AMNÉSIA E SONHO

janeiro 28, 2011

 

Esquecí o que aconteceu ontem de manhã. No eco do perigo, a calma quebradiça, íris no vapor, esquecia mas extraía algo que não era essência mas fotografia polaróide incrustrada nas rochas de uma praia do litoral norte ( por exemplo ubatuba).

 

Ora uma coisa ora outra : lembrar esquecer esquecer lembrar lembrar esquecer esquecer lembrar além de.

 

Mas o que me aconteceu ontem de manhã pode ter sido tão trágico quanto o súbito irromper de um vulcão sobre uma aldeia de pessoas felizes, pode ter sido isto, isto pode estar sendo, ora para lá, ora para cá.

 


OCEANO ~ SEXO ~ HORIZONTE

janeiro 27, 2011

 

Sentados no convés do navio que havia acabado de se instalar em nossa mesa, falávamos as tais palavras salgadas. Ele repetia exaustão, marasmo, tédio, ausência e eu preferia sonho, negligência, navegação. Sua inteligência nervosa estava aparentemente amortecida sobre a mesa, convés. Quanto a mim, fazia muito tempo que não celebrava com tanta franqueza e aceitação a vida entre os seres humanos. O mero fato de estar a bordo me tornava mais forte para enfrentar a verdadeira viagem, que não seria fácil nem desprovida dos mais terríveis obstáculos marítimos. Por ora, contudo, os tripulantes do transatlântico me pareciam anjos marujos extraídos das páginas de Simbad.

  

Numa noite de chuva e frio, um homem aportou no meu cais com seu navio de mudanças repleto de ferros velhos & contorcidos e um secular cansaço. Pediu-me para que eu o acolhesse por uma semana. Passado um mês, ele partiu em sua errante sina sinuosa através do Oceano. Ontem fiquei sabendo que este homem me abomina. ( Mais um quer me matar?). A vida entre marujos amadores.

 Estava enganado : as pessoas são estranhas. 

 

Em meio à aparente calmaria que se instalara sobre o Oceano naquela noite, deixei meus pensamentos fluirem e darem piruetas no interior das bolinhas de oxigênio salgado que dançavam para nossos olhos e, claramente, divaguei, extravagante,  imerso numa espécie rara de serena alegria.

 Aparente calamaria.


ALÔ?

janeiro 25, 2011

 

É um universo caótico deslizando no Vago Oceano de dúvidas seguidas de certezas provisórias frágeis invisíveis inanimadas incrustradas em pérolas de um oceano de luz em contínuo movimento…tudo muito Vago mesmo…alô? alô?

 

Comia biscoitos a pensar no meu caráter (?) e posterior fundação de um organismo baseado numa espécie de honestidade humanitária (?) onde todos teriam direito a tiquetes e parques.

 

Onde o parque é uma verde vertigem horizontal por onde deslizam patinadoras nuas e esquiadores negros através de uma ardente manhã de sol e céu azul propício ao último vôo-exibição de uma mariposa que antes de estatelar-se sobre a relva de folhas pronuncia incontáveis provérbios em sua língua seca e muda.

 

 Calma. Ouço um ruído. Calma. Vem da Sala de Brincar. Ecos de infância. Parece. Calma. Deixa eu escutar. Um ruído quer ser som? Um carro passa. Depois outro. Outro. Agora o cão late. Aquele cão. O som quer ser música? O disco. Vermelho? No instante. No asfalto. Ouço o rolar das rolemãs. Calma. Vou ver. Deve ser.

 Gosto de tomar as manhãs em minha boca e sentí-las ainda frescas entre meus dentes e minha língua porque a manhã é período mais adequado para encontrar estrelas despedaçadas flutuando sobre o solo líquido e transparente dos lagos.

Ainda ecos dos terríveis acidentes cósmicos produzidos no interior rumoroso e impreciso da noite.


O ESPELHO VERTIGINOSO E O GUARDA-CHUVA ATÔMICO

janeiro 24, 2011

Revirei-me por dentro à procura do poeta que havia sumido. Mas foi somente quando o Sol se foi que o encontrei. Ele me disse que não suportava mais o tipo de vida que eu estava levando e por isto resolveu sumir por um tempo. Preferi não polemizar e concordei. Estava com saudades dele e de sua insanidade.  

                                                                                

Com o tempo, fui riscando as dúvidas e as certezas e todos os contrários mesmaram-se. Pouco me importava comigo, com o outro e com o outrora instigante reino dos mistérios. Sabia que não era o poeta místico e tampouco o ourives da forma. E isto me bastava.

Com o tempo, me tornaria um jardineiro anônimo : olharia para as pedras e para as flores e não veria mais do que pedras e flores. Talvez houvesse um momento numa noite fria e estrelada em que o mundo me parecesse estranho, mas esta sensação também sucumbiria rapidamente.                                                                    

                                                                                          

Nada mais. Agora é só fluência, despencar de imagens desconexas a correr pelos rios que são minhas veias, palavras livres, ruídos secos, apreço pelas paranóias ( eles estão falando algo a meu respeito? não quero saber mas escuto-os com a paciência de uma pedra e depois calo, porque sei que eles não existem e suas palavras queimam no vazio ) deitado sobre o tapete, sinto o oscilar do vôo que se inicia, os olhos fechados…

 


(ELE NÃO SE CONFORMAVA)

janeiro 23, 2011

 

Durante muitos desertos vagou pelos quatro cantos do tempo à procura dos pais, dos irmãos e dos filhos. Embora nunca tivesse ido à Lua, conversava com formigas e vagalumes. Um astronauta.

Ontem ou antes de ontem, andando, não me lembro bem aonde, agora, desaprendi toda aquela lição, inalando a pura sabedoria pelos flancos indiretos do cérebro.

   

Ontem ou antes de ontem, não lembro bem agora quando, uma piscina com azulejos quebrados e musgos na borda sorria para um Sol de Janeiro.

Pensando bem, foi um dia de intensas revelações. Tinha chegado a um tal volume de conclusões num espaço tão curto de tempo que cheguei a desconfiar da veracidade destas conclusões. De qualquer forma, foi um dia propício para ser esquecido amanhã. Um bom dia.

 

 A uma certa altura da tarde, os raios do sol fustigando minhas pupilas, concluí que estava me acabando. Ah…que lembrança mais fugaz!


EVACUANDO IDÉIAS NA SELVA DO IMPROVÁVEL

janeiro 21, 2011

 

 

Senhores! Só a sabedoria atávica e displiscente dos vagabundos tem algum valor! Os cientistas enclausurados em suas lógicas esperneiam em cima dos relógios e preferem um calendário gregoriano a um vôo livre no vertiginoso reino do improvável! Para estes homens basta uma estrela opaca brilhando no firmamento ou uma concha raquítica rejeitada pela luxúria do mar!

 

Senhores! Não atingimos nem o estágio de um casulo de borboleta! Abram seus olhos adormecidos pela longa treva e vejam, sem nenhum dinheiro no bolso da calça azul marinha, o maravilhoso espetáculo! As sementes estão levitando pelo ar e isto já é motivo de festa para quem tem dois olhos! Lembrem-se que existe uma sabedoria vagabunda embutida nas asas dos insetos mais insignificantes! Eis o jogo das dimensões : o que nunca foi visto substitui o já visível. O indescritível torna-se escritível. Cifra-se o indecifrável. As relações pessoais mais banais ganham um contorno perturbador, inquietante, repleto de sensações ancestrais que precisam ser decifradas, uma a uma, sem vacilos, sem deixar que o leite escorrido numa tarde provisória de sol coalhe sobre o vestido verde guardado no armário.O Sol arrebenta o céu, etc., etc., etc.

 

Senhores! Não estou aqui como um profeta que não sei quem sou! Portanto, cancelem suas expectativas de aqui algo novo ou ultrajante vá explodir em suas hortinhas de rabanetes verdes e amarelos! Sou um homem sem pontos! Entendam meu êxtase exclamativo! Sou um pomar pelo que a palavra pomar exala em sua sublime sonoridade, um sonhador de aromas, colecionador de neuroses adequadas ao tempo em que vivemos! Vejo a chuva como uma relação sexual entre a água e o solo e depois da chuva corro para a rua e vejo, atrás daquelas bocas tagarelas, uma lua sem nome! Assim, criamos um funcional sistema telegráfico por onde as idéias vão escoando, recuando, avançando, Evacuando Idéias na Selva do Improvável, eis, senhores, por onde andamos nesta manhã de um vento tão improvável : irremediávelmente perdidos, meditando sobre esfinges esquecidas pela história.

 

Aqui, onde o máximo do real é representado por um posto de gasolina. Francamente! O que é isto? Mancha de petróleo na distração do amor? Móveis incendiados em leilões comandados por capivaras? Móveis que poderiam servir a uma série de odontologistas renomados e que são despencados de uma varanda coberta por trepadeiras douradas em noites de tédio da riqueza? É contra estes despencadores de móveis Luís XV, ou XIV, que lanço o meu mais cruel olhar de desprezo! O Sol não é o único Deus! E nem Deus cabe no que Deus é!. Tenham um bom dia!


NO REINO DA VELOCIDADE

janeiro 20, 2011

Portanto, resolví seguir. O caminho, já conhecia. Tinha um certo domínio. Havia algum tempo que não andava por ali. Talvez por isto estivesse me sentindo um pouco inseguro. Mas logo no início da jornada fui tomado por um cansaço profundo e quis parar um pouco para descansar. Quando lembrei. Neste caminho não há paradas. Ali, só se anda. Para trás ou para frente. No Reino da Velocidade. As palavras são abundantes e ditas rapidamente. As flores nascem, desabrocham e morrem em segundos. E o rio que margeia a estrada assemelha-se a um raio líquido. As pessoas que ali transitam não se olham. Algumas, é verdade, por medo, mas a maioria por pressa. Todas falam muito. Nenhuma escuta. E ninguém dorme. Este caminho não é exatamente o que chamam de Paraíso e tampouco seu contrário, Aquele. São ambos e ora andamos em um, ora em outro. Portanto, mesmo debilitado, fui obrigado a seguir. Talvez porque eu soubesse que ali encontraria algo que tinha perdido. A poesia, talvez. Tinha planos em mente e palavras engatilhadas na boca. Sabia que era preciso ter muita paciência e que ficaria ali por um longo tempo, à sua espera. O problema é que a poesia aparece e desaparece com a velocidade de um relâmpago. Sobretudo no Reino da Velocidade. Minha estratégia era muito simples : seguir. Queria vê-la e declarar a minha devoção com estas duas palavrinhas : “sou seu”. Portanto, resolvi seguir. Selecionei mentalmente alguns poemas que julgava sublimes e pus-me a repetí-los com sincera e profunda devoção, como se fossem orações. Repetia-os contínuamente enquanto via o desfile de seres meteóricos que passava incessante diante de meus olhos. Assim fiquei durante um tempo indefinido. Até que um inseto metálico que ziguezagueava velozmente pela margem oposta do rio pousou em meu ombro. E me disse em sua em sua língua muda que a Poesia “prezava a minha devoção por ela”. Foi tudo. Ele partiu assim como veio. Veloz. Considerei auspiciosa a visita do inseto metálico sem, contudo, perder de vista o meu plano. Queria vê-la e dizer-lhe as duas palavrinhas “sou seu”. Portanto, resolvi seguir. Os instantes que se seguiram após o pouso do inseto metálico foram de dúvidas. Se ela prezava a minha devoção é porque tinha me visto. Mas porque não aperceu diante de mim? E bênção que eu pedia já não teria sido dada pelo insto metálico? Ou, não seria o inseto metálico a própria Poesia? E se o inseto não fosse porta voz da Poesia e estava brincando de me iludir? “Os insetos são sarcásticos” alguém me dissera certa vez. Estas perguntas surgiam e evaporavam na velocidade da luz. Neste Reino. Portanto, resolvi seguir. Fui, fui, fui, e, pelos meus cálculos esta viagem não tem dia nem hora para acabar. Sei que ela está logo ali. E vou tentar encontrá-la. Até o fim dos meus dias.