AS CARCAÇAS DE NEANDERTHAL

Toda vez que estou encalacrado num veículo em meio a um mega congestionamento lembro-me daquelas maravilhosas espaçonaves que levitavam felizes e coloridas nos céus do antológico desenho animado Os Jetsons. É flagrante que muitos daqueles atrevimentos futuristas que habitavam o cotidiano da família, como as extensas esteiras rolantes horizontais, serviram de inspiração para inventores, designers, arquitetos e engenheiros contemporâneos. Mas no tocante aos veículos, ficamos com a opção mais primitiva e ineficaz que são estes automotores rastejantes que se procriam pelas ruas das grandes cidades numa velocidade prá lá de geométrica.

 

Sabe-se que a velocidade média de um carro que trafega hoje nos centros urbanos é inferior à velocidade que andavam as caravanas dos bandeirantes com seus jumentos e botas de Borba Gato. E que só na cidade de São Paulo cerca de 40 mil pessoas morrem por ano por problemas decorrentes de doenças respiratórias provocadas pela enxurrada desumana de monóxido de carbono que estas carcaças de neanderthal despejam diáriamente na atmosfera. Mas por que, oh santos escapamentos & direções hidráulicas!, a indústria automobilística no Brasil continua batendo seguidos recordes de venda de seus anacrônicos, criminosos e nefastos produtos? 

 

Em todas as grandes cidades do primeiro mundo o automóvel tornou-se um “veículo non grato”. Uma repórter televisiva que mora em Nova York, disse numa entrevista que ter carro nesta cidade hoje em dia é considerado algo de extremo mau gosto. Usou mesmo o termo “jeca”. Um amigo meu fez um vôo entre Londres e Oslo, há poucos dias atrás. Contou-me que quando os passageiros chegaram no estacionamento do aeroporto da capital norueguesa, mais da metade foi embora de bicicleta. Sendo que ali havia, à disposição dos passageiros, ônibus, metrô, trem e taxi. 

 

 

Bem, diriam os realistas, quem comanda o jogo é o capitalismo, quem comanda o capitalismo é o mercado e quem comanda o mercado são os empresários, feitos de carne e osso, diga-se de passagem. E todos que fazem parte desta “ciranda” – incluindo sindicatos, trabalhadores, os novos consumidores, governo e, sobretudo, os publicitários – parecem muito felizes com o andar desta carruagem putrefata. Cada qual com o seu interesse. Interesses, que, aliás, estão interligadas.

 

A impressão que tenho é que 50% das propagandas exibidas na TV são de automóveis. É algo absolutamente desproporcional. Um desavisado estrangeiro que chegar aqui e assistir meia hora da nossa programação vai achar que o brasileiro é um louco aficcionado por automóveis e que só pensa nisto 24 horas por dia. Há de se notar que nestes filmes, os veículos são humanizados, glamorizados, mitificados, tudo no limite da histérica idiotia. Eles sempre andam em alta velocidade em estradas e cidades vazias e o mundo sempre está aos pés de quem os dirige. Em suma, gera uma sensação de que se você não tem um não é ninguém. E é possível detectar esta cruel falácia quando andamos pelas ruas no papel de pedestre. A grande maioria dos motoristas vê o transeunte como alguém que não é ninguém. Atropelamento é algo corriqueiro. É a própria expressão da barbárie.  

 

Soma-se a esta crueldade perpetrada pelo mundo publicitário, feita de ilusão e de mentira, o evidente descaso dos governos com transportes públicos. É absolutamente patético que um passageiro desembarque no Aeroporto de Cumbica, na segunda maior cidade da América Latina, e tenha só duas opções de deslocar-se, de taxi ou de ônibus ( que saem de uma em uma hora e custam o olho da cara). E que depois siga por uma via como a Marginal Tietê ladeada por um rio cadavérico e tendo como companhia milhares de carros que andam a menos de cinco quilômetros por hora, quando andam. No rio, nenhum sinal de vida. Nenhuma barcarola.  Nada. Só desolação e descaso. 

 

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