MANTRAMAN NO PAÍS DO ESPELHO (PARTE 2)

 

À minha frente abriu-se uma agradável paisagem quadriculada de campos, colinas, florestas e riachos. Mas esta paisagem logo se dissolveu e quando dei por mim estava sentado no vagão de um trem que me conduziu a um bosque e deste bosque fui acabar parando numa antiga loja inglesa de armarinho e da loja para uma calma extensão de água. Percebi, logo nos primeiros minutos da minha estadia no país do Espelho que ali as relações de tempo e espaço eram completamente diferentes das que estamos habituados em países “normais”. Ou seja, sem nenhum aviso prévio o visitante pode se encontrar num lugar diferente. Achei esta característica muitíssimo interessante e intuí o quanto iria me divertir com ela.

Mas logo um problema instalou-se em minha cabeça: como chegar às tais flores falantes que eu deveria entrevistar se tudo se movia incessantemente? Mas foi só eu formular esta pergunta em minha mente para que, finalmente, a paisagem parasse de se transformar. Quando dei por mim, estava sentado no banco de uma praça repleta de árvores e de pessoas que passavam à minha frente como se estivessem indo para o trabalho ou voltando para suas casas. Sentada ao meu lado uma menina de aproximadamente oito anos de idade, trajando um exuberante vestido de seda com estampas de flores tropicais começou a conversar comigo. “Pela sua expressão de perplexidade, dá logo para notar que é a sua primeira visita ao país do Espelho. No começo tudo parece estranho, mas depois que você se acostumar duvido que vá querer voltar para o seu país. Sugiro que, para começar a se aventurar por aqui você primeiro encontre um nome bem significativo. Que tal Homem Que Veio Do Espaço?”

                                                                    

 

Ela falava numa língua semelhante ao inglês, mas que, efetivamente, não era o inglês, poderia ser russo. E eu entendia tudo. Fiquei curioso quanto à sua idade e, antes que eu pudesse lhe perguntar, ela começou a me explicar como o tempo funcionava no país do Espelho. “Eu resolvi parar de crescer quando tinha 8 anos. Se você quiser parar de crescer também pode. Isto em nada vai afetar o tempo dos outros”. Antes que eu pudesse lhe perguntar há quanto tempo ela estava com 8 anos, a menina se levantou do banco e começou a fazer uma série de reverências, como se estivesse se despedindo de mim. Ao fim destas reverências entoou uma canção cuja letra era “Oh Homem Que Veio Do Espaço / Bem-vindo ao país onde as flores falam/ e os besouros de voz rouca / viajam em cintilantes vagões de trem”. E desapareceu em meio aos passantes que, por sua vez, também foram desaparecendo até que a própria praça sumisse e à minha frente surgisse um exuberante jardim repleto de lírios, rosas, margaridas e violetas.

Comecei a andar através de suas minúsculas veredas e, vez por outra, parava para ver se conseguia ouvir a voz daquelas flores. Mas a verdade é que o silêncio imperava em todos os recantos daquele jardim. Comecei a ser tomado por um certo pânico e murmurei para mim mesmo “se estas flores não falarem comigo vou virar sucata nas mãos do Macro Céfalo…”. Foi o que bastou para ouvir um suspiro de uma rosa bem à minha frente. “Oh…” Abaixei-me em sua direção e lhe perguntei “foi você quem suspirou, rosa?” “Claro que fui eu, seu estúpido! Quem poderia ter sido?” Confesso que neste momento fiquei entre desconcertado, raivoso e feliz. Mas como estava bem diante do motivo principal da minha viagem, uma flor que de fato falava, preferi ficar somente feliz. “Bem… quer dizer que vocês, flores do país do Espelho, sabem falar… Meu nome é Homem Que Veio Do Espaço e eu sou repórter da revista de viagens Pirlimpimpim. Vim lá do Brasil só para entrevistá-las. Além de você existe outra flor que também sabe falar?” Minha pergunta teve como resposta um coro de risadas. A mais espalhafatosa vinha de um lírio tigrino a poucos metros da rosa. “Ora, volte para o seu Brasil que nós flores do país do Espelho não temos nenhum interesse em aparecer em nenhuma revista de viagens!”

 

                                                                                                 (continua no próximo post)

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