ENFIM, O ÓCIO CRIATIVO

 

Foi sómente aos 21 anos de idade que me defrontei pela primeira vez com o que chamarei aqui de “tempo indefinidamente livre”. Lembro-me que estava morando numa fazenda no Sul da França e fazia muito frio naquela manhã de março. Olhei através da janela e, enquanto observava o pasto nevado, pensei comigo “ aqui começa a minha vida…”. No Brasil era o primeiro dia do ano letivo. E, desde que me dera por gente, sempre estivera presente no primeiro dia de aula. Mas naquela manhã, entendi que a vida substituiria os meus professores. Para sempre. 

Desde então, o tempo para mim passou a ser indefinidamente livre. E mais, o meu tempo passou a ser o meu tempo. Não que a partir daquele momento eu não tivesse mais obrigações, horários, etc. Tinha-os, mas só que de uma forma diferente. Eu mesmo passei a agendá-los evitando ocupar-me com todos os tipos de chatices, baboseiras e hipocrisias que infestavam (e ainda infestam) como um enxame de abelhas a nossa sociedade. Queria, é claro, fugir do aborrecimento e da morte prematura provocada, quem sabe, por um câncer adquirido no calor infernal do estresse da chamada “vida moderna”. 

Quando retornei ao Brasil, um ano depois, percebi que era muito tarde para tentar uma reintegração nos modelos sociais e comportamentais oficiais. A verdade é que tinha me apaixonado perdidamente pelo tempo indefinidamente livre. E que, no calor daquela minha intensa e adorada adolescência, exercia uma profunda prática subversiva que nem os meus amigos mais esquerdistas sonhavam em ter. Passava tardes e tardes numa espécie de ostracismo prazeiroso e sempre que era convidado para exercer alguma função com carteira de trabalho, horário de trabalho e décimo terceiro, educamente declinava o convite. 

Houve um tempo, passados três ou quatro anos, que comecei a me sentir culpado. Olhava para os meus familiares, amigos e todos pareciam sempre ocupados com algo da maior importância. E eu, é claro, comecei a me sentir um ser sem a menor importância para o funcionamento da nossa perfeita e irretocável sociedade. Mas quando passei a investigar mais profundamente com o que eles estavam de fato ocupados, fui percebendo a verdade. Eles fingiam estar ocupados para sentirem-se mais importantes do que de fato eram. E esta constatação, confesso, causou-me um alívio tão contundente que renovei o meu contrato com o tempo indefinidamente livre por mais alguns anos. 

Quero dizer com isto tudo que viver plenamente o ócio, o puro ócio e não aquele cheio de culpas e de desculpas, é uma arte que aprende-se durantre toda uma vida. É claro que hoje em dia tenho aqui e ali meus compromissos profissionais que, além de divertidos, me dão um sustento mais do que suficiente para continuar respirando o oxigênio e viajar de vez em quando para alguma Patagônia intrigante. Mas os compromissos que tenho são prazeirosos, extremamente prazeirosos, diga-se de passagem. Se isto constitui alguma vantagem com relação aos ocupados, é tão sem importância quanto difícil saber. E é algo que nem o tempo dirá.

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