ALUGANDO A ORELHA

fevereiro 23, 2011

 

Estava na minha Sala de Navegação – local onde escrevo estes relatos de viagens imaginárias e ensandecidas, por absoluta falta de algo melhor a fazer na vida – escutando os gritos do Sol e os estalidos estridentes do céu azul-primaveril quando o telefone tocou. Ocorre que quando estou em transe auditivo, não atendo, ou melhor, não consigo atender o telefone. Mas pressenti que poderia ser algo importante e cedi aos clamores animalescos do antigo aparelho que maravilhava humanos de todas as cores e credos do já distante século XX.

“Mantraman?” “Sim…” “Puxa, estava te procurando há um tempão… É o seguinte, meu nome é Lú Bresson, eu sou fotógrafa da revista de viagens Via Láctea e nós estamos publicando uma matéria especial sobre a ação curativa dos mantras e gostaríamos de fazer uma foto da sua orelha…”

“Olha, Lú, eu tenho um contrato de exclusividade da imagem da minha orelha com a minha editora do Diário, Sun Sunset. Acho pouco provável que ela me libere para posar para essa foto…” ” Tudo bem…Mas e o queixo, você também vendeu seu queixo para Sun?” “Espera um pouco, Lú, vou dar uma lida no contrato e te ligo em cinco minutos…”

Por volta das três da tarde Lú estava aqui em casa com toda a sua parafernália, flashes que disparavam incessantemente, centenas de filmes virgens, luzes, tudo para fotografar o meu queixo. Depois de muito malabarismo (ela quis me colocar de ponta-cabeça para tirar a foto) e centenas de cliques, a sessão chegou ao fim. Perguntei-lhe sobre o conteúdo da matéria. “Você sabia, Mantraman, que quase todas as doenças que atingem o corpo humano são somatizações?” “Mais ou menos…” “Então, estamos sustentando esse ponto de vista, do câncer à pneumonia, todas as doenças são produto da nossa própria mente…” “E o mantra, onde entra nessa teoria?” ” Mantra quer dizer proteção mental, ele é anti-vírus, antibiótico, anti-robótico e antidoença.”

Assim que Lú se mandou, o Macro Céfalo, meu editor na revista de viagens Pirlimpimpim me ligou. “Mantraman, a matéria sobre o transatlântico Sonho Azul está uma porcaria. Você acha que nós te mandamos lá pros confins do Mar Adriático para você ficar catalogando aroma de oceanos e dando suas impressões sobre estrelas do mar venezianas?” Com o Macro é sempre assim: super difícil agradá-lo. Quando você acha que superou os seus limites de insânia, ele sempre vem com uma outra idéia mais insana. “Seguinte…Vamos almoçar naquele restaurante japonês que você fica divulgando naquela droga que você escreve pra AOL em quinze minutos, ok?”

O Macro Céfalo pode ser um lunático do mal, um sujeito difícil de se lidar, mas uma qualidade irrefutável ele tem: sempre surpreende. “Mantraman, esquece aquele papo dos efeitos da ausência de ferro e zinco num corpo humano em alto-mar. Vamos falar sobre o triunfo da esperança em casais que fazem cruzeiros.” “Como assim, Macro?” “O casamento só sobrevive enquanto um tem esperança de que o outro vá mudar. Num navio, essa esperança se multiplica, entendeu?” Quando já estávamos na sobremesa ele ainda me disse: “para amanhã, ok?”

Para quem vê de fora, vida de Mantraman é puro glamour. Não sabem o quanto tenho que me superar diariamente.  


O DALAI QUE REENCARNOU EM ELVIS

fevereiro 22, 2011

 

Em nossas cabeças idealistas os religiosos e iluminados são todos castos. É inimaginável, por exemplo, um Dalai Lama, uma espécie de Papa Tibetano, tendo uma vida de mil prazeres eróticos com centenas de mulheres. Mas é extamente isto o que a história nos conta.

No século XV, o Quinto Dalai Lama (1617-1682) além de ter construído o Palácio Potala, em Lhassa, capital do Tibete, transferido para lá a sede política do governo tibetano até a invasão chinesa em 1959, e de ter unificado os povos budistas vizinhos como mongóis e chineses, notabilizou-se por facetas, digamos, menos convencionais.

Poeta, filósofo e historiador, O Grande Quinto Dalai Lama, como ficou conhecido Ngawang Lobzang Gyamtso, foi autor de cerca de 235 trabalhos na área de filosofia, meditação, poesia e história. Estes escritos estão reunidos no livro O Manuscrito de Ouro, onde foram registradas e reveladas sua visões profundamente místicas, a origem de seus poderes mágicos e seus conceitos teológicos.

Esta obra começou a ser escrita em 1674 e só foi concluída onze anos após a sua morte. Nela, os leitores são convidados a entrar num universo secreto onde as manipulações das forças psíquicas humanas são explicadas e desvendadas. É considerado um dos livros mais complexos, profundos e perfeitos da história do Budismo Tibetano.

Além disto, o Quinto era um exímio praticante do tantrismo e, segundo uma de suas biografias, um “pândego, libertino e notório mulherengo… “Quebrou tabus da moralidade sexual e instaurou, no front do Palácio de Potala de forma absolutamente precoce e vanguardista, o rock and roll no budismo. Até pouco tempo atrás suas canções de amor ainda eram bastante populares entre o povo tibetano. As casas de Lhassa onde ele mantinha encontros com suas amantes eram marcadas com um intrigante símbolo fálico.

Diante da censura que enfrentava por parte de seus conselheiros (e só deles, já que o povo e, principalmente as mulheres, o achavam o máximo), certo dia chamou-os no ponto mais elevado do Palácio de Potala e urinou sobre o parapeito. Segundo a lenda, sua urina teria caído em cascata através dos muitos telhados que compunham o Palácio. Quando atingiu o chão, o Super-Dalai respirou profundamente e, milagrosamente, recolheu a urina de volta. Sim! Algo nos moldes daquelas cenas de cinema que voltam para trás! E, diante do olhar abismado de seus detratores, o Quinto Dalai exclamou: “Quando vocês souberem fazer o mesmo, também saberão que a minha sexualidade é muito diferente da sexualidade vulgar!”

Isto tudo, que pode parecer um espetáculo circense, tinha como justificativa dividir o amor sexual em dois: o tântrico onde a marca registrada era (e é) a evolução dos princípios sexuais e o sexo animal bossal, que é pura manifestação das necessidades fisiológicas.

O tal quinto Dalai Lama, que chocou o clero da época, era realmente um libertino, visionário, mágico e mulherengo. Em outras palavras, o Grande Quinto convenceu seus assessores moralistas de que sua banda de rock and roll não era uma banda datada, ordinária. Dizia o band leader em suas canções eróticas: “Para mim o ato sexual /não é o mesmo que pra vocês… / Eu sou o tântrico / O que transcende a união sexual / e a transpõe para o plano cósmico!!!” O cara não era mole!

Dizem as escrituras extra-oficiais que o Grande Quinto reencarnou no século passado com o nome de Elvis Presley.


MANTRAMAN NO SÍTIO DO PICAPAU-AMARELO (FINAL)

fevereiro 15, 2011

 

 

 

 

 

 

A entrada do Reino de Águas Claras ficava numa gruta camuflada por uma densa vegetação às margens de um ribeirão de águas transparentes. “Aposto que o Mantramanco tem medo de escuro!” exclamou Emília, “é Mantraman, Emília!” , respondeu-lhe Narizinho, “e olha só quem fala, a boneca mais medrosa do planeta!”. De fato não se enxergava um palminho além do nariz. Mas logo Narizinho tirou do bolso um punhado de vagalumes que nos serviram como “lanterna viva” durante o percurso onde fomos saudados por várias corujas e numerosos morcegos. Minutos depois, chegamos a um maravilhoso portão de coral guardado por um imenso sapo “ é o Major Agarra-e-Não-Larga-Mais” informou-me Pedrinho com naturalidade. E logo atrás do portão, avistamos o Palácio Do Reino das Águas Claras com seus muros feitos de conchas, madrepérolas e corais reluzentes. 

Fomos diretamente para a sala do trono, toda feita de um coral cor de leite com franjas de musgos e milhares de pingentes de pérolas pendurados que tremiam ao menor sopro. O chão, de nácar furta-cor, era tão liso que Emília escorregou três vezes. Por fim, avistamos o Príncipe Escamado sentado em seu trono : tratava-se de um peixinho vestido de gente, com um casaco vermelho, cartolinha na cabeça e um cetro de diamantes na mão. Assim que viu a turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo aproximando-se saudou-os com um claro entusiasmo : “ Meu dia está ganho! Quanto tempo que não vinham aqui! Que bom vê-los!”. Depois de cumprimentarem-se efusivamente, Narizinho apresentou-me para o príncipe : “ Este é o Mantraman, Príncipe. Ele veio lá de muito longe para escrever sobre as maravilhas do Sítio do Pica-Pau Amarelo em sua revista Pirlimpimpim! ” . “ Ora, ora, por Netuno, que seja bem vindo!” disse-me o Príncipe Escamado, “ vamos levá-lo para um tour no coche de gala do Mestre Camarão!”. “ Bela idéia! Digna de um monarca da sua magnitude, Alteza!” disse-lhe o Visconde de Sabugosa com sua voz empostada de orador de baile de debutantes.  

Minutos depois, deslizávamos sobre a areia alvíssima do fundo do mar a bordo do coche de gala do Mestre Camarão, que era uma carruagem submarina puxada por seis cavalos marinhos. Em vez de chicote, o Mestre usava os fios de sua própria barba. Foi um passeio e tanto : passamos através de florestas de coral, bosques de esponjas vivas, campos de algas das formas mais estranhas, conchas de todos os jeitos e cores. Polvos, enguias, ouriços, milhares de criaturas marinhas tão estranhas que até pareciam seres saídos de um sonho. E o mais espetacular nisto tudo era que todos aqueles seres submarinos saudavam o Príncipe Escamado com reverência e amor. Quando estávamos voltando, o Príncipe desceu do coche, tirou uma luminosa pérola de dentro de uma ostra e deu-me de presente “ para que jamais se esqueça do Reino das Águas Claras, Mantraman…”. Quis dar-lhe um abraço mas fiquei com medo de quebrá-lo ao meio. “ Creia, é inesquecível, Príncipe Escamado…” foi tudo que conseguí lhe falar.  

De volta ao Palácio, fui apresentado ao médico da corte, o Doutor Caramujo que, segundo o Visconde, “ cura todas as doenças com suas pílulas, exceto sua própria gosma.” Ele ofereceu-me um punhado de suas pílulas “ com a umidade do Reino das Águas Claras, sempre aparecem algumas complicaçõezinhas pulmonares” que enfiei no bolso não sem antes pedir para que ele pousasse para uma foto. “Será que dá para você me mandar um exemplar quando a revista sair?” ele me perguntou. “ Claro Doutor Caramujo, vou arrumar um jeito, sim…”. O próprio Príncipe nos acompanhou até o portão de saída , e, à medida que nos distanciávamos, ele nos acenava com mais e mais convicção. “Vou sentir saudades de vocês…” foi tudo o que conseguí dizer quando já nos aproximávamos da entrada da gruta.  

No caminho de volta para o Sítio, paramos no pomar e nos deliciamos com algumas centenas de jaboticabas que de tão maduras explodiam dentro da boca. Pedrinho queria saber mais detalhes sobre a vida de um repórter de uma revista de viagens, Narizinho queria me levar para conhecer o Minotauro, Visconde, sempre erudito, declinava o nome científico de cada árvore frutífera e Emília, bem Emília continuava com sua mania de me chamar de Mantramanco. Assim que retornamos à casa, fui ter com a Tia Nastácia e perguntei-lhe sobre a receita de seus famosos bolinhos de chuva. “ Ah, vosmicê pode panhar com Dona Benta que já escreveu num papelzinho. Sabe?, continuou, receita eu dou mas o segredo não está na receita, mas no jeitinho de fazer…” . Agradeci efusivamente à nobre e famosa quituteira e, quando pensava em retornar, fui abordado por Dona Benta.  

Aqui está a receita, senhor Mantraman”, ela me disse estendendo um papel em minha direção, “ espero que volte sempre. Mas antes que parta tenho uma pergunta a lhe fazer : afinal, como conseguiu chegar no Sítio do Pica-Pau Amarelo?” . Sem pestanejar, tirei do bolso o envelopinho azulado e lhe segredei “ pó de pirlimpimpim, Dona Benta…”. Ela franziu a testa e com um sorriso no canto da boca emendou “ tinha certeza que o seu editor Macro Céfalo havia levado um pouco do nosso secreto pó de pirlimpimpim….” E, tirando do bolso de seu vestido um outro envelopinho azul, idêntico ao que eu tinha, colocou-o dentro do meu bolso “ dê isto de presente para o Macro Céfalo, senhor Mantraman, e diga-lhe que o Sítio está de portas e janelas abertas para ele!”. Agradeci à bondosa e simpática velhinha e, após despedir-me de todos, fechei os olhos, pensei forte na Sala de Navegação, inalei o que restara do pó de pirlimpimpim e fiiiuuuuu fui parar na redação da Pirlimpimpim, diante do insano Macro Céfalo. “Cadê a receita?” ele me perguntou quando ainda despencava sobre a cadeira. Suspirei e entreguei-lhe a receita. “Mais nada?” perguntou-me apontando para o meu bolso de onde pendia o envelope azul. “Presente da Dona Benta” disse-lhe enquanto lhe entregava o pó de pirlimpimpim. “Melhor assim”, ele falou. “Agora pode ir. Quero a reportagem para amanhã. E, pelo amor de Deus, não me escreva mais aquela expressão “quando dei por mim estava não sei aonde…” .  

Com o Macro é sempre assim : tudo para ontem.

 

 


MANTRAMAN NO SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO

fevereiro 11, 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era um daqueles fins de tarde abafados de janeiro. No céu, as nuvens desenhavam dragões negros prestes a cuspirem sobre a superfície terráquea um dilúvio de proporções abissais. Sentei-me diante da janela da Sala de Navegação, onde costumo escrever estes relatos mantramânicos, e fiquei esperando pela inevitável tormenta. Não demorou muito e o céu começou a despencar paus, pedras, fins de caminho, restos de tocos e alguns poucos sozinhos. Estava completamente absorvido pelo som da singular sinfonia quando ouví o soar de um telefone. A princípio pensei que se tratava de mais um dos instrumentos da sinfônica tormenta, mas quando atinei meu ouvido, percebí que era o meu telefone quem estava tocando.

 Mantraman, esteja aqui em quinze minutos, tchau.” Era o Macro Céfalo, o lunático e insano editor da revista de viagens Pirlimpimpim onde trabalho como repórter. Antes que eu pudesse lhe dizer que para chegar na redação em quinze minutos eu precisaria de um bote salva-vidas, escafandro e roupa de mergulho, ele desligou o telefone. Olhei para a rua ( um rio), para o céu ( uma placa cinza compacta) e para o meu guarda-chuva cor de laranja pendurado atrás da porta. Em exatos dezesseis minutos eu e meu guarda-chuva adentravámos a sua bizarra sala na redação da Pirlimpimpim, com sua coleção de miniaturas de seres imaginários como cíclopes, minotauros, faunos, seus macaquinhos chineses de pelúcia movidos a pilha e um gigantesco formigueiro envidraçado, estratégicamente instalado na parede que fica atrás de sua cadeira.  

Ele estava falando com alguém no telefone, parecia animado com a conversa “ sim, meus bícepes estão bem definidos, é a natação com o boto cor de rosa, mil e quinhentos metros por dia, meu caro…” e acenou nervosamente para que eu me sentasse na cadeira diante de sua mesa. Com uma das mãos ele segurava o telefone e com a outra alimentava seus micro-jacarés de aquário com algo que parecia ser alpiste. Assim que desligou o telefone, abriu uma gaveta e, enquanto retirava de seu interior um pequeno envelope azulado, começou a me dizer com uma voz baixa e sincopada “ Mantraman, presta atenção, eu só vou falar uma vez : em algum ponto do planeta existe um lugar chamado Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde boneca de pano é gente e sabugo de milho é gente. Neste sítio mora uma quituteira chamada Tia Nastácia. Vai lá e pede para ela a sua receita de bolinhos de chuva, entendeu?” . A seguir deu-me o pequeno envelope azulado “ as instruções estão aí dentro” e, sem mais palavras, levantou-se e retirou-se de sua sala. Com o Macro é sempre assim : poucas palavras e muita objetividade. Já estou acostumado.

 Já era noite quando retornei para a Sala de Navegação e a tempestade tinha dado lugar a um histérico céu de estrelas onde uma lua cheia zombava de nossa insignificância e de nossos injustificados temores. Estava prá lá de curioso com o conteúdo do envelopinho e, com um cuidado de quem trabalha com cristais, pus-me a abrí-lo. Em seu interior encontrei cerca de meia grama de um reluzente pó dourado e um manuscrito “ Feche os olhos e pense com força no Sítio do Pica-Pau Amarelo. A seguir inale metade deste pó de pirlimpimpim. A outra metade você guarda para voltar. Macro Céfalo. P.S: Não me volte sem a receita!”. Fiquei observando o pó de pirlimpimpim por alguns instantes e divagando sobre como Macro teria conseguido obtê-lo. Mas meu devaneio durou pouco e logo fui arrumar minha maleta de viagens. No dia seguinte, ao nascer do Sol, daria início a mais uma reportagem da revista de viagens Pirlimpimpim.

 

(continua no próximo post)


MANTRAMAN NO REINO DE SHANGRI-LÁ (FINAL)

fevereiro 9, 2011

 A parte do declive, que percorremos sobre uma estradinha de no máximo um metro de largura, durou quase toda a manhã. Evitava falar com Tchang e Tenzin, o tibetano, porque o ar rarefeito não deixava energia suficiente para falas dispensáveis. Um ar, diga-se de passagem, tão límpido que parecia vir de outro planeta. Era necessário respirar conscienciosamente, refletidamente. E isto, que a princípio parecia atrrapalhar, ao fim de um certo tempo foi provocando uma formidável tranqüilidade de espírito. Todo o meu corpo se movia no ritmo único da respiração, do andar e do pensamento.

                                                             

Depois de três horas costeando o vale, a subida foi pouco a pouco tornando-se mais abrupta e a paisagem foi envolvida por uma névoa densa que obscurecia tudo ao nosso redor. O ar esfriou e o frio tornou-se intensíssimo. Fomos encharcados por rajadas de chuva e neve e, por um determinado momento, quase pedi para voltarmos. Percebendo meu desconforto, Tenzin sinalizou que, passado aquele trecho, o resto da viagem seria mais amena. De repente a chuva cessou e o ar aqueceu um pouco. Pensava comigo que era imposível continuarmos subindo quando avistei mais um aclive. Era o último.

 

Logo se aplainou o solo e, à nossa frente, surgiu uma atmosfera clara e cheia de sol. Em frente, a pouca distância, como se saído de um conto de fadas apareceu o mosteiro de Shangri-Lá. Era, na verdade, um espetáculo estranho, quase inacreditável. Um grupo de pavilhões coloridos pendurava-se à encosta da montanha com a delicadeza aventurosa de pétalas de flor encravadas num penhasco. Mais além, numa pirâmide deslumbrante, pairavam as encostas nevadas do Karakal. Na parte de baixo, o Vale das Lua Azul, um vale verdejante repleto de pequenas habitações mas absolutamente isolado, completava o mágico quadro do reino de Shangri-Lá. “ E, então, sr. Mantraman, perguntou-me Tchang, como está se sentindo?”. “No céu, meu caro, Tchang, no céu!” exclamei com todos os ares que ainda restavam no meu pulmão.

 

A seguir, Tchang me conduziu até os meus aposentos “ nossa instalação é simples, mas espero que nada lhe falte…” disse-me enquanto caminhávamos em direção a um pavilhão de madeira. Mas o fato é que as instalações do meu aposento eram simplesmente maravilhosas : caleifação, uma banheira delicada de porcelana verde, uma cama com lençóis de linho leves e limpos, cobertores feitos de pele de iaque, enfim, tudo o que costuma haver de melhor num hotel cinco estrelas. Enquanto me deliciava na banheira, pensava numa forma de chegar ao tal Lama Superior. E o caminho, claro, seria o simpático Tchung.

 

Despertei quando o Sol mal havia se erguido por detrás da Montanha Karakal. Ouvi ao longe o som de um piano, parecia ser uma sonata de Mozart. Levantei-me da cama, abri a janela e vi, ao longe, um ser humano ( parecia ser um Lama) levitando. Depois outro, outro, até que o céu ficou todo pintado de bolinhas vermelhas levitantes. Na sala de refeições, Tchang já estava à minha espera. “ Levitam todas as manhãs, estes lamas? “ perguntei-lhe mesmo antes de dizer-lhe bom dia. “ Não, só quando o ar está muito rarefeito, como hoje…”. “E quanto ao piano, de onde vem o som do instrumento? Quem está tocando-o?” “Chama-se Lo-Tsen. É uma chinesa que está conosco há mais de cinqüenta anos. Quer vê-la?”. Caminhei atrás de Tchang por diversos pátios até chegarmos numa escadaria que dava para um jardim em cujo centro encontrava-se um pequeno lago alimentado por algum artifício delicado de irrigação. Ele abrigava tamanha quantidade de flores de lótus que as folhas, unidas na superfície, davam impressão de um pavimento de tijolos úmidos e verdes. Ao redor do lago, pousava uma coleção de leões, dragões e unicórnios de bronze, cada um apresentando uma ferocidade estilizada que não só não perturbava como acentuava a paz no ambiente. Fiquei aterrorizado pela beleza do local e, sem que me desse conta, exclamei “ que lindo recanto!”, enquanto Tchang me conduzia para um pavilhão aberto onde havia um cravo e um piano.

 

Lo-Tsen estava sentada ao piano e súbitamente interrompeu a sua música e me cumprimentou com delicadeza. Era de uma clássica beleza oriental, o nariz pequeno e delgado, as maçãs do rosto salientes, o cabelo negro muito puxado para trás e trançado. Aparentava ter, no máximo, vinte e cinco anos de idade, o que deixava a afirmação de Tchang de que ela estava em Shangri-Lá há mais de 50 anos bastante confusa… Fui imediatamente tomado por um encanto sem precedentes por Lo-Tsen. Ela era absolutamente apaixonante. Fiquei ouvindo-a tocar durante meia hora e, ao fim do seu magnífico concerto, fui convidado por Tchang para conhecer a biblioteca.

 

Alta e espaçosa, a Biblioteca de Shangri-Lá causou-me espanto tanto pela quantidade de volumes como pela variedade. Alí, encontrei desde Cervantes e Dante Aligheri até uma imensa quantidade de escritos em chinês e outras línguas orientais. Mas o mais surpreendente foi ter me deparado com a coleção completa da revista de viagens Pirlimpimpim. Ao ver o meu espanto, Tchang comentou “ Tanto o Lama Superior quanto nós adoramos a revista…”. Achei que era uma boa chance para me conectar ao Lama Superior e saí com esta “ Pois o senhor sabe que vim aqui para entrevistá-lo? Não vejo a hora de conhecê-lo, Tchang!” Ele me olhou com afeto e compreensão e limitou-se a me dizer que “ na hora certa você terá um encontro com ele, sr.Mantraman…”.

 

Naquela noite, depois do jantar, resolví passear pelos pátios tranqüilos, banhados pela luz do luar. Caminhei ao longo de um dos claustros até atingir o terraço que se debruçava sobre o vale . Pensei comigo se seria permitido visitar o Vale e conhecer a civilização que ali vivia. Súbitamente, trazidos pelo vento, pude escutar sons de gongos e trombetas e um vozerio que parecia entoar um mantra. Estava imerso neste sonho quando Tchang tocou nos meus ombros. Era a minha chance de lhe perguntar sobre uma série de mistérios que rondavam Shangri-Lá : porque os lamas nunca eram vistos? ( a resposta foi tremendamente evasiva “ os lamas nunca são vistos por gente estranha ao mosteiro”, quem havia construído aquela maravilha? (“ao tempo certo você vai saber”) e uma série de outras dúvidas que martirizavam a minha mente. Quanto a conhecer o Vale, nenhum problema, na manhã seguinte poderia descer contanto que fosse escoltado por um membro do clã.

 

Portanto, na manhã seguinte, logo ao alvorecer, fui despertado por Tchang para uma excursão ao Vale da Lua Azul, como é conhecido aquela parte de Shangri-Lá, uma vez que Karakal no dialeto local significa Lua Azul. Viajei durante todo o dia numa cadeirinha de bambú que balançava perigosamente por cima dos precipícios mas quando finalmente atingimos os planos mais baixos da floresta, defrontei-me com um paraíso fechado, de assombrosa fertilidade, onde plantações extraordinárias cresciam em profusão, umas aos pés das outras, sem que ficasse inaproveitada sequer uma polegada de terra. O vasto maciço, em torno, formava perfeito contraste com os pequenos relvados e jardins de ervas, com as coloridas casas de chá à beira do regato e com as habitações tão leves que pareciam casas de brinquedo. Os habitantes eram uma mistura das raças chinesa e tibetana e estavam sempre sorrindo e dizendo palavras amigas quando me viam. Eram bem-humorados e levemente curiosos ( um senhor quis experimentar meu tênis americano, e não havia jeito de demovê-lo de sua idéia), corteses e despreocupados, ocupados com diversos afazeres mas sem nenhum sinal de pressa.

 

Minha vida em Shangri-Lá ia de vento em popa. Passados dez dias, sentia-me em casa, realmente ambientado com os moradores ( neste interlúdio conhecera rapidamente três lamas semi-iniciados, um francês e dois ingleses, que acabaram me informando que ali viviam lamas de diversos países mas que a maioria eram da China e do Tibete; mas como o encontro fora por demais furtivo, nada pude deduzir acerca de seus ensinamentos) e cada vez mais próximo da bela Lo-Tsen. Para ser franco, já me imaginava com um dos seus moradores, ou seja, não pensava mais em voltar para a cidade de São Paulo e tampouco preocupava-me com a zanga que esta minha decisão provocaria em Macro Céfalo. Pois foi exatamente neste período que, numa noite, Tchang aproximou-se de mim enquanto escutava Lo-Tsen tocando Bach no cravo e sussurou-me no meu ouvido : “ O Lama Superior quer vê-lo”. “Quando?” perguntei-lhe. “Já.” Ele me respondeu. “ Venha comigo…” Despedi-me de Lo-Tsen e, tomado por uma sensação que mesclava o medo com a ansiedade segui os passos de Tchang.

 

Passamos por diversas salas, todas elas magicamente iluminadas pela luz fosca das lanternas até atingirmos uma escada caracol que nos levou a uma porta em que o chinês bateu. Prontamente, a porta foi aberta por um tibetano e a minha primeira impresão foi que a atmosfera do ambiente era quente e seca ao extremo, como se todas as janelas se achassem herméticamente fechadas e algum aparelho de aquecimento interno estivesse funcionando a toda pressão. À medida que avançava, a falta de ar parecia aumentar até que Tchang se deteve diante de uma porta e me disse num murmúrio “ o Superior o receberá sozinho”.

 

Como a sala estava excessivamente sombria, no começo nada ou quase nada pude avistar. Pouco a pouco, contudo, meus olhos foram divisando uma pequena, pálida e enrugada figura, imóvel na sombra, dando-me a impressão de um quadro antigo e descolorido, em claro-escuro. Quando me aproximei do vulto, percebí a presença de um velhinho vestido à chinesa, e as amplas pregas da túnica lhe envolviam frouxamente o corpo exíguo e emaciado.

 

– É o sr. Mantraman? , murmurou em excelente inglês.

– Sou, respondí.

– É um prazer conhecê-lo pessoalmente sr. Mantraman. Mandei chamá-lo aqui porque fiquei sabendo que está fazendo uma reportagem sobre Shangri-Lá para a revista de viagens Pirlimpimpim. Nós de Shangri-Lá temos grande apreço por esta publicação e para mim será, certamente, uma honra informá-lo tudo o que eu puder informar a fim de contribuir com a reportagem.

– É uma honra ser recebido pelo senhor…, foi o máximo que consegui balbuciar diante daquela entidade sobrenatural.

 

Assim que pronunciei estas palavras o Lama Superior fez um aceno com a mão e, imediatamente, graças a um sistema de comunicação que ficou sendo um mistério para mim, entrou um criado a fim de preparar o elegante ritual do chá. Numa bandeja de laca foram colocadas as taças de porcelana fina contendo um líquido quase incolor. O fato é que o chá criou um clima propício para uma conversa que se estenderia por muitas horas. E quando já tinham se passado mais de três horas, entrei com tudo no tema de sua longevidade.

 

E entre um e outro gole do aromático chá, o Lama Superior foi me contando como sua chegou àquela idade. “ Como não morri na idade normal, comecei a sentir que não havia nenhum motivo conhecido para que isso acontecesse em tal ou tal época do futuro. Percebí que era anormal e acreditei que a anormalidade tanto poderia persistir quanto ter fim a qualquer momento. Assim sendo, comecei a viver sem mais cogitar da iminência da morte, que por tanto tempo me havia preocupado. Comecei a viver como sempre desejara, conservando meus gostos pela ioga e pelos estudos.

 

Quanto a você, meu caro Mantraman, tempo virá em que comece a envelhecer como os outros. Mas se souber como fazê-lo, em condições nobres, aos oitenta anos poderá subir ainda ao desfiladeiro com a agilidade de um moço, mas quando contar o dobro desta idade não deve contar que o mesmo vigor ainda persista. Não fazemos milagres, não vencemos a morte e nem sequer a decadência. Tudo que podemos fazer e temos feito algumas vezes é retardar a marcha desses breves momentos que constituem a vida. Logramos isso mediante métodos tão simples aqui quanto impossíveis em outros lugares. Mas não se iluda : o mesmo fim aguarda a todos nós”.

 

As palavras do Lama Superior deixaram minha mente extasiada. A forma como falava, o timbre de sua voz, o espaçamento entre as palavras, a clareza, enfim, tudo me deixou poussído por um encantamento sem igual. Não sabia mais o que lhe perguntar e quando me preparava para me levantar e começar a me despedir, ele ainda lembrou-me de não esquecer de enviar-lhe a Pirlimpimpim de Shangri-Lá. Nos beijamos afetivamente e, a seguir, o tibetano me conduziu de volta aos meus aposentos. No caminho comecei a ouvir a mágica música de Lo-Tsen ecoando pelas salas. Pensei em me despedir dela antes de partir. E foi o que fiz.

 

Sentei-me ao seu lado maravilhado com a agilidade dos seus dedos e, assim que a música parou, olhei-a profundamente disse-lhe com uma voz que até hoje não sei precisamente de onde veio “ Lo-Tsen, venha comigo, por favor, venha comigo…” Ela sorriu com sua meiguice estonteante e disse-me que ainda não havia chegado o seu momento de partir. Mas que gostaria imensamente de, um dia, encontrar-se comigo na civilização.

 

Durante aquela que seria a minha última noite em Shangri-Lá, desci até o Vale da Lua Azul e fiquei bebericando uma taça de vinho numa casa de chá, conversando com uma senhora tibetana e uma jovem chinesa. Estava triste por causa da partida e as duas percebiam a minha desolação. Depois de algumas taças, confessei-lhes o meu amor por Lo-Tsen e as minhas amigas disseram para eu não perder a esperança “ Com Lo-Tsen tudo é possível”, disse-me a mais velha.

 

E na manhã seguinte, qual não foi a minha surpresa ao ver Lo-Tsen ajeitando sua bagagem junto à minha. “ Não acredito, lhe disse, você vem comigo?” Ela acenou positivamente com o rosto e me deu uma longo e profundo abraço. Senti-me o mais glorioso e feliz dos homens naquele momento. Sem perda de tempo, despedi-me de Tchang com muita força e sinceridade afetiva e partimos rumo ao precário aeroporto de Shangri-Lá.

 

Foi sómente quatro dias depois, quando já nos encontrávamos em Pequim, que comecei a perceber as mudanças no rosto e no corpo de Lo-Tsen. Em menos de seis dias desde que saíramos de Shangri-Lá ela parecia ter envelhecido mais de trinta anos. Aparentava, naquele momento, uma mulher de sessenta anos de idade. E foi só então que entendi o segredo da longevidade em Shangri-Lá. Estava na atmosfera do próprio Shangri-Lá!

 

 

 

 

 

 


MANTRAMAN NO REINO DE SHANGRI-LÁ

fevereiro 8, 2011

Era um chuvoso sábado à noite. Preparava-me para escalar um edifício usando uma técnica do Homem Aranha que aprendera dias antes com o meu mestre Joe Spider. Quando estava quase conseguindo atingir a janela do terceiro andar meu celular tocou. “Mantraman venha me encontrar no restaurante da Sede Social dos Jornalistas Experimentais o quanto antes. Quero dizer, já.”. Era Macro Céfalo, o meu lunático e singular editor da revista de viagens Pirlimpimpim, onde ocupo o cargo de repórter de viagens transcendentais. Mais do que depressa, desativei o meu equipamento e me dirigi ao local onde Macro me esperava.

Encontrei-o jantando com Oslo Kovac , o editor da revista Mutantes Meditantes, publicação dedicada à descoberta de extra-terrestres que já estariam vivendo entre nós, humanos. Curioso que o próprio Oslo parecia ser um deles : rosto encovado, olhos fundos e acizentados, lábios finos, enfim, uma clássica redução genética de um alienígena. Assim que me viu Macro apontou para uma cadeira vazia e pediu para que eu me sentasse enquanto acabava de comer uma estranha lagosta com listras amarelas e vermelhas acompanhada de um arroz dourado brilhante que mais parecia um amontoado de purpurina. Oslo degustava uma prato de ervilhas cor de rosa. Conversavam sobre um congresso de jornalistas experimentais que deveria ocorrer na Patagônia no final do mês. Quando terminou sua refeição, Macro dirigiu-se para mim e, como sempre, foi suscinto e objetivo : “ No Tibete existe um reino chamado Shangri-Lá. Lá tem um sujeito que é conhecido como Lama Superior. Dizem que ele está com 250 anos de idade. Vai lá e checa se isto é verdade e, caso seja, quero saber como um sujeito pode viver tanto tempo assim. Quero que me traga o segredo de sua longevidade. Em cima da mesa da minha sala na redação tem um envelope amarelo com as instruções.” E, antes que eu pudesse lhe fazer qualquer pergunta, continuou seu animado colóquio com Oslo.                                                                       

A sala de Macro Céfalo, era decorada com os mais excêntricos e curiosos objetos que já tinha visto em toda minha vida : um aquário com dois minúsculos crocodilos, uma parede de vidro por onde podia-se ver uma centena de formigas caminhando, dezenas de miniaturas de bichos empalhados e outras bizarrices. Mas naquela noite percebí uma nova presença na sua galeria de excentricidades : um minúsculo pingüim, do tamanho de uma pássaro, dentro de uma gaiola. Na parte exterior, a inscrição “ Pingüim-Bonzai from Kioto”. Olhei-o com assombro e tentei alguma comunicação com o estranho ser mas logo percebí que ele estava dormindo. Peguei o envelope amarelo e pus-me a caminho de casa. Assim que cheguei abri o envelope e as indicações, escritas a mão, diziam o seguinte : “Em Baskul, China, procure no Aeroporto Tsan Tsé um piloto chinês chamado Tatsu. É ele quem o levará para Sahgri-Lá. Um certo sr. Tchang estará à sua espera. P.S. :Não me volte sem o segredo da longevidade deste Lama Superior! ”. Ao lado, uma passagem São Paulo- Pequim-Baskul, de ida e volta com data de embarque para o dia seguinte. 

Tres dias depois já estava no Aeroporto Internacional de Baskul à procura de Tatsu. Encontrei-o num quiosque à beira de um rio, bebendo uma garrafa de cerveja acompanhada de uma poção de aranhas fritas com minhocas roxas. Apresentei-me. “ Ah, sr. Mantraman? Estava exatamente lhe esperando…Da Revista Pirlimpimpim, né?”, disse-me num inglês quase incompreensível. “ Podemos ir quando quiser…” Ofereceu-me uma punhado de aranhas fritas que eu gentilmente recusei. A seguir pagou a conta e nos deslocamos de volta para o Aeroporto. A bordo do seu bi-motor alaranjado, Tatsu me informou que o tempo de viagem seria de aproximadamente doze horas. “ Ah, senhor tem sorte, hoje tempo bom, avião vai aterrisar fácil, fácil…” E assim, passadas duas horas, sobrevoávamos a cordilheira ocidental dos Himalais, uma região conhecida por Kue-Lun, considerada a parte mais elevada da Terra, o planalto do Tibete, cujos vales mais baixos ficam a mais de três mil metros de altitude.  É, na verdade, uma vasta região montanhosa, desabitada, inexplorada em sua maior parte, varrida pelos ventos. Quando a noite chegou e a lua cheia iluminou a magnífica paisagem, pude ver os contornos de um extenso vale, limitado de um lado e outro por outeiros arredondados, de pouca altura, e negros de azeviche contra o céu noturno, de um azul elétrico. Na cabeceira do vale, surgiu a mais bela montanha que vira em toda minha vida : era um cone de neve quase perfeito, de um perfil tão simples que parecia o desenho de uma criança.                                                                         

Quando o dia estava amanhecendo, Tatsu começou a operação descida. Em menos de meia hora aterrisávamos numa pista cuja precariedade se fazia ouvir através dos sucessivos estrondos provocados pelos choques entre as pedras de cascalho e a ferragem do avião. “ Não assusta não, sr. Mantraman, está tudo sob controle”, disse-me Tatsu, com um sorrisinho maroto-chinês no canto da boca. Quando o bi-motor parou por completo, observei através da janela a presença de um chinês velho , ou pelo menos em idade madura, de rosto escanhoado, a vestimenta de seda azul bordada, com a costumeira saia aberta ao lado e as calças apertadas no tornozelo, tudo em vários tons de azul. Ao seu lado, um tibetano com trajes monásticos cor de vinho. “Bem vindo a Shangri-Lá, sr. Mantraman. Meu nome é Tchang. Fui incumbido pelo Lama Superior a levar-lhe até o Vale da Lua onde se concentra parte do reino de Shangri-Lá. Será uma caminhada de aproximadamente quatro horas. O senhor fez boa viagem? ”. “ Não poderia ter sido melhor, Sr. Tchang” disse-lhe enquanto contemplava uma gigantesca montanha, a maior que vira em toda a minha vida. “Ah, é a Montanha Karakal. Tem 8.400 metros.”, informou-me com presteza o simpático Tchang.

 Pouco depois iniciávamos a viagem para Shangri-Lá.


O ESSENCIAL NO PAÍS DO ESPELHO

fevereiro 4, 2011

 

 

Ficar : Hotel da Morsa (R.Tabuleiro do Xadrez, Casa do peão do Bispo, s/número). Para chegar o turista deve encontrar o Cavaleiro do Cavalo Branco que, com sua espada de algodão doce, fará o hotel surgir. As roupas de cama são feitas de tecido de asas de borboleta e de teias de aranha. Os travesseiros são morsas vivas que embalam turistas insones com canções de ninar. O Hotel Humpty Dumpty ( Alameda das Margaridas Tagarelas, 18) tem o formato de um ovo e e é dividido em duas alas : a Gema e a Clara. Não há nenhuma diferença entra ambas. Atenção para uma promoção imperdível : se o turista chegar num dia que não seja o dia de seu aniversário, terá todas as despesas cobertas pelo Hotel. Para participar, o hóspede deve procurar a gerência e declarar : “ estou interessado na promoção de desaniversário.” Para quem gosta da letra H, o Hotel H ( Floresta do Rei Vermelho, casa 4) é uma boa pedida. Além de ter formato da letra H, tudo alí é uma evocação a esta letra do alfabeto. As camas, os pratos, os chuveiros, todos os objetos lembram a letra H. Para conseguir hospedar-se, o turista deve falar, na recepção, um poema cujas palavras comecem com a letra H.

Passear : Uma boa pedida é tirar um dia inteiro para conhecer o Jardim das Flores Falantes (Alameda Topo da Colina, sem número) . Ali, toda a estranha e exuberante flora do País do Espelho poderá ser observada de perto. Para os turistas que quiserem conversar com as flores, aqui vai uma dica : elas só falam se o estrangeiro falar primeiro. Outra sugestão : cuidado com os lírios tigrinos, são flores que falam alto e, se ofendidas, são capazes de proferir xingamentos realmente pesados. Colado ao Jardim das Flores Falantes, encontra-se o Fabuloso Mundo dos Insetos do País do Espelho ( Avenida de Todos os Ares e Céus, casa 9 do peão do Bispo da Rainha), onde o viajante poderá observar a intrigante e crativa fauna aérea do País do Espelho. Além de sapos que falam, leões velhos, unicórnios céticos e lebras com pose anglo-saxônica, a fauna do País do Espelho é famosa por seus espantosos insetos. Abelhas-elefantes, besouros de voz rouca, libélulas crocantes com corpos de pudim de passa, borboletas com asas feitas de fatias finas de pão com manteiga e vespas de peruca, são alguns dos exemplares que o turista encontrará durante este inesquecível passeio.

Agitar : Os habitantes do País do Espelho adoram poesia. Entre suas mais famosas criações estão o conto triste “ A morsa e o carpinteiro” e o poema “ Jaguadarte”. Os Saraus acontecem ao ar livre e a qualquer momento. Os bardos mais requisitados pelos turistas são os irmãos briguentos Tweedledum e Tweedledee. Podem ser encontrados em qualquer lugar e a qualquer momento.

Comprar : A Loja de Surpresas da Dona Ovelha ( Casa 1 do Rei Vermelho), é repleta de todo tipo de coisas curiosas. Ali é possível encontrar desde um grampo que fala até uma gaiola com uma espécime rara de vespa com peruca. Mas o melhor da loja é a proprietária Dona Ovelha. Se ela oferecer ao viajante um par de agulhas de tricô e, de repente, o par de agulhas se transformar em um par de remos, é sinal de que o turista fará uma uma viagem pelos rios subterrâneos do País do Espelho.

 

 

O ESSENCIAL

Como Chegar : Um vez em Londres, o turista deve dirigir-se ao Christ Church College, em Oxford. Alí, deve entrar nos aposentos do pároco e ir até a sua sala de estar, onde se encontra uma grande chaminé sobre a qual há um espelho de vastas proporções. Após evitar cuidadosamente os vasos de flores secas, protegidas por redomas vitorianas, o visitante deve subir no console da da lareira e penetrar no espelho.

É Bom Saber : A língua do País do Espelho, embora utilize a gramática e as palavras inglesas, tem regras próprias. As palavras tem o sentido que quem fala lhes dá, porque seus habitantes acreditam que são eles, e não as palavras, que mandam.

Quem leva : O livro Alice Através do Espelho do escritor inglês Lewis Carrol (1.832- 1898).