ERA UMA VEZ UMA BULGÁRIA

Lembro-me com uma distorcida nitidez da noite em que ouvi pela primeira vez o nome de Campos de Carvalho. Estava jogando bilhar num daqueles botecos ladrilhados da Cardeal Arco Verde quando um acaso favorável fez com o que o poeta Sérgio Cohn, então editor da sensacional revista de poesias Azougue, adentrasse o ambiente. Disse distorcida nitidez : lembro-me que chovia e que ainda estávamos no conturbado século XX. E que as esferas coloridas ricocheteavam provocando um ruído estridente, agudo. Acho que os ladrilhos eram brancos. E que o Sérgio estava de óculos. Pouco importa.

Sentamo-nos numa mesa e ele me contou que tinha acabado de entrevistar o Campos de Carvalho. “ Quem?” “O maior escritor brasileiro de todos os tempos!” “Como? Nunca ouvi falar deste cara…” Me parecia impossível eu não conhecê-lo, principalmente porque Sérgio repetiu algumas vezes durante o intenso diálogo que  “o texto de Campos tem tudo a ver com você…”. Comecei a achar que era ficção. É normal em conversas entre poetas e escritores estes legítimos delírios onde inventamos alguém que nunca existiu para ver até que ponto conseguimos convencer o nosso interlocutor.  Já estava com a cereteza de que era alvo de uma destas brincadeiras quando pedi-lhe para que dissesse alguma frase do escritor. “ Aos dezesseis anos de idade matei meu professor de lógica alegando legítima defesa.” Houve um silêncio. Aquele silêncio que se segue após uma porrada, um forte estrondo, uma tempestade. “É a primeira frase de “A Lua Vem Da Ásia”, uma de suas quatro novelas” disse Sérgio emoldurando meu encantamento.

Depois daquela noite posso afirmar que eu nunca mais fui o mesmo. Um ano depois a editora José Olympio lançaria um livro com as tais quatro novelas ( A Lua Vem Da Ásia, Vaca De Nariz Sutil, Chuva Imóvel e o Púlcaro Búlgaro) e eu me tornaria um discípulo e divulgador emérito da obra de Campos de Carvalho. Me deixei influenciar pelas suas idéias, sua maneira livre e louca de escrever, seu surrealismo intransigente e iconoclasata, seu senso de humor sarcástico e dilacerante. Passei alguns anos devorando aquelas iguarias non-sense-insanas e procurando digeri-las no calor dos textos que escrevia.

Nesta época trabalhava como repórter de uma famosa revista de turismo. Tinha um bom trânsito com os editores e redatores e minhas pautas, embora atípicas e excêntricas, eram aceitas com facilidade e simpatia pela direção da revista. E foi munido deste cacife que entrei numa reunião de pauta e disse-lhes o seguinte : “ Alguém precisa ir à Bulgária e comprovar a existência deste país. Até onde sei, ele não existe.”  Houve uma nervosa gargalhada e a seguir o editor, com uma expressão “este cara vai aprontar, mas vamos ver onde isto vai dar” aprovou a viagem. A pauta, na verdade, vinha de o Púlcaro Búlgaro, uma das quatro novelas de Campos de Carvalho. Na vertiginosa narrativa de aproximadamente cem páginas, o personagem organiza uma hilária e absurda expedição à Bulgária a fim de certificar-se da existência daquele país.

Dias depois estava no avião em solitária expedição rumo à Sófia, a capital do controvertido país. Munido de uma câmera digital e embriagado do espírito surrealista de Campos de Carvalho entrei na fila que me levaria ao Bigode do guarda de fronteira búlgaro e a seguir à possível constatação da existência do tal país. Enquanto esperava minha vez, observava um tapume de madeira que dividia a rua do Aeroporto. A parte inferior deste tapume era vazada o que tronava possível ver sapatos de “cidadãos búlgaros” transitando pela suposta calçada. “Onde há búlgaros há Bulgária”, pensei.

Mas os secretos desígnios que conduzem nossos passos me guardava uma surpresa. Ao abrir meu passaporte o policial olhou-me com assombro e, num inglês típico da região, informou-me que a data do meu visto de entrada estava prevista para dali há quatro dias. E que eu não poderia entrar naquele momento, mas se quisesse poderia esperar na sala de embarque durante os quatro dias ou retornar a Milão, de onde tinha vindo. Olhei para a desolada e gelada Sala com seus sofás e bancos de couro imundos. A tempertaura local era de menos dez graus. Nevava.

Disse-lhe que era repórter de uma revista brasileira de turismo e que estava ali a trabalho. Ele então conduziu-me até uma sala, onde fiquei esperando um funcionário que trataria da minha situação. Neste ínterim de quinze minutos lembrei-me de que a maioria da polícia secreta da ex-União Soviética, a terrível KGB, era composta de búlgaros. Tremi. Então chegou o tal Nariz, o funcionário, acompanhado de mais três mulheres, todas Narizes. “Para quais lugares da Búlgária que você pretendia ir?” perguntou-me já me informando no verbo “pretendia” que eu não entraria no seu país.  

Neste momento eu já tinha entendido que a minha matéria estava em pleno curso, a pauta funcionava, policiais de fronteira búlgaros queriam ocultar de mim a não existência da Bulgária. Respondi-lhe que meu objetivo era “andar sempre frente sob a neve até atingir o Mar Negro.” Ele se sentiu ofendido e retorquiu nervoso “ mas porque você  foi mandado pela sua revista justamente para a Bulgária?” . E esta era a perguntava que eu mais esperava. “ Porque no Brasil há uma desconfiança quanto à existência da Bulgária.” . Imediatamente ele apontou a porta de saída e, acompanhado de dois Narizes masculinos e um feminino, fui jogado no ônibus que me levaria até o avião.

De volta à Milão, bolei um plano para atingir o misterioso país de trem. Dei-lhe o jocoso nome de “Pegando Os Búlgaros De Calça Curta”. Mas fui capturado na fronteira da República Tcheca e deportado para a Áustria, país que não via nenhum mal no fato de um repórter brasileiro desconfiar da existência de um outro país. Em Viena tomei oito cafés com o embaixador brasileiro daquele país enquanto ele não resolvia absolutamente nada e me tratava como seu eu fosse búlgaro e conheci uma garota de programa. Relatei-lhe minha brava saga que já durava três dias. Ela fingiu uma comoção. E abriu suas alvíssimas pernas.

O resto, bem, o resto é segredo

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