MANTRAMAN NO REINO DE SHANGRI-LÁ

Era um chuvoso sábado à noite. Preparava-me para escalar um edifício usando uma técnica do Homem Aranha que aprendera dias antes com o meu mestre Joe Spider. Quando estava quase conseguindo atingir a janela do terceiro andar meu celular tocou. “Mantraman venha me encontrar no restaurante da Sede Social dos Jornalistas Experimentais o quanto antes. Quero dizer, já.”. Era Macro Céfalo, o meu lunático e singular editor da revista de viagens Pirlimpimpim, onde ocupo o cargo de repórter de viagens transcendentais. Mais do que depressa, desativei o meu equipamento e me dirigi ao local onde Macro me esperava.

Encontrei-o jantando com Oslo Kovac , o editor da revista Mutantes Meditantes, publicação dedicada à descoberta de extra-terrestres que já estariam vivendo entre nós, humanos. Curioso que o próprio Oslo parecia ser um deles : rosto encovado, olhos fundos e acizentados, lábios finos, enfim, uma clássica redução genética de um alienígena. Assim que me viu Macro apontou para uma cadeira vazia e pediu para que eu me sentasse enquanto acabava de comer uma estranha lagosta com listras amarelas e vermelhas acompanhada de um arroz dourado brilhante que mais parecia um amontoado de purpurina. Oslo degustava uma prato de ervilhas cor de rosa. Conversavam sobre um congresso de jornalistas experimentais que deveria ocorrer na Patagônia no final do mês. Quando terminou sua refeição, Macro dirigiu-se para mim e, como sempre, foi suscinto e objetivo : “ No Tibete existe um reino chamado Shangri-Lá. Lá tem um sujeito que é conhecido como Lama Superior. Dizem que ele está com 250 anos de idade. Vai lá e checa se isto é verdade e, caso seja, quero saber como um sujeito pode viver tanto tempo assim. Quero que me traga o segredo de sua longevidade. Em cima da mesa da minha sala na redação tem um envelope amarelo com as instruções.” E, antes que eu pudesse lhe fazer qualquer pergunta, continuou seu animado colóquio com Oslo.                                                                       

A sala de Macro Céfalo, era decorada com os mais excêntricos e curiosos objetos que já tinha visto em toda minha vida : um aquário com dois minúsculos crocodilos, uma parede de vidro por onde podia-se ver uma centena de formigas caminhando, dezenas de miniaturas de bichos empalhados e outras bizarrices. Mas naquela noite percebí uma nova presença na sua galeria de excentricidades : um minúsculo pingüim, do tamanho de uma pássaro, dentro de uma gaiola. Na parte exterior, a inscrição “ Pingüim-Bonzai from Kioto”. Olhei-o com assombro e tentei alguma comunicação com o estranho ser mas logo percebí que ele estava dormindo. Peguei o envelope amarelo e pus-me a caminho de casa. Assim que cheguei abri o envelope e as indicações, escritas a mão, diziam o seguinte : “Em Baskul, China, procure no Aeroporto Tsan Tsé um piloto chinês chamado Tatsu. É ele quem o levará para Sahgri-Lá. Um certo sr. Tchang estará à sua espera. P.S. :Não me volte sem o segredo da longevidade deste Lama Superior! ”. Ao lado, uma passagem São Paulo- Pequim-Baskul, de ida e volta com data de embarque para o dia seguinte. 

Tres dias depois já estava no Aeroporto Internacional de Baskul à procura de Tatsu. Encontrei-o num quiosque à beira de um rio, bebendo uma garrafa de cerveja acompanhada de uma poção de aranhas fritas com minhocas roxas. Apresentei-me. “ Ah, sr. Mantraman? Estava exatamente lhe esperando…Da Revista Pirlimpimpim, né?”, disse-me num inglês quase incompreensível. “ Podemos ir quando quiser…” Ofereceu-me uma punhado de aranhas fritas que eu gentilmente recusei. A seguir pagou a conta e nos deslocamos de volta para o Aeroporto. A bordo do seu bi-motor alaranjado, Tatsu me informou que o tempo de viagem seria de aproximadamente doze horas. “ Ah, senhor tem sorte, hoje tempo bom, avião vai aterrisar fácil, fácil…” E assim, passadas duas horas, sobrevoávamos a cordilheira ocidental dos Himalais, uma região conhecida por Kue-Lun, considerada a parte mais elevada da Terra, o planalto do Tibete, cujos vales mais baixos ficam a mais de três mil metros de altitude.  É, na verdade, uma vasta região montanhosa, desabitada, inexplorada em sua maior parte, varrida pelos ventos. Quando a noite chegou e a lua cheia iluminou a magnífica paisagem, pude ver os contornos de um extenso vale, limitado de um lado e outro por outeiros arredondados, de pouca altura, e negros de azeviche contra o céu noturno, de um azul elétrico. Na cabeceira do vale, surgiu a mais bela montanha que vira em toda minha vida : era um cone de neve quase perfeito, de um perfil tão simples que parecia o desenho de uma criança.                                                                         

Quando o dia estava amanhecendo, Tatsu começou a operação descida. Em menos de meia hora aterrisávamos numa pista cuja precariedade se fazia ouvir através dos sucessivos estrondos provocados pelos choques entre as pedras de cascalho e a ferragem do avião. “ Não assusta não, sr. Mantraman, está tudo sob controle”, disse-me Tatsu, com um sorrisinho maroto-chinês no canto da boca. Quando o bi-motor parou por completo, observei através da janela a presença de um chinês velho , ou pelo menos em idade madura, de rosto escanhoado, a vestimenta de seda azul bordada, com a costumeira saia aberta ao lado e as calças apertadas no tornozelo, tudo em vários tons de azul. Ao seu lado, um tibetano com trajes monásticos cor de vinho. “Bem vindo a Shangri-Lá, sr. Mantraman. Meu nome é Tchang. Fui incumbido pelo Lama Superior a levar-lhe até o Vale da Lua onde se concentra parte do reino de Shangri-Lá. Será uma caminhada de aproximadamente quatro horas. O senhor fez boa viagem? ”. “ Não poderia ter sido melhor, Sr. Tchang” disse-lhe enquanto contemplava uma gigantesca montanha, a maior que vira em toda a minha vida. “Ah, é a Montanha Karakal. Tem 8.400 metros.”, informou-me com presteza o simpático Tchang.

 Pouco depois iniciávamos a viagem para Shangri-Lá.

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