MANTRAMAN NO SÍTIO DO PICAPAU-AMARELO (FINAL)

 

 

 

 

 

 

A entrada do Reino de Águas Claras ficava numa gruta camuflada por uma densa vegetação às margens de um ribeirão de águas transparentes. “Aposto que o Mantramanco tem medo de escuro!” exclamou Emília, “é Mantraman, Emília!” , respondeu-lhe Narizinho, “e olha só quem fala, a boneca mais medrosa do planeta!”. De fato não se enxergava um palminho além do nariz. Mas logo Narizinho tirou do bolso um punhado de vagalumes que nos serviram como “lanterna viva” durante o percurso onde fomos saudados por várias corujas e numerosos morcegos. Minutos depois, chegamos a um maravilhoso portão de coral guardado por um imenso sapo “ é o Major Agarra-e-Não-Larga-Mais” informou-me Pedrinho com naturalidade. E logo atrás do portão, avistamos o Palácio Do Reino das Águas Claras com seus muros feitos de conchas, madrepérolas e corais reluzentes. 

Fomos diretamente para a sala do trono, toda feita de um coral cor de leite com franjas de musgos e milhares de pingentes de pérolas pendurados que tremiam ao menor sopro. O chão, de nácar furta-cor, era tão liso que Emília escorregou três vezes. Por fim, avistamos o Príncipe Escamado sentado em seu trono : tratava-se de um peixinho vestido de gente, com um casaco vermelho, cartolinha na cabeça e um cetro de diamantes na mão. Assim que viu a turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo aproximando-se saudou-os com um claro entusiasmo : “ Meu dia está ganho! Quanto tempo que não vinham aqui! Que bom vê-los!”. Depois de cumprimentarem-se efusivamente, Narizinho apresentou-me para o príncipe : “ Este é o Mantraman, Príncipe. Ele veio lá de muito longe para escrever sobre as maravilhas do Sítio do Pica-Pau Amarelo em sua revista Pirlimpimpim! ” . “ Ora, ora, por Netuno, que seja bem vindo!” disse-me o Príncipe Escamado, “ vamos levá-lo para um tour no coche de gala do Mestre Camarão!”. “ Bela idéia! Digna de um monarca da sua magnitude, Alteza!” disse-lhe o Visconde de Sabugosa com sua voz empostada de orador de baile de debutantes.  

Minutos depois, deslizávamos sobre a areia alvíssima do fundo do mar a bordo do coche de gala do Mestre Camarão, que era uma carruagem submarina puxada por seis cavalos marinhos. Em vez de chicote, o Mestre usava os fios de sua própria barba. Foi um passeio e tanto : passamos através de florestas de coral, bosques de esponjas vivas, campos de algas das formas mais estranhas, conchas de todos os jeitos e cores. Polvos, enguias, ouriços, milhares de criaturas marinhas tão estranhas que até pareciam seres saídos de um sonho. E o mais espetacular nisto tudo era que todos aqueles seres submarinos saudavam o Príncipe Escamado com reverência e amor. Quando estávamos voltando, o Príncipe desceu do coche, tirou uma luminosa pérola de dentro de uma ostra e deu-me de presente “ para que jamais se esqueça do Reino das Águas Claras, Mantraman…”. Quis dar-lhe um abraço mas fiquei com medo de quebrá-lo ao meio. “ Creia, é inesquecível, Príncipe Escamado…” foi tudo que conseguí lhe falar.  

De volta ao Palácio, fui apresentado ao médico da corte, o Doutor Caramujo que, segundo o Visconde, “ cura todas as doenças com suas pílulas, exceto sua própria gosma.” Ele ofereceu-me um punhado de suas pílulas “ com a umidade do Reino das Águas Claras, sempre aparecem algumas complicaçõezinhas pulmonares” que enfiei no bolso não sem antes pedir para que ele pousasse para uma foto. “Será que dá para você me mandar um exemplar quando a revista sair?” ele me perguntou. “ Claro Doutor Caramujo, vou arrumar um jeito, sim…”. O próprio Príncipe nos acompanhou até o portão de saída , e, à medida que nos distanciávamos, ele nos acenava com mais e mais convicção. “Vou sentir saudades de vocês…” foi tudo o que conseguí dizer quando já nos aproximávamos da entrada da gruta.  

No caminho de volta para o Sítio, paramos no pomar e nos deliciamos com algumas centenas de jaboticabas que de tão maduras explodiam dentro da boca. Pedrinho queria saber mais detalhes sobre a vida de um repórter de uma revista de viagens, Narizinho queria me levar para conhecer o Minotauro, Visconde, sempre erudito, declinava o nome científico de cada árvore frutífera e Emília, bem Emília continuava com sua mania de me chamar de Mantramanco. Assim que retornamos à casa, fui ter com a Tia Nastácia e perguntei-lhe sobre a receita de seus famosos bolinhos de chuva. “ Ah, vosmicê pode panhar com Dona Benta que já escreveu num papelzinho. Sabe?, continuou, receita eu dou mas o segredo não está na receita, mas no jeitinho de fazer…” . Agradeci efusivamente à nobre e famosa quituteira e, quando pensava em retornar, fui abordado por Dona Benta.  

Aqui está a receita, senhor Mantraman”, ela me disse estendendo um papel em minha direção, “ espero que volte sempre. Mas antes que parta tenho uma pergunta a lhe fazer : afinal, como conseguiu chegar no Sítio do Pica-Pau Amarelo?” . Sem pestanejar, tirei do bolso o envelopinho azulado e lhe segredei “ pó de pirlimpimpim, Dona Benta…”. Ela franziu a testa e com um sorriso no canto da boca emendou “ tinha certeza que o seu editor Macro Céfalo havia levado um pouco do nosso secreto pó de pirlimpimpim….” E, tirando do bolso de seu vestido um outro envelopinho azul, idêntico ao que eu tinha, colocou-o dentro do meu bolso “ dê isto de presente para o Macro Céfalo, senhor Mantraman, e diga-lhe que o Sítio está de portas e janelas abertas para ele!”. Agradeci à bondosa e simpática velhinha e, após despedir-me de todos, fechei os olhos, pensei forte na Sala de Navegação, inalei o que restara do pó de pirlimpimpim e fiiiuuuuu fui parar na redação da Pirlimpimpim, diante do insano Macro Céfalo. “Cadê a receita?” ele me perguntou quando ainda despencava sobre a cadeira. Suspirei e entreguei-lhe a receita. “Mais nada?” perguntou-me apontando para o meu bolso de onde pendia o envelope azul. “Presente da Dona Benta” disse-lhe enquanto lhe entregava o pó de pirlimpimpim. “Melhor assim”, ele falou. “Agora pode ir. Quero a reportagem para amanhã. E, pelo amor de Deus, não me escreva mais aquela expressão “quando dei por mim estava não sei aonde…” .  

Com o Macro é sempre assim : tudo para ontem.

 

 

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