MANTRAMAN NO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era um daqueles fins de tarde abafados de janeiro. No céu, as nuvens desenhavam dragões negros prestes a cuspirem sobre a superfície terráquea um dilúvio de proporções abissais. Sentei-me diante da janela da Sala de Navegação, onde costumo escrever estes relatos mantramânicos, e fiquei esperando pela inevitável tormenta. Não demorou muito e o céu começou a despencar paus, pedras, fins de caminho, restos de tocos e alguns poucos sozinhos. Estava completamente absorvido pelo som da singular sinfonia quando ouví o soar de um telefone. A princípio pensei que se tratava de mais um dos instrumentos da sinfônica tormenta, mas quando atinei meu ouvido, percebí que era o meu telefone quem estava tocando.

 Mantraman, esteja aqui em quinze minutos, tchau.” Era o Macro Céfalo, o lunático e insano editor da revista de viagens Pirlimpimpim onde trabalho como repórter. Antes que eu pudesse lhe dizer que para chegar na redação em quinze minutos eu precisaria de um bote salva-vidas, escafandro e roupa de mergulho, ele desligou o telefone. Olhei para a rua ( um rio), para o céu ( uma placa cinza compacta) e para o meu guarda-chuva cor de laranja pendurado atrás da porta. Em exatos dezesseis minutos eu e meu guarda-chuva adentravámos a sua bizarra sala na redação da Pirlimpimpim, com sua coleção de miniaturas de seres imaginários como cíclopes, minotauros, faunos, seus macaquinhos chineses de pelúcia movidos a pilha e um gigantesco formigueiro envidraçado, estratégicamente instalado na parede que fica atrás de sua cadeira.  

Ele estava falando com alguém no telefone, parecia animado com a conversa “ sim, meus bícepes estão bem definidos, é a natação com o boto cor de rosa, mil e quinhentos metros por dia, meu caro…” e acenou nervosamente para que eu me sentasse na cadeira diante de sua mesa. Com uma das mãos ele segurava o telefone e com a outra alimentava seus micro-jacarés de aquário com algo que parecia ser alpiste. Assim que desligou o telefone, abriu uma gaveta e, enquanto retirava de seu interior um pequeno envelope azulado, começou a me dizer com uma voz baixa e sincopada “ Mantraman, presta atenção, eu só vou falar uma vez : em algum ponto do planeta existe um lugar chamado Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde boneca de pano é gente e sabugo de milho é gente. Neste sítio mora uma quituteira chamada Tia Nastácia. Vai lá e pede para ela a sua receita de bolinhos de chuva, entendeu?” . A seguir deu-me o pequeno envelope azulado “ as instruções estão aí dentro” e, sem mais palavras, levantou-se e retirou-se de sua sala. Com o Macro é sempre assim : poucas palavras e muita objetividade. Já estou acostumado.

 Já era noite quando retornei para a Sala de Navegação e a tempestade tinha dado lugar a um histérico céu de estrelas onde uma lua cheia zombava de nossa insignificância e de nossos injustificados temores. Estava prá lá de curioso com o conteúdo do envelopinho e, com um cuidado de quem trabalha com cristais, pus-me a abrí-lo. Em seu interior encontrei cerca de meia grama de um reluzente pó dourado e um manuscrito “ Feche os olhos e pense com força no Sítio do Pica-Pau Amarelo. A seguir inale metade deste pó de pirlimpimpim. A outra metade você guarda para voltar. Macro Céfalo. P.S: Não me volte sem a receita!”. Fiquei observando o pó de pirlimpimpim por alguns instantes e divagando sobre como Macro teria conseguido obtê-lo. Mas meu devaneio durou pouco e logo fui arrumar minha maleta de viagens. No dia seguinte, ao nascer do Sol, daria início a mais uma reportagem da revista de viagens Pirlimpimpim.

 

(continua no próximo post)

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