ALUGANDO A ORELHA

 

Estava na minha Sala de Navegação – local onde escrevo estes relatos de viagens imaginárias e ensandecidas, por absoluta falta de algo melhor a fazer na vida – escutando os gritos do Sol e os estalidos estridentes do céu azul-primaveril quando o telefone tocou. Ocorre que quando estou em transe auditivo, não atendo, ou melhor, não consigo atender o telefone. Mas pressenti que poderia ser algo importante e cedi aos clamores animalescos do antigo aparelho que maravilhava humanos de todas as cores e credos do já distante século XX.

“Mantraman?” “Sim…” “Puxa, estava te procurando há um tempão… É o seguinte, meu nome é Lú Bresson, eu sou fotógrafa da revista de viagens Via Láctea e nós estamos publicando uma matéria especial sobre a ação curativa dos mantras e gostaríamos de fazer uma foto da sua orelha…”

“Olha, Lú, eu tenho um contrato de exclusividade da imagem da minha orelha com a minha editora do Diário, Sun Sunset. Acho pouco provável que ela me libere para posar para essa foto…” ” Tudo bem…Mas e o queixo, você também vendeu seu queixo para Sun?” “Espera um pouco, Lú, vou dar uma lida no contrato e te ligo em cinco minutos…”

Por volta das três da tarde Lú estava aqui em casa com toda a sua parafernália, flashes que disparavam incessantemente, centenas de filmes virgens, luzes, tudo para fotografar o meu queixo. Depois de muito malabarismo (ela quis me colocar de ponta-cabeça para tirar a foto) e centenas de cliques, a sessão chegou ao fim. Perguntei-lhe sobre o conteúdo da matéria. “Você sabia, Mantraman, que quase todas as doenças que atingem o corpo humano são somatizações?” “Mais ou menos…” “Então, estamos sustentando esse ponto de vista, do câncer à pneumonia, todas as doenças são produto da nossa própria mente…” “E o mantra, onde entra nessa teoria?” ” Mantra quer dizer proteção mental, ele é anti-vírus, antibiótico, anti-robótico e antidoença.”

Assim que Lú se mandou, o Macro Céfalo, meu editor na revista de viagens Pirlimpimpim me ligou. “Mantraman, a matéria sobre o transatlântico Sonho Azul está uma porcaria. Você acha que nós te mandamos lá pros confins do Mar Adriático para você ficar catalogando aroma de oceanos e dando suas impressões sobre estrelas do mar venezianas?” Com o Macro é sempre assim: super difícil agradá-lo. Quando você acha que superou os seus limites de insânia, ele sempre vem com uma outra idéia mais insana. “Seguinte…Vamos almoçar naquele restaurante japonês que você fica divulgando naquela droga que você escreve pra AOL em quinze minutos, ok?”

O Macro Céfalo pode ser um lunático do mal, um sujeito difícil de se lidar, mas uma qualidade irrefutável ele tem: sempre surpreende. “Mantraman, esquece aquele papo dos efeitos da ausência de ferro e zinco num corpo humano em alto-mar. Vamos falar sobre o triunfo da esperança em casais que fazem cruzeiros.” “Como assim, Macro?” “O casamento só sobrevive enquanto um tem esperança de que o outro vá mudar. Num navio, essa esperança se multiplica, entendeu?” Quando já estávamos na sobremesa ele ainda me disse: “para amanhã, ok?”

Para quem vê de fora, vida de Mantraman é puro glamour. Não sabem o quanto tenho que me superar diariamente.  

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