82, NEON

junho 2, 2012

1.982 foi o ano em que a maioria e as mais importantes bandas da chamada geração do rock dos anos 80 surgiu.  É a data que marca os primeiros shows de Ultraje A Rigor, Ira, Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana, Gang 90, dentre outras. Neste depoimento autobiográfico o ex-titã Ciro Pessoa recapitula como eram os bastidores do início deste movimento que até hoje ressoa nas veias da música brasileira.  

Na noite em que fiz 25 anos de idade as estrelas do céu de Lumiar zuniam e rodopiavam como bailarinas russas afetaminadas. Eu estava deitado sobre uma planície esverdeada ao lado da minha namorada carioca. Minha mente, contudo, transpunha com agilidade de Nijinski a formidável lua cheia, as nuvens, o espaço e espatifava-se sobre uma iluminada Avenida Paulista. 

Estava morando no Rio há três meses, meu romance tinha esfriado e nas duas últimas semanas estava obcecado por um projeto musical que tinha nascido em SP há menos de seis meses e atendia pelo nome de Titãs do Iê Iê Iê. Esta obsessão tornou-se insuportável desde o dia em que o meu chefe na agência de publicidade que trabalhava num prédio antigo da Cinelândia, me mostrou a gravação de algumas faixas de um disco de um certo Lobão. Meu chefe era o letrista deste projeto e chamava-se Bernardo Vilhena. O disco era o Cena de Cinema.

 

Rock direto com alguma influência punk, power trio comendo solto, a voz rasgada de Lobão, tudo isto acabou me abrindo o apetite para voltar para minha cidade e reunir Arnaldo, Belloto, Marcelo, Paulo, Branco, Brito, Nando para uma jornada em mar aberto. Em menos de quarenta e oito horas já estava na porta da casa dos meus amigos Eduardo Elias e Paulo Millani, na Vila Mariana. Os dois se aliaram ao projeto imediatamente e criaram condições físicas para que ele se desenvolvesse.                                                                               

Éramos então um bando de hippies que fumava maconha, flertava com a cozinha macrobiótica, ouvia reagge e MPB e sonhava com um mundo power flower que já tinha ido para o abismo há muito tempo. Mas tínhamos uma banda e dentro da banda havia uma camaradagem e um fluxo criativo bastante intensos. Naquele inverno de 82 nos trancamos durante quatro meses no estúdio improvisado dentro de um galpão daquela antológica casa da Vila Mariana e de lá só saímos para estrear no Sesc Pompéia no dia 15 de outubro de 1982.

 Foi só então que tiramos ( eu ao menos) nossas cabecinhas do fundo da terra e olhamos em direção à superfície. Ao redor começaram a surgir nomes como Ultraje a Rigor, Ira, Agentss, Barão Vermelho, Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, Paralamas do Sucesso, Blitz. Nomes tão estranhos como o nosso e afinados na mesma idéia : criar uma nova linguagem musical que enterrasse o ramerrão que era a música no Brasil naqueles idos. 

Uma ou duas semanas depois de nossa estréia fui ver o Ira tocar pela primeira vez num teatrinho mequetrefe do Bixiga. Quando o show acabou percebi claramente que havia algo em curso. Fui falar com os caras e ouvi a expressão “atitude punk”, acho que foi do Edgard Scandurra. Tudo naquela apresentação  parecia ser muito urgente, enérgico e novo. Adorei. E fiquei a fim de me tornar amigo dos caras. O que acabou acontecendo.

 

Na semana seguinte conheci o Julio Barroso. Minha namorada paulistana já tinha me falado dele como dj –  era sua assistente nas suas discotecagens pelos nascentes clubes new wave de São Paulo. Ela marcou um encontro com ele num boteco da Alameda Ministro Rocha Azevedo, à tarde. Era novembro e o calor chicoteava o asfalto da cidade criando ondas negras e musgosas. De repente, gigante, ele surgiu por entre os carros, entrou no bar – parecia louco, alegre, bêbado – com um livro de Ezra Pound embaixo do braço, desconcertante, falante, carioca, canibal.

                                                                                                                                          

Naquela tarde ele me falou sobre o disco que estava gravando com sua banda Gang 90 e As Absurdetes e, entre cusparadas de perdigotos com recheio de cerveja, cantou várias letras “ já foi assim / mares do sul/ entre jatos de luz / beleza sem dor / a vida sexual dos selvagens” ( “isto é tirado do conceito de inconsciente coletivo do Jung!!!” ele berrava) e me falou de dezenas de bandas que nunca tinha ouvido falar.  B’52, Kid Creole and the Cocnuts Girls, Gang of  Four, Devo, Talking Heads e muitas outras.  

A poucos metros daquele boteco surgiria, um mês depois, o Hong Kong, um night club capital para que o rock dos anos 80 decolasse. E quem estava à frente do empreendimento era o Júlio. Por ali passaram várias bandas. A pista de dança era um verdadeiro supermercado de sons novos, cabelos coloridos e drinks efervescentes. Como toda decoração desta época, o neon aparecia no luminoso principal, nos frisos dos balcões e na decoração das paredes. 82, neon. A cocaína era rara mas já começava a colocar suas garras brancas e brilhantes para fora. Garras que se tornariam tatuagens em poucos anos. 

Apesar de fazer parte de uma banda,  Júlio tinha uma visão ampla do que estava acontecendo. Queria trazer as bandas do Rio para São Paulo e vice-versa. Conhecia todas, gostava de todas. Era um especialista em achar muquifos parasitas e torna-los lugares vivos e vibrantes. Foi assim com a obscura boate Val Improviso no Largo Arouche, local frequentado por gays e travestis e que, graças à sua perspicácia, tornou-se um dos lugares mais emblemáticos daquela época. 

Seu lema era a máxima maikovskiniana “prefiro morrer de vodka do que tédio”. E eis algo que ele levava a sério. Era raro encontra-lo sóbrio. Numa noite saímos pelos bares mais sórdidos do centro de SP e ele, mesmo cambaleando, continuava a beber e a provocar discussões e terremotos por onde quer que passasse. No dia seguinte fui leva-lo para o Aeroporto de Congonhas onde voaria par o Rio e no caminho ele me confessou “porra, Cirinho, não lembro de nada do que aconteceu ontem…”. 

                                                                                              ooooooooooo 

Longe dos Jardins, dos neons e dos aromas de perfume francês, um outro universo se erguia vindo da periferia. Era o movimento punk. Nós vínhamos da comportadíssima e hippie MPB e não entendíamos direito o que eram aqueles cabelos moicanos, alfinetes rasgando a boca, coturnos e, sobretudo, aquele som gritado, com letras visceralmente políticas.

Meu primeiro contato com esta tribo foi no festival O Começo do Fim do Mundo no Sesc Pompéia em novembro de 82. Naquela tarde tumultuada, caótica, se não entendi, senti o que era “atitude punk”. Era como se eu estivesse num outro planeta, onde os punks eram os alienígenas. Uma multidão de extravagantes bestas. No palco, as bandas Cólera, Inocentes, Ratos do Porão pareciam envolvidas num torneio para ver quem gritava mais. O vocalista de uma das bandas, acho que Juízo Final, esgoelava uma palavra de ordem “Morte aos hippies!” enrolado numa bandeira do Brasil. Meus cabelos na época eram compridos e, à medida que a palavra de ordem ia se encorpando e ganhando força, fui saindo de fininho. Quando estava indo embora vi uma tropa de choque da Polícia Militar chegando. Soube depois que o pau comeu solto. E aquilo, creiam, era rock and roll.

 

A relação entre as bandas punks e as chamadas new waves, rótulo em que  nós éramos incluídos, não era das melhores. O termômetro desta “diferença” se deu com o nascimento de uma nova boate no centro de São Paulo com o sugestivo nome de Napalm. Ali, de maneira inédita, punks e new waves ocupavam o mesmo palco, a mesma pista, o mesmo balcão. Fizemos um show lá. Lembro-me que parte da platéia, na sua maioria punks, ficava de braços cruzados balançando a cabeça negativamente. Foi o primeiro lugar em SP que o Legião Urbana tocou. A seguir, já em 83, as bandas de Brasília começaram a aportar de maneira sistemática em terras paulistanas. E todas passaram pelo Napalm.

                                                                           

Então, em dezembro de 82, tínhamos este panorama. Dezenas de bandas – muito diferentes entre si – procurando lugares para tocar, estúdios para ensaiar e gravar. E os estúdios eram terríveis, vivíamos num país completamente despreparado para este tipo de som. Gravar um bumbo com potência numa gravação era um suplício. Era preciso enviar um requerimento em duas vias, carimbo, depois voltar, entregar no guichê. E esperar a boa vontade do técnico de som. 

Todas as bandas eram amadoras. Não me lembro de ter ganhado algum dinheiro com música neste ano. Acho que ninguém ganhou, aliás. Dinheiro veio dois anos depois. E para a maioria destas bandas, choveu durante duas décadas. Para outras ainda continua chovendo. Mas a grande maioria delas já passou. Como o neon. Ninguém usa mais.