NOSSOS REINOS FELIZES

Faz parte da essência da imaginação humana a invenção de reinos, países e continentes onde todos os seres vivem em harmonia, paz e prosperidade. Em geral, estes saudáveis delírios feitos de sonho e utopia, costumam situar-se num passado remoto e estão sempre fora do nosso alcance. São inacessíveis. Como os sonhos. 

Para os ocidentais este lugar chamou-se Continente de Atlântida. Até hoje não sabemos ao certo se foi uma magnífica ficção escrita por Platão, após ouvi-la de Crítias, ou se de fato existiu ou se ainda existe submersa em algum ponto do Oceano Atlântico coberta por cardume de celacantos, musgos fosforescentes e fragmentos de belas estátuas de bronze. 

No Oriente, sobretudo no Tibete, assim como em muitas regiões da Ásia, circula a história de um reino igualmente platônico, habitado por cidadãos amáveis e gentis, governado por soberanos sábios e compassivos. Chamava-se Shambhala. Dizem as lendas que toda sabedoria shambhaliana foi transmitida por Buda para o primeiro rei de Shambhala, Dawa Sangpo. 

Para muitos tibetanos este reino continua a existir, oculto num vale remoto em algum lugar do Himalaia. Algumas escrituras budistas afirmam que é possível chegar a Shambhala fisicamente. Outras lendas dão conta de que o reino esvaneceu-se numa esfera celestial. Entre muitos mestres do budismo tibetano circula a idéia de que Shambhala nada mais é do que a obtenção de um bem estar físico e mental. 

Segundo palavras de um dos únicos livres disponíveis no Ocidente sobre o assunto “Shambhala, A Trilha Sagrada do Guerreiro” (Ed.Cultrix) ditas em conferências proferidas pelo tibetano Chögyam Trungpa (1940-1987) em agosto de 83 na cidade americana de Bolder, Colorado, “Os ensinamentos de Shambhala fundamentam-se na premissa de que existe de fato uma sabedoria humana básica capaz de ajudar a resolver os problemas do mundo.” 

Pode o sagrado leitor achar que estamos diante de mais um daqueles livrinhos de auto-ajuda, tipo caça níqueis. Não é. Garanto. Primeiro porque a simples leitura do livro, embora seja por si só uma viagem filosófica vertiginosa, de nada vale sem as práticas que ele mesmo propõe e ensina ao leitor. A base destas práticas, como não poderia deixar de ser, é a meditação. São diferentes estilos de meditação para diferentes finalidades. 

Mas voltemos, sagrado leitor, à simples leitura, que, como dizia, é uma viagem filosófica surpreendente. O tempo todo Trungpa nos faz deparar com conceitos desconcertantes. Como este sobre o medo. “Reconhecer o medo não é motivo para depressão ou desânimo. Porque temos medo, temos também potencialmente o direito de experimentar o destemor. O verdadeiro destemor não consiste em diminuir o medo, mas em ultrapassá-lo”. 

Quer tenham existido ou não, tanto faz. Shambhala e Atlântida são reinos irmãos que nascem do mesmo útero. Aquele que gera os sonhos de uma sociedade mais bela e evoluída.

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