ROUBEI A PERUCA DE JESUS

 

30/01

 

O negócio é tocar a bola e esperar o juiz apitar o fim do jogo. Definitivamente, não há sentido nenhum nesta partida. Tive um dia e uma noite intensos. Agora são cinco e meia da manhã e ao invés de estar dormindo como mandam as normas de segurança da longevidade estou aqui refletindo sobre o que vivi nas ultimas vinte e quatro horas. Sinto-me um operário padrão da inutilidade. 

 

6/02

 

Parece que o verão finalmente chegou. Parece. O que seria de mim se me dessem um ano de contas pagas? Hoje de manhã ruiu minha última ilusão financeira : a sra. Beatriz, incisiva, decidida, negou-me adiantamento por obra futurista. À tarde, antes da chuva luminosa e transversal, a visita de Lú, minha penúltima ilusão amorosa. Agora, noite, a poesia, ilusão definitiva. Preciso urgentemente reconhecer o meu lugar no mundo formiga.

 

 

 18/07

 

Semana passada ganhei um troféu. Curiosa sensação. Como sempre, fui à cerimônia de prêmiação para perder. E, no entanto, voltei para casa com a estatueta. Passado o delírio de subir ao palco e receber a arvorezinha de metal, fui tomado por um êxtase egóico sem precedentes. Afinal, era a sociedade coroando meu esforço de escriba. Nada mais importante do que escrever num escritório com o aval da sociedade. Estava ficando inseguro.

 

 

23/09

 

Voltei a usar a substância que produz sede saárica.

 

 

19/04

 

Tudo começou quando conheci Spyder, o poeta beat-metafísico português que tinha no seu currículo venda de psicotrópicos para entidades como David Bowie e Iggy Pop. Era como se eu estivese conhecendo alguém que já conhecia há milênios, o Spyder. Junto com ele, Severa, uma garota sensacional com uma história sensacional. Precoce, roubou a peruca de Jesus com apenas 16 anos de idade.   

 

 

29/12

 

O roubo da peruca de Jesus criou alento e inspiração para fundação de um fanzine que batizamos de Roubei a Peruca de Jesus. Severa seria a editora, Spyder cuidaria da editoria espírita usando o codinome Gasparzinho, Repepê, o proprietário da nascente mas promissora empresa Companhia das Águas ficaria à frente da editoria de esportes, e eu acabei ficando com o suplemento agrícola que achamos por bem ser verde e roxo e com uma coluna permanente de Nelson Ned.

 

 

02/07

 

 

O maior perigo reside na doença, no sofrimento que a doença produz. Para evitar a armadilha passei a evitar falas médicas e e me entreguei de cabeça a auto-sugestão. Quando a mente está alerta os vírus entram em pânico.

 

 

12/13/14/06

 

Foram três dias de intensas ilusões. A primeira chamava-se Cláudia e era alta, loira e bela, muito bela. Tê-la era uma questão meramente estética. A segunda foi Tereza que além da beleza tinha o atributo precioso da loucura. Tê-la era aventurar-me em paisagens inauditas. A terceira, Fernanda, beleza, loucura e poesia. Tê-la era ter-me. No quarto dia caí em mim.

 

 

23/04

 

 

Hoje parecia domingo. E era. Para mim, indiferente. As mesmas dúvidas de sempre. Porque preciso de alguém para amar e ser amado? Onde esta esfinge foi erguida e nublou a minha visão da felicidade? Em que ponto da nossa história genética este berro virou um barro totêmico? Hoje parecia domingo. Mas não era. Era mais um dia de dúvidas. Como todos.  

 

 

31/03

 

 

Súbita e atroz saudade de Fratelo.

 

 

02/01

 

Ninguém me procurou. Todos de férias. Da minha insensatez. Não vejo mais caminho de volta. Roubei a Peruca de Jesus pode vir a ser minha nova ilusão, meu libelo a favor das libélulas. Algo como pilotagem divertida num kartódromo psicodélico. Vou convidar Gracita para usar a peruca de Jesus por uma semana.

 

 

22/07

 

Acordei com o firme propósito de encontrar o tempo perdido. Saltei da cama em estado de rara animação e procurei-o nas gavetas e dentro dos livros. Inútil. Quando a manhã ensolarada já ia alta, arranquei o meu coração e interroguei-o a respeito de um certo tempo que havia perdido. Em vão. Disposto a chegar às últimas consequências liguei para o Homem do Tempo. Ocupado. Deseperado, acionei os astrofísicos da Nasa. Nada. Quando tudo parecia perdido o telefone tocou. Era ele.

 

 

17/11

 

 

Spyder me liga de madrugada com a péssima boa nova : Severa, a nossa editora do Peruca, está em poder da Farcs (Futurismo Aéreo Rebelde ao Cone Sul). Indago-lhe o que ou quanto estão pedindo para libertá-la. Pode parecer absurdo mas os caras querem, simplesmente, ficar com a peruca de Jesus para sempre. Pondero para Spyder que isto seria o fim da nossa última e mais preciosa ilusão. E peço para que ele negocie-me como refém dos terríveis pinguins da Patagônia Mentalis por tempo indeterminado em troca da liberdade da Peruca de Jesus.   

 

 

16/11

 

Intuindo que a situação da Peruca de Jesus poderia agravar-se, uso de todos os meus precários dons para alianças políticas e resolvo procurar por Aline Dorel, a famosa atriz e deusa viva do cinema de todos os tempos e direções, espécie de eminência inquestionável para questões ligadas à Peruca de Jesus. Depois de muitos contatos telefônicos, localizo Aline num set de filmagem em Cairo contracenando um filme com Charlton Heston com o nome provisório de “Os 10 Mandamentos”. Explico-lhe, aflito, a gravidade da situação. Com a voz um tanto lenta ela me pede um tempo para resolver a questão. Antes de desligar o telefone ela tenta me tranquilizar alegando que conhece como poucas a Peruca de Jesus.

 

 

05/09

 

Mais uma noite de contrasensos. Por mais que eu tente recuperar uma postura de seriedade e continuidade que nunca tive, sou sempre surpreendido pelo acaso e seu sorriso.

 

 

09/11

 

Intuindo a gravidade da situação mudamos para Piracicaba. Longe do tumulto metropolitano traçamos estratégias a fim de libertar Severa. Contudo, súbita e avassaladora paixão de Aline Dorel pela Peruca de Jesus inviabiliza nosso plano. Para piorar a situação, Spider apaixona-se por Aline. Repepe tenta remediar o caos internando-se numa fábrica de suco de cajú. Sólido como um gelo alio-me a um pinguim especialista em desatar nós.

 

 

14/08  

 

Silenciosamente chove sobre o tempo.

 

 

8/03

 

Teste de resistência e fidelidade aos ideais do Peruca de Jesus. Vigiados pelas autoridades locais e pressionados pelas quatro estações e seus efeitos devastadores, presenciamos o nascimento dos 32 filhos de Aline com Peruca de Jesus e a súbita e surpreendente falência da competente fábrica de suco de cajú que livrou Repepe do caos. Colômbia marxista nos envia Severa de volta pelo correio. Irreconhecível, quer transformar o Peruca numa fábrica de biscoito de milho. Percebendo sua ausência, enviamo-a de volta para Colômbia anexada a um livro de Clarice Lispector. Spider emotivo chora pela devolução.  

 

 

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