ANDAR, VOAR, LEVITAR

 

 É difícil precisar de onde e de quando vem o meu amor pelas caminhadas. De onde, é bem possível que do útero da minha mãe. Ali, com toda certeza, enquanto esperava impaciente ( que sempre fui) pelos noves meses de gestação, é certo que eu tenha dado minhas primeiras voltinhas a pé. De quando, aí a questão é mais complexa : embora não acredite em vidas passadas, devo dizer que, se tive alguma anterior a esta, ela certamente foi de andarilho.

 Resolvi escrever sobre este assunto quando percebi que tinha desenvolvido uma sofisticada teoria sobre as minhas caminhadas e cheguei mesmo a classificá-las em vários modelos e categorias que vou revelar para os leitores desta coluna Mantraman.  

A primeira (a ordem á aleatória) categoria, que batizei de caminhada zen, talvez seja a mais normalzinha delas. É aquela em que, durante o percurso, me concentro na respiração. A velocidade neste tipo de caminhada é lenta e seu efeito é prá lá de benéfico. A maior dificuldade em praticá-la é, exatamente, manter-se em marcha lenta. Devo dizer que sou mais nervoso do que um mosquito querendo ultrapassar uma vidraça. Daí a minha dificuldade em andar lentamente.  

A segunda chama-se caminhada poética e nela todo o meu foco fica centrado na luz, nas cores e, principalmente, nos odores. É claro que o lugar ideal para este tipo de caminhada é em meio à natureza, mas ela também pode ser desenvolvida em centros urbanos os mais insalubres. O difícil neste segundo meio ambiente é concentrar-se na beleza, na poesia, nas cores e nos odores. Mas em dias muito inspirados eu já conseguí esta façanha. 

A terceira e quem sabe a mais peculiar de todas elas é a caminhada escritora. Usei-a por exemplo esta manhã para deliberar este texto : como seria o começo, por onde passaria e, é claro, aonde queria chegar. O mais curioso da caminhada escritora é que me sinto exatamente como se estivesse escrevendo. Deleto uma série de idéias que não me parecem boas, componho frases inteiras com vírgulas, dois pontos, parênteses e só volto para casa depois que tenho, no mínimo, o primeiro parágrafo inteirinho fixado na minha mente.  

A quarta é a caminhada esportiva. Nela, meu objetivo é a transpiração. Vou no limite da minha resistência e, enquanto não me sentir absolutamente molhado, não paro de caminhar. Em geral uso este estilo no dia seguinte à uma noite enfumaçada, alcoolizada e mal dormida. O efeito terapêutico é realmente impressionante.  

A quinta tem o nome de caminhada objetiva. Pratico-a quando tenho algum compromisso relativamente perto da minha casa (uma hora e meia, no máximo, a pé) e me organizo para chegar caminhando no local e na hora marcada. O mais interessante deste tipo de caminhada é que ela geralmente se dá pelas ruas da cidade. Planejo um caminho mentalmente e vou em frente. Detalhe : dependendo do compromisso não pega bem chegar muito suado. Então, a questão da velocidade se torna muito importante.  

A sexta e última é a caminhada peregrina. Devo dizer que a pratiquei somente uma vez quando percorrí trezentos dos seiscentos quilômetros do Caminho de Santiago, no norte da Espanha. Nela, todas os cinco estilos de caminhadas anteriores somam-se numa só. Foi uma experiência aeróbica, filosófica, esportiva, contemplativa, exaustiva e mágica. Que espero repetir em outro roteiro : estou com um plano surrealista de caminhar até a Patagônia no próximo verão. E, se tudo certo, me enturmar com uns pinguins nativos.  

Se Deus quiser, eu chego lá.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: