NO REINO DA VELOCIDADE

Portanto, resolví seguir. O caminho, já conhecia. Tinha um certo domínio. Havia algum tempo que não andava por ali. Talvez por isto estivesse me sentindo um pouco inseguro. Mas logo no início da jornada fui tomado por um cansaço profundo e quis parar um pouco para descansar. Quando lembrei. Neste caminho não há paradas. Ali, só se anda. Para trás ou para frente. No Reino da Velocidade. As palavras são abundantes e ditas rapidamente. As flores nascem, desabrocham e morrem em segundos. E o rio que margeia a estrada assemelha-se a um raio líquido. As pessoas que ali transitam não se olham. Algumas, é verdade, por medo, mas a maioria por pressa. Todas falam muito. Nenhuma escuta. E ninguém dorme. Este caminho não é exatamente o que chamam de Paraíso e tampouco seu contrário, Aquele. São ambos e ora andamos em um, ora em outro. Portanto, mesmo debilitado, fui obrigado a seguir. Talvez porque eu soubesse que ali encontraria algo que tinha perdido. A poesia, talvez. Tinha planos em mente e palavras engatilhadas na boca. Sabia que era preciso ter muita paciência e que ficaria ali por um longo tempo, à sua espera. O problema é que a poesia aparece e desaparece com a velocidade de um relâmpago. Sobretudo no Reino da Velocidade. Minha estratégia era muito simples : seguir. Queria vê-la e declarar a minha devoção com estas duas palavrinhas : “sou seu”. Portanto, resolvi seguir. Selecionei mentalmente alguns poemas que julgava sublimes e pus-me a repetí-los com sincera e profunda devoção, como se fossem orações. Repetia-os contínuamente enquanto via o desfile de seres meteóricos que passava incessante diante de meus olhos. Assim fiquei durante um tempo indefinido. Até que um inseto metálico que ziguezagueava velozmente pela margem oposta do rio pousou em meu ombro. E me disse em sua em sua língua muda que a Poesia “prezava a minha devoção por ela”. Foi tudo. Ele partiu assim como veio. Veloz. Considerei auspiciosa a visita do inseto metálico sem, contudo, perder de vista o meu plano. Queria vê-la e dizer-lhe as duas palavrinhas “sou seu”. Portanto, resolvi seguir. Os instantes que se seguiram após o pouso do inseto metálico foram de dúvidas. Se ela prezava a minha devoção é porque tinha me visto. Mas porque não aperceu diante de mim? E bênção que eu pedia já não teria sido dada pelo insto metálico? Ou, não seria o inseto metálico a própria Poesia? E se o inseto não fosse porta voz da Poesia e estava brincando de me iludir? “Os insetos são sarcásticos” alguém me dissera certa vez. Estas perguntas surgiam e evaporavam na velocidade da luz. Neste Reino. Portanto, resolvi seguir. Fui, fui, fui, e, pelos meus cálculos esta viagem não tem dia nem hora para acabar. Sei que ela está logo ali. E vou tentar encontrá-la. Até o fim dos meus dias.

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