O CARDUME DOS PEIXES CEGOS

 

Muito cedo, ainda muito cedo, percebi que não pertencia àquela vida de relógios-tictac-aflitos e retirei-me ou fui retirado, até hoje não sei ao certo. Fechei a porta ou fecharam e, sob o olhar espantado de um amigo que havia acabado de conhecer, pus-me a caminhar pela calçada ora em silêncio ora disparando falas cujo sentido só eu entendia. Naquela noite, ventava, correu o boato de que eu havia enlouquecido e eu mesmo confirmei no telefone , um pouco mais tarde que tinha perdido o fio, como dizem?, da meada, mas que não se preocupassem comigo, que era preciso quebrar relógios antes que eles me quebrassem, naquela noite o pior ainda estava por vir e só agora, neste exato momento, posso de fato lhes revelar o que aconteceu de fato quando fechei a porta em meio a um redemoinho de conclusões precipitadas e nebulosas e ganhei o espaço da calçada, junto ao meu amigo, que não conhecia, mas que se mostrava assustado com a minha reação, naquela noite, ventava, na minha cabeça havia um cara cujo rosto me era familiar de outras vidas, olhos semelhante aos de um peixe, o cara que já havia me matado em alguma outra vida e persistia no meu encalço, naquela noite, ventava, e eu pude reconhecê-lo não sem um assombro “então é ele, de novo?”, claramente, eu o reconhecia porque o vermelho da água do aquário onde se deu a minha morte tinha se assentado, ficara menos turva, de modo que este cara havia voltado, por um descaso do destino, como um guardião dos meus segredos, o olho de peixe, ele mesmo, desta vez como homem de segredos que extraía do fundo da minha alma a fim de me decapitar e saciar seu baixíssimo instinto animalesco e cumprir sua missão nesta estranha roda-gigante da vida cíclica, mas naquela noite, ventava, eu pressenti, ainda quem sem muita convicção, a sinistra trama em que havia me envolvido por descuido, ignorância, como poderia saber?, onde o carrasco, através de uma série de artimanhas muito bem desenhadas, revela-se como seu protetor, ou seja, o traidor, afinal, era o sujeito a quem eu devotava e confiava os meus mais preciosos segredos, que, pensando bem, poderiam não ter nenhum valor, aliás quem dá valor a segredos?, mas eu dava, e dou e naquela noite, o amigo que acabara de conhecer mostrava-se preocupado com os meus desígnios, embora achasse a história meio confusa, ventava e aquele posto de gasolina deserto não era exatamente uma árvore florida onde alguém poderia pedir consolo e ele, coitado, sofria por mim o que eu mal sentia, navegando no oceano turbulento das minhas confusas revelações, seguro, sabia que eu simplesmente recusava tictac aquele universo sombrio que queria invadir a minha vida, mas o pior estava por vir, a luta travada em cena aberta dividia as opiniões e muitos dos que se colocavam a favor do olho de peixe, passavam noites e noites em assembléias julgando-me inferior ao traidor e recriminando-me pelo fato de eu ter fechado a porta, naquela noite, ventava, e, antes de sair, quebrado os relógios da sala, da cozinha e do quarto da casa do olho de peixe, porque, porque?, porque o tempo tictac tinha parado ali, no calor do último combate e fechar a porta e ganhar o espaço da calçada e ter aquele amigo que eu acabara de conhecer andando ao meu lado, entre postos de gasolinas desertos, havia se tornado a minha única saída.

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