FAMÍLIA

março 29, 2011

 

 

tomado por megalomaníaco excêntrico desajustado gênio derrotado cada qual com seu adjetivo e seu afeto recalcado preocupante sou expulso de casa em casa até chegar nesta cabine de navio onde passo os meus dias misturando o azul entediante do céu com o amarelo sonoro da bandeira de karmapa : o próprio cinema novo quis levar um papo comigo mas eu sou o grilo e temo sapatos vulcabrás


ILUMINAÇÃO

março 27, 2011

 

 

 

 

 

zelo pela minha imperfeição, por todos os desvios que são enfim os caminhos por onde andamos, desde sempre, pelo descrédito e as tartarugas em pistas de autorama, pelas paisagens inauditas, impossíveis e por todos os amores inviáveis, inalcançáveis, estúpidos, redentores


CINEMA

março 24, 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

era um dia de sol e todos andavam em seus submarinos através das paisagens aquosas enquanto eu e meu rinoceronte sonhávamos novas formas atômicas pelo simples prazer de passar o tempo em contato com algo interessante, engraçado, inusitado, ah sim, a originalidade em sua extensão mais egoísta, nunca fui com a cara de religiosos previsíveis receituários da mesmice entediante

 


PIERROT

março 23, 2011

 

 

 

 

 

 

do que me lembro, jamais as vísceras expostas, sempre uma máscara, uma pele de escafandro, um querer ser e jamais ser, só aparência, espuma, quando raras vezes o coração tocado através da couraça, um séquito de lágrimas, dor da beleza, isto tudo, ser, dói


FALÁCIAS

março 23, 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

houve um tempo em que tinha certezas como daqui se chega lá, primevas lógicas glaciais eclipsadas por bandos de pinguins atônitos e curiosos, agora tudo é degelo em meu pensamento puro e hostil, enquanto ando em aloprado zigue zague


O DESERTO E SUAS MIRAGENS

março 16, 2011

Foram três dias de intensas ilusões. A primeira chamava-se Cláudia e era alta, loira e bela, muito bela. Tê-la era uma questão meramente estética. A segunda foi Tereza que além da beleza tinha o atributo precioso da loucura. Tê-la era aventurar-me em paisagens inauditas. A terceira, Fernanda, beleza, loucura e poesia. Tê-la era ter-me. No quarto dia caí em mim.


NOSSOS REINOS FELIZES

março 14, 2011

Faz parte da essência da imaginação humana a invenção de reinos, países e continentes onde todos os seres vivem em harmonia, paz e prosperidade. Em geral, estes saudáveis delírios feitos de sonho e utopia, costumam situar-se num passado remoto e estão sempre fora do nosso alcance. São inacessíveis. Como os sonhos. 

Para os ocidentais este lugar chamou-se Continente de Atlântida. Até hoje não sabemos ao certo se foi uma magnífica ficção escrita por Platão, após ouvi-la de Crítias, ou se de fato existiu ou se ainda existe submersa em algum ponto do Oceano Atlântico coberta por cardume de celacantos, musgos fosforescentes e fragmentos de belas estátuas de bronze. 

No Oriente, sobretudo no Tibete, assim como em muitas regiões da Ásia, circula a história de um reino igualmente platônico, habitado por cidadãos amáveis e gentis, governado por soberanos sábios e compassivos. Chamava-se Shambhala. Dizem as lendas que toda sabedoria shambhaliana foi transmitida por Buda para o primeiro rei de Shambhala, Dawa Sangpo. 

Para muitos tibetanos este reino continua a existir, oculto num vale remoto em algum lugar do Himalaia. Algumas escrituras budistas afirmam que é possível chegar a Shambhala fisicamente. Outras lendas dão conta de que o reino esvaneceu-se numa esfera celestial. Entre muitos mestres do budismo tibetano circula a idéia de que Shambhala nada mais é do que a obtenção de um bem estar físico e mental. 

Segundo palavras de um dos únicos livres disponíveis no Ocidente sobre o assunto “Shambhala, A Trilha Sagrada do Guerreiro” (Ed.Cultrix) ditas em conferências proferidas pelo tibetano Chögyam Trungpa (1940-1987) em agosto de 83 na cidade americana de Bolder, Colorado, “Os ensinamentos de Shambhala fundamentam-se na premissa de que existe de fato uma sabedoria humana básica capaz de ajudar a resolver os problemas do mundo.” 

Pode o sagrado leitor achar que estamos diante de mais um daqueles livrinhos de auto-ajuda, tipo caça níqueis. Não é. Garanto. Primeiro porque a simples leitura do livro, embora seja por si só uma viagem filosófica vertiginosa, de nada vale sem as práticas que ele mesmo propõe e ensina ao leitor. A base destas práticas, como não poderia deixar de ser, é a meditação. São diferentes estilos de meditação para diferentes finalidades. 

Mas voltemos, sagrado leitor, à simples leitura, que, como dizia, é uma viagem filosófica surpreendente. O tempo todo Trungpa nos faz deparar com conceitos desconcertantes. Como este sobre o medo. “Reconhecer o medo não é motivo para depressão ou desânimo. Porque temos medo, temos também potencialmente o direito de experimentar o destemor. O verdadeiro destemor não consiste em diminuir o medo, mas em ultrapassá-lo”. 

Quer tenham existido ou não, tanto faz. Shambhala e Atlântida são reinos irmãos que nascem do mesmo útero. Aquele que gera os sonhos de uma sociedade mais bela e evoluída.