PECADOS NA TERRA DO NUNCA

 

Este texto foi em escrito em 2003, num período em que Michael Jackson era o inimigo público número um da sociedade. Reparem que os mesmos que o apedrejaram naquele período hoje estão canonizando-o. Triunfo da hipocrisia é pouco.

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, bastou o sujeito equilibrar um prato no nariz e controlar uma bola com o pé ao mesmo tempo que ele já se torna uma celebridade. Vivemos um período raquítico do ponto de vista cultural e vazio do ponto de vista pessoal. É como se a grande maioria das pessoas não tivesse vida própria e usasse, como saída, o método de viver a vida dos outros. Ainda mais quando o outro é uma “celebridade”, convenhamos, uma palavra que se desgastou a tal ponto que hoje em dia quer dizer qualquer coisa menos o que de fato significa. 

Dito isto, vamos ao Michael Jackson. Vejam bem : ele não é uma celebridade instantânea de reality show, tampouco um ator de novela das seis que tem chiliques em desfiles de moda. Ele é um artista. Sim, precisamos, neste momento de histérica confusão, separar o joio do trigo : Michael Jackson é um grande artista que, dentre outros feitos, gravou um dos melhores álbuns da história da música pop mundial, Thriller, em 82. Só este álbum, que influenciou e continua influenciando pessoas de todo o planeta, já seria suficiente para dar-lhe o título de artista. Ou melhor, de grande artista. 

E, curioso, é principalmente por ser um grande artista, que ele está escalando os sete círculos do inferno em sua vida particular. Fosse ele um bossal anônimo, um artista canastrão como tantos que circulam livremente pelas emissoras de tv, e ele já estaria absolvido, ou preso, enfim, seu destino já estaria traçado. Mas não, ele teve a infelicidade de se tornar Michael Jackson. 

É claro que existem outras razões secundárias ou periféricas para justificar sua sofrida escalada através dos sete círculos do inferno : suas plásticas faciais, o súbito embranquecimento de sua pele e a sua hipotética negação de sua raça. 

Não tenham dúvida. Pelo posicionamento da imprensa mundial em frente ao tribunal onde ele responderá por assédio sexual a menores numa pequena cidade da Califórnia, o julgamento vai se transformar numa espécie de reality show a céu aberto com uma audiência que deve superar os mais populares programas da tv mundial. E o componente mais aterrador desta novela já está no ar. Antes mesmo de ser julgado, já existe uma tendência de opinião pública a considerá-lo um notório pedófilo sem escrúpulos. Um psicopata que construiu uma cidade para crianças, a Never Land ou Terra do Nunca, com o único intuito de embriagá-las com taças de vinho e depois seviciá-las em inocentes carrocéis e rodas gigantes. 

Mas porque este comportamento, até prova em contrário, preconceituoso? Para responder a esta pergunta, teríamos que recorrer a alguns jargões da psicologia barata. Inveja, por exemplo. De quem ? De grande parte da população branca americana que detem os meios de comunicação e fazem o que bem entendem com a imagem de seus desafetos e com a mente daqueles que consomem suas informações. E de um outro segmento, conhecido por sua intolerância racial, que transita nas esferas judiciais e policiais. 

O delegado que o indiciou no ano passado, por exemplo, sofre de problemas mentais (e culturais) bem mais graves do que aqueles que Michael tem sido acusado. Pude vê-lo num documentário ( que certamente será reprisado durante a novela “ Pecados na Terra do Nunca”) e posso dizer sem sombra de dúvida : ele odeia com todas as suas forças o pop star americano. Trata-se de um ódio que exala de seus olhos, de suas sobrancelhas, de suas papadas, de seu suor. 

Desde que começaram as acusações e o “escândalo” veio à tona, a cerca de dois anos, 90% do que se veicula a seu respeito são histórias mal contadas baseadas em hipóteses imprecisas. Tudo embalado num mega-show onde a grande estrela é o preconceito. Os 10% restantes ainda lembram do inequívoco talento de Michael, de suas preciosíssimas interpretações e de sua dança única, inimitável e intransferível. 

É aterrador. Mas é o sinal dos tempos.

 

 

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3 Responses to PECADOS NA TERRA DO NUNCA

  1. berenice disse:

    Esse texto é seu?

    Fiz minha homenagem e minhas únicas palavras são a música, a voz dele. Um grande talento independente de todas as sombras que sempre permearam sua vida. Enfim, um simples mortal…

    Gostaria de linkar esse texto perfeito em minha postagem, pode?

    Bjs
    Berenice

  2. mantraman disse:

    Oi Berenice!

    Sim, o texto é meu. E é claro que você pode lincar o texto no seu (elegantíssimo)blogue.
    Bjs!
    Mantraman

  3. Deila disse:

    Boa Tarde – Mantraman

    Gostei do texto sobre Michael Jackson – poderia passar o texto para o meu e-mail. Obrigado.
    Deila

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