MANTRAMAN NO PAÍS DO ESPELHO (PARTE 1)

   

 

 

Tudo começou numa daquelas azuladas manhãs que o mês de maio costuma nos oferecer em sua natural bondade desinteressada. Eu tinha chegado há poucos dias de uma alucinante e exaustiva viagem ao País dos Lamas Levitantes e, depois de dormir durante ininterruptas 24 horas, acordei disposto a praticar um estilo de meditação levitante que aprendera com um jovem lama daquele país. Acontece que quando entrei na Sala de Navegação, local que construí especialmente para meditar e escrever estes relatos mantramânicos para a revista de viagens Pirlimpimpim, onde ocupo o cargo de repórter para viagens transcendentais, o telefone começou a soar. Era o meu lunático editor Macro Céfalo. “Mantraman: 13h, Restaurante Yamazaki, não atrasa”. E desligou o telefone sem que eu pudesse dizer nada.

Com o Macro as coisas funcionam desta forma. Sempre que é possuído por uma de suas amalucadas idéias de reportagem ele me liga e só diz o local e a hora onde devemos nos encontrar. Geralmente o encontro se dá na sua extravagante sala na redação da revista onde ele mantém sobre a mesa um macaquinho de pelúcia que toca pratos (que ele sempre aciona quando está contrariado), um aquário com dois minúsculos crocodilos, uma imensa mola que ele passa de uma mão para outra (geralmente quando está pensando) e uma dezena de estatuetas de animais imaginários como dragões, ciclopes e centauros. Mas naquele dia, não sei bem porque, ele marcou o encontro naquele misterioso restaurante japonês do bairro da Liberdade.

Como sempre, ele deixou que o silêncio ecoasse por alguns instantes até que começou a me explicar o motivo de nosso encontro. “Mantraman, eu só vou falar uma vez. No País do Espelho, as flores falam. Vai lá e checa se isso é verdade”. A seguir me passou um envelope lacrado e pediu para que eu só o abrisse quando chegasse em casa. Não deu nem tempo para eu lhe perguntar se estava bem, de onde vinha e para onde ia. Ele se levantou e saiu pela porta deixando as iguarias japonesas intactas.

Dentro do envelope encontrei uma passagem aérea São Paulo-Londres-São Paulo com embarque previsto para o dia seguinte e um manuscrito com as seguintes informações: “País do Espelho, situado adiante da residência do pároco do Christ Church College, em Oxford. Para visitá-lo, o viajante deve entrar nos aposentos do pároco e ir até a sua sala de estar, onde se encontra uma grande chaminé, sobre a qual há um espelho de vastas proporções. O visitante deve subir no console da lareira e penetrar no espelho, que se dissolverá como uma bruma prateada”.

Dois dias depois eu já estava na sala de estar do pároco, um senhor muito cordial que me conduziu até o espelho e, antes que eu me dissolvesse na bruma prateada, desejou-me uma “esplendorosa viagem”. A primeira sensação que tive ao ultrapassar o espelho é que ainda estava na sala de estar do pároco. Até que o relógio (idêntico ao que havia na sala de estar) deu-me boas vindas com um sorriso de velhinho. Foi precisamente neste momento que percebi que havia adentrado o País do Espelho.

 

(continua no próximo post)

 

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