Escuta Melissa : basta uma palavra para destruir o sólido edifício da calma. Esta noite eu tive um sonho, vi a Lua cair num prado. Ela não entendeu o sentido da palavra calma. Recorremos ao arquivo : no fichário de ensaios encontramos uma curiosa tese macunaíma-kamikase que comparava Torquato Neto a Mishima. Pensamos num tema mais sólido : abordar a nossa imperfeição e escrever uma crítica de comportamento. Argumentei : a calma é o passo que nos conduz ao abismo. Ela torceu o nariz ( “a felicidade dos homens é a origem de seus sofrimentos”). Escuta Melissa : as paredes estão se fechando. Existe um mito que diz “vida e arte”. Quanto mais forte for a porrada mais (eles?) gostam. Meus contemporâneos esparsos pelo espaço e pelo tempo. Da inacessível montanha que nenhum homem ainda ousou tocar aos prados incendiados pela Lua que caiu.  Escuta Melissa : esta noite eu tive um sonho que só agora me lembrei. Levantou-se uma cortina à minha frente e o espetáculo da vida infinita converteu-se num túmulo eternamente aberto. Ela disse que gostava destes homens que colecionam baús. Nossa vitrine apedrejada pelos bárbaros. Em cima de nossas cabeças dançava um céu sem Lua / túnel sem luz / a redoma estava completa. A chave era a palavra calma. Ela insistia numa idéia de alegoria-labirinto. Isto me parecia extremamente matemático. Foi se tornando cada vez mais difícil o combate com as forças geômatras dos imbecis. Eles equalizavam suas idéias em gráficos. Nunca supus que fosse passar meus verdes anos em meio a tantos números e telas. Sómente num ponto estivemos de acordo : aquele objeto branco espumando neblinas era a Lua. Seguir por ali significava encontrar com Virgílio em selva escura. (Pela última vez provaríamos do perigo). Escuta Melissa : três da tarde é muito cedo para estar tão cético. Olhe pela janela : não há nenhum mistério essencial que possa ser desvendado de imediato : do desconhecido Oceano ao pó do mais insignificante deserto. Ela me corrigiu com acerto. O que seria do mundo sem o amor? No arquivo das baratas : eles equalizavam suas forças em gráficos.     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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