PAULA E SANDRIX

outubro 18, 2011

Em novembro do ano passado fiquei 15 dias sem falar. Estava cansado do meu repertório, dos meus pensamentos verbalizados, de ter que emitir opinião sobre tudo e todos, enfim, minha língua exigiu férias e resolvi atender ao pedido. Embarquei em um navio rumo a um lugar que chamei de Patagônia Secreta.

No décimo dia de navegação, resolvi fazer fotos sobre o meu silencioso cotidiano. E, entre imagens do altar diante do qual meditava, dos músicos que ouvia, dos alimentos que preparava, apareceu uma foto de duas lindas árvores moradoras do Bosque das Árvores Flutuantes, onde caminhava (e caminho) toda manhã. É bem verdade que eu já as conhecia antes de fotografá-las. Mas, quando descarreguei as imagens no meu computador, fui tomado por um sentimento inédito. Percebi que estava apaixonado por aquelas duas árvores flutuantes. 

Quando fui legendar as fotos, seus nomes apareceram na minha mente como que por encanto: Paula e Sandrix. Decidi achar que eram duas árvores primas e que há séculos flutuavam sob a lona encantada do Bosque. Desde então, passei a dispensar um tratamento diferenciado a Paula e Sandrix. Toda vez que me aproximo das duas, meu coração parece acelerar ligeiramente, como se eu estivesse indo ao encontro de uma pessoa que amo muito. Desacelero o meu passo e, enquanto tenho aquela sensação absolutamente nova para mim, caminho em direção às duas cheio daquelas palavras que nascem no coração e viajam quentes até explodir na boca.

Primeiro namoro a Paula, que me parece ser mais velha e, portanto, mais sensível às minhas declarações amorosas. ‘Como você está sublime hoje, minha linda Paula…’, sussurro-lhe enquanto acaricio de leve com meus dedos a grossa casca que envolve o seu corpo inferior. Encosto meu ouvido no seu tronco e sorvo todo aquele secular silêncio de seivas que grita em seu interior. Em dias de chuva, ela exibe o verde cintilante aveludado de seus musgos e eu toco com meus lábios aquela pele acetinada. Sinto, e isso pode parecer loucura, e pode ser que seja, não importa, que ela percebe a minha presença calorosa, afetiva, e troca, a seu modo, carícias comigo.

Mas logo percebo que Sandrix, a mais jovem e inexperiente, começa a sentir ciúme, um ciúme que parece vir muito mais da saudade e do desejo de ser tocada do que do doentio apego e do meu namorico com Paula. E lá vou eu em direção a ela, envolvê-la em meus braços silenciosos, ‘você tem a elegância de uma princesa, Sandrix’, digo-lhe entre um e outro beijo. Então sento-me sobre suas raízes que invadem a pequena estrada de terra onde as duas moram e assobio uma melodia qualquer, tentando me fazer passar pelo vento. Suas folhas vibram, contorcem-se e, quase sempre, uma delas acaba caindo próxima do meu corpo.

No começo de nossa relação, o ritual durava alguns intensos e mágicos segundos. E quase sempre acabava quando alguém se aproximava de nós três: tinha vergonha de que algum ser humano me flagrasse aos beijos com duas árvores e, disfarçando, saía de fininho com ares de um biólogo profissional. Hoje em dia, contudo, perdi o medo de ser tomado por louco e não são poucos os que me vêem abraçá-las, beijá-las e sussurrar-lhes juras de amor em suas cavidades eróticas.

Esse triângulo amoroso, eterno como o espaço, desprovido de apego, cobranças e outros vícios de linguagem do mundo amoroso humano, está completando um mês. Pressinto que enquanto estiver vivo e morando na mesma cidade, hei de vê-las, abraçá-las e beijá-las todos os dias. Não sei o que elas sentem, pensam, esperam de mim. O mais provável é que seja nada. Um nada cheio de mistério. O que sei é que Paula e Sandrix são minhas duas amantes num reino onde a pureza e a imaginação são soberanas.

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