PECADOS NA TERRA DO NUNCA

junho 28, 2009

 

Este texto foi em escrito em 2003, num período em que Michael Jackson era o inimigo público número um da sociedade. Reparem que os mesmos que o apedrejaram naquele período hoje estão canonizando-o. Triunfo da hipocrisia é pouco.

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, bastou o sujeito equilibrar um prato no nariz e controlar uma bola com o pé ao mesmo tempo que ele já se torna uma celebridade. Vivemos um período raquítico do ponto de vista cultural e vazio do ponto de vista pessoal. É como se a grande maioria das pessoas não tivesse vida própria e usasse, como saída, o método de viver a vida dos outros. Ainda mais quando o outro é uma “celebridade”, convenhamos, uma palavra que se desgastou a tal ponto que hoje em dia quer dizer qualquer coisa menos o que de fato significa. 

Dito isto, vamos ao Michael Jackson. Vejam bem : ele não é uma celebridade instantânea de reality show, tampouco um ator de novela das seis que tem chiliques em desfiles de moda. Ele é um artista. Sim, precisamos, neste momento de histérica confusão, separar o joio do trigo : Michael Jackson é um grande artista que, dentre outros feitos, gravou um dos melhores álbuns da história da música pop mundial, Thriller, em 82. Só este álbum, que influenciou e continua influenciando pessoas de todo o planeta, já seria suficiente para dar-lhe o título de artista. Ou melhor, de grande artista. 

E, curioso, é principalmente por ser um grande artista, que ele está escalando os sete círculos do inferno em sua vida particular. Fosse ele um bossal anônimo, um artista canastrão como tantos que circulam livremente pelas emissoras de tv, e ele já estaria absolvido, ou preso, enfim, seu destino já estaria traçado. Mas não, ele teve a infelicidade de se tornar Michael Jackson. 

É claro que existem outras razões secundárias ou periféricas para justificar sua sofrida escalada através dos sete círculos do inferno : suas plásticas faciais, o súbito embranquecimento de sua pele e a sua hipotética negação de sua raça. 

Não tenham dúvida. Pelo posicionamento da imprensa mundial em frente ao tribunal onde ele responderá por assédio sexual a menores numa pequena cidade da Califórnia, o julgamento vai se transformar numa espécie de reality show a céu aberto com uma audiência que deve superar os mais populares programas da tv mundial. E o componente mais aterrador desta novela já está no ar. Antes mesmo de ser julgado, já existe uma tendência de opinião pública a considerá-lo um notório pedófilo sem escrúpulos. Um psicopata que construiu uma cidade para crianças, a Never Land ou Terra do Nunca, com o único intuito de embriagá-las com taças de vinho e depois seviciá-las em inocentes carrocéis e rodas gigantes. 

Mas porque este comportamento, até prova em contrário, preconceituoso? Para responder a esta pergunta, teríamos que recorrer a alguns jargões da psicologia barata. Inveja, por exemplo. De quem ? De grande parte da população branca americana que detem os meios de comunicação e fazem o que bem entendem com a imagem de seus desafetos e com a mente daqueles que consomem suas informações. E de um outro segmento, conhecido por sua intolerância racial, que transita nas esferas judiciais e policiais. 

O delegado que o indiciou no ano passado, por exemplo, sofre de problemas mentais (e culturais) bem mais graves do que aqueles que Michael tem sido acusado. Pude vê-lo num documentário ( que certamente será reprisado durante a novela “ Pecados na Terra do Nunca”) e posso dizer sem sombra de dúvida : ele odeia com todas as suas forças o pop star americano. Trata-se de um ódio que exala de seus olhos, de suas sobrancelhas, de suas papadas, de seu suor. 

Desde que começaram as acusações e o “escândalo” veio à tona, a cerca de dois anos, 90% do que se veicula a seu respeito são histórias mal contadas baseadas em hipóteses imprecisas. Tudo embalado num mega-show onde a grande estrela é o preconceito. Os 10% restantes ainda lembram do inequívoco talento de Michael, de suas preciosíssimas interpretações e de sua dança única, inimitável e intransferível. 

É aterrador. Mas é o sinal dos tempos.

 

 


A BRUTAL FELICIDADE INTERNA DOS BUTANESES

junho 23, 2009

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“A cobiça, a insaciável cobiça humana” disse o primeiro ministro do Butão ( país budista de existência duvidosa, mais para miragem do que para nação, situado, ao que tudo indica, no alto das Cordilheiras do Himalaia) Jigme Thinley, referindo-se ao que considera a causa principal da catástrofe econômica que o mundo está atravessando. “Precisamos mudar o rumo das coisas” disse ainda o butanês do interior do Palácio de Sonhos onde trabalha. “ Temos que pensar na Felicidade Interna Bruta. Produto interno bruto, como o próprio nome diz, é uma brutalidade além de uma tremenda promessa esfarrapada”.

 Conforme a nova Constituição Butanesa, aprovada no ano passado, os programas de Governo, da agricultura ao comércio exterior, passando pelos transportes, devem ser avaliadas não só pelos benefícios econômicos que podem gerar, mas também pela felicidade que produzem. Para que o mundo comece a levar a sério a Felicidade Interna Bruta, os governantes do reino budista criaram um modelo com normas e definições que podem ser quantificadas e medidas pelos mais proeminentes economistas da economia mundial.

O modelo é formado por quatro pilares, nove campos e 72 indicadores de felicidade. Os quatro pilares são a economia, a cultura, o meio ambiente e o bom governo. Estes se dividem em nove campos : bem estar psicológico, ecologia, saúde, educação, cultura, formas de vida, uso do tempo, vitalidade da comunidade e bom governo, cada qual com seu índice FIB. Tudo isto é analisado por meio de 72 indicadores.

No campo do bem estar psicológico, por exemplo, os indicadores incluem a frequência da prática da meditação e de sentimentos como egoísmo, a tranquilidade, a compaixão, a generosidade e a frustração, além dos pensamentos suicidas. Na imaculada cultura butanesa, contudo, o que se esconde atrás de um conceito tão maravilhoso quanto revolucionário é a palavra sobrevivência. “ A história do Butão hoje em dia é, em uma palavra, sobrevivência” disse Thinley. “A Felicidade Interna Bruta é uma poderosa arma para triunfar sobre as ameaças que nos impedem de sobreviver”.


ASSIM FALOU SERGE GAINSBOURG

junho 17, 2009

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A burrice é a descontração da inteligência.

Eu acho que é mais aceitável fazer rock sem pretensão do que fazer uma canção ruim com pretensão literária. Isto é realmente insuportável.

A amizade é mais rara do que o amor e necessita uma integridade absoluta.

Não sou deste mundo. Não sou de mundo nenhum.

As mulheres, no fundo, adoram os misóginos.

O amor é um cristal que se quebra em silêncio.

Quando tudo vai mal é preciso cantar o amor, o belo amor. E quando tudo vai bem, cantamos as rupturas e as atrocidades.

A beleza é a única vingança das mulheres.

Jornalista : Você se ama? Gainsbourg : Não, não gosto de por na minha boca aquilo que acabou de sair do meu nariz.

Só lavo as minhas extremidades. Tenho a pele seca. De toda maneira, só as pessoas sujas se lavam.

Não tenho nenhuma pretensão de ser eu mesmo.

Jornalista : Em algum momento você mudou seu visual de maneira radical? Gainsbourg : Nunca fiz cirurgia plástica, se é o que você está me perguntando. Só cirurgia mental.

Até a decomposição, eu comporei…

O objeto mais precioso é a mulher-objeto.

Minha ocupação favorita? Escutar minha barba crescer.

 

Do livro Pensées, provocs et autres volutes, de Serge Gainsbourg. Traduzido por Mantraman


COMO ME TORNEI ENCANTADOR, SIMPÁTICO E DELICIOSO

junho 9, 2009

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 Durmo muito tarde. Me suicido 65%. A vida me sai barata, não passa de 30%. Minha vida tem 30% de vida. Faltam-lhe braços, uns barbantes e alguns botões. Cerca de 5% são consagrados a um estado de torpor semi-lúcido acampanhado de crepitações anêmicas. Este 5% se chama DADA. Ou seja, a vida é barata. A morte é um pouco mais cara. Mas a vida é encantadora e também a morte é encantadora.

Há alguns dias atrás estava numa reunião de imbecis. Tinha muita gente. Todo mundo era encantador. Tristan Tzara, um personagem pequeno, idiota e insignificante, fazia uma conferência sobre a arte de tornar-se encantador. Para os demais ele era encantador. Todo mundo é encantador. E engenhoso. Por acaso não é delicioso? Para os demais, todo mundo é delicioso. 9 graus abaixo de zero. É encantador, não é ? Não, não é encantador. Deus não está à altura. Nem sequer está na Lista Telefônica. Mas de qualquer maneira, é encantador.

Os embaixadores, os poetas, os condes, os príncipes, os músicos, os jornalistas, os diplomatas, os diretores, os costureiros, os socialistas, as princesas e as baronesas são encantadores.

Todos vocês são encantadores, muito inteligentes, engenhosos e deliciosos.

Tristan Tzara lhes disse : queria fazer outra coisa, mas prefiro continuar sendo um idiota, um farsante, um embromador.

Sejam sinceros por um instante : o que acabo de lhes dizer é encantador ou idiota?

Existem pessoas ( jornalistas, advogados, amadores, filósofos) que consideram os negócios,os casamentos, as visitas, as guerras, os diversos congressos, as sociedades anônimas, a política, os acidentes, os bailes, as crises econômicas, as crises nervosas, como variações de dadá. Como não sou imperialista não compartilho desta opinião; mas acredito que dadá é uma divindade de segunda ordem, e que tem de ser colocada ao lado das outras formas do novo mecanismo das religiões de interregno.

A simplicidade é simples ou dadá?

Me pareço bastante simpático.

Tristan Tzara, do livro Sete Manifestos DADA. Tradução de Mantraman.