito horas. Pois é. As coisas mudaram muito por aqui. E para melhor.

Ao deixar o Aeroporto não fui obrigado a tomar aqueles taxis azuis com seus exorbitantes preços fixos. Nem aqueles ônibus que nos deixavam na Praça da República às três horas da manhã à mercê de delinquentes e quetais. Hoje existem várias opções de transporte para quem desembarca em Cumbica. Você pode escolher entre metrô, trem e várias linhas de ônibus. Juro que levei o maior susto e demorei para escolher o tipo de veículo que me levaria até o hotel no Centro Antigo.

Enfim, resolvi seguir o conselho de Bóris. Peguei o trem que margeia o Rio Tietê e fui até a estação terminal em Cidade Jardim, às margens do Rio Pinheiros, onde havia uma conexão de metrô para o Centro. Você se lembra daquele rio morto e fedido que chamávamos de Tietê? Esqueça, aquilo não existe mais. Ele está totalmente limpo, reluzente e despoluído. Suas margens estão urbanizadas e contam com dezenas de centros culturais, quadras de esportes, escolas, creches, casas noturnas, centros de compras para todos os gostos e bolsos e, o melhor, graciosos “vaporetos” fazem diferentes trajetos vinte e quatro horas por dia.

É claro que aqueles mastodônticos congestionamentos que ocupavam aquela avenida que margeava o rio (acho que se chamava Marginal, não lembro), desapareceram por completo. A própria avenida, aliás, deu lugar a pequenas praias onde os paulistanos tomam Sol e se divertem. Inútil dizer como o ânimo e o humor dos habitantes melhoraram.

Quando cheguei na Estação Cidade Jardim, guardei minha bagagem e fui dar uma volta a pé. Eram cinco e meia e no céu tintas vermelhas e amarelas ensaiavam um glorioso fim de tarde. Andei a pé até uma prainha de areia na margem do Rio Pinheiros e fiquei ali observando algumas crianças brincando em suas águas transparentes. Um pequeno navio decorado com bandeirolas multicoloridas que tinha acabado de ancorar, oferecia múltiplas atrações culturais e gastronômicas. Resolvi entrar para conhecê-lo. Chamava-se “A Cidade Triunfante” . A bordo, encontrei quatro salas de cinema, uma biblioteca virtual da melhor qualidade, um estúdio de gravação e dois restaurantes, um indiano e outro marroquino. O “Cidade Triunfante” zarparia do cais de Cidade Jardim com destino à Estação Ponte das Bandeiras em meia hora. A viagem de ida e volta tem duração de quatro horas. E quase todas as passagens já tinham sido vendidas.

Desculpe, Anna, estou ainda um pouco atordoado e atônito de felicidade com o que aconteceu na cidade de São Paulo. Acabei de chegar no Hotel e, acredite, tudo funciona bem no meu quarto. Do chuveiro ao computador onde lhe escrevo esta mensagem eletrônica. Estou cansado da viagem e com muito sono. Vou dormir um pouco. Quando acordar deste sonho eu ligo para você.

Amor,

do seu Mantraman.


CARTA PARA MINHA MÃE

julho 22, 2008

Hoje está fazendo uma semana que você esteve aqui em casa e esqueceu ( acho que deixou premeditamente) um novelo de lã sobre a poltrona da sala. Assim que você acelerou seu carro rumo àquele fim de tarde hemorrágico, diante de um sol épico que se punha no horizonte como uma laranja futurista, notei a estranha e simbólica presença do tal novelo. A princípio supus que não fosse seu ( há pelo menos trinta anos que não a vejo tricotar), mas passados alguns minutos onde contabilizei todas as pessoas que haviam passado pela minha casa nos últimos cinco dias, concluí de maneira assertiva, que ele, o novelo de lã branca com algumas matizes de verde, vermelho e amarelo, era de fato seu.

Na noite daquela mesma tarde, coloquei-o sobre meu colo e comecei lentamente a desenrolá-lo, tarefa que só concluí agora, há menos de meia hora. Pode ser que eu esteja ficando louco ( “loucura é razão sublime para um olho perspicaz”, escreveu Emily Dickinson) mas este novelo recontou toda a nossa gloriosa e redentora história de uma maneira clara, quase didática. Na sua extremidade interna, onde acabei de chegar, estava intacto, azulado, brilhante, nada menos que o meu cordão umbilical. Tocando-o com os olhos fechados, pude reviver aqueles excelentes nove meses onde nadei no seu lago de águas quentes e fui, sucessivamente, girino, venusiano saudoso da minha última vida, homem-rã e, finalmente, ser humano.

É deste período a primeira lembrança que tenho de você : sua voz. Ao ouví-la pela primeira vez com clareza, estreei os meus neurônios com o seguinte pensamento : “ deve ser a minha mamãe, que voz linda, só pode ser uma pessoa maravilhosa” e assim que você permitiu, eu corrí para os seus seios repletos de leite e amor. Desde então, você se tornou a minha cúmplice indestrutível, entricheirada ao meu lado nos momentos mais catastróficos e caóticos da minha vida. E todos estes momentos, pode parecer absurdo, estão gravados no novelo de lã.

Como no dia da minha primeira fuga ( seriam várias ) da escola primária. Lembro-me da sua recepção eivada de uma rara compreensão e de uma afetividade desconcertante. “Eis um filho que foge da escola”, você teria pensado, enquanto me preparava um ki-suco de uva. Depois vieram os dias agônicos da minha juventude, toda aquela chatice de ter que escolher em menos de um ano o que eu seria pelo resto dos meus anos e você ali, ao meu ladinho, “ ah, é um filho que canta, que escreve e que dança…”, contra tudo e todos. É deste período , vejo no novelo, noites de inverno em frente à lareira, lendo Fernando Pessoa, Cecília Meireles e Helena Blavatski. Você se lembra?

Quando tudo parecia indicar a minha indesejada mas iminente entrada no mundo dos adultos neuróticos, você surgia, libélula com asas de pudim de leite, linda e luminosa, anunciando a chegada de uma eterna primavera : “ desperta no campo, gentil primavera, com ela chegou o canto, gorgeio do sabiá…” . Porque você, mãe, sempre foi esta criancinha encantadora, este manancial inesgotável de otimismo, este sublime e visível desejo de harmonia entre todos os seres de todas as esferas cósmicas. Aqui está, no novelo oráculo revelador, as incontáveis vezes que você salvou a minha vida. Foram trezentas e vinte e oito, exatas trezentas e vinte e oito vezes Não é espantoso?

E tudo o que ainda não vivemos corresponde ao branco do novelo. Olha, são algumas centenas de metros. É claro que pretendo encerrar ( em alguns anos) a minha vida pirotécnica instável mas, convenhamos, extremamente divertida. Ou seja, quero, ao menos vou tentar, ser um filho solícito e maduro. Um filho que nos fins de semana a convida para conhecer os pinguins da Patagônia Setentrional. E que durante a semana, declara, todos os dias, a gratidão de ter nascido seu filho.

P.S : Quando você vem aqui pegar o seu novelo de lã?