OCEANO ~ SEXO ~ HORIZONTE

 

Sentados no convés do navio que havia acabado de se instalar em nossa mesa, falávamos as tais palavras salgadas. Ele repetia exaustão, marasmo, tédio, ausência e eu preferia sonho, negligência, navegação. Sua inteligência nervosa estava aparentemente amortecida sobre a mesa, convés. Quanto a mim, fazia muito tempo que não celebrava com tanta franqueza e aceitação a vida entre os seres humanos. O mero fato de estar a bordo me tornava mais forte para enfrentar a verdadeira viagem, que não seria fácil nem desprovida dos mais terríveis obstáculos marítimos. Por ora, contudo, os tripulantes do transatlântico me pareciam anjos marujos extraídos das páginas de Simbad.

  

Numa noite de chuva e frio, um homem aportou no meu cais com seu navio de mudanças repleto de ferros velhos & contorcidos e um secular cansaço. Pediu-me para que eu o acolhesse por uma semana. Passado um mês, ele partiu em sua errante sina sinuosa através do Oceano. Ontem fiquei sabendo que este homem me abomina. ( Mais um quer me matar?). A vida entre marujos amadores.

 Estava enganado : as pessoas são estranhas. 

 

Em meio à aparente calmaria que se instalara sobre o Oceano naquela noite, deixei meus pensamentos fluirem e darem piruetas no interior das bolinhas de oxigênio salgado que dançavam para nossos olhos e, claramente, divaguei, extravagante,  imerso numa espécie rara de serena alegria.

 Aparente calamaria.

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