SOBRE A LAGE DOS PERSAS DISPERSOS

maio 1, 2009

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o maior perigo consistia em aprender a guiar o carro sem as mãos e deixá-lo à vontade em suas bárbaras manobras pelo desconhecido reino do asfalto como se ele fosse um cavalo que, ciente de sua inconsciência, nos levasse em viagens sobre extensas lages de concreto. ( Estacionamento deserto numa noite de chuva : “ em que lage chegamos?” perguntei “estamos caminhando sobre a Lage dos Persas Dispersos” respondeu a voz que vinha de dentro de uma tenda amarela , chovia, arrisquei : “ estou à procura de um portal, você sabe?, o Tal Portal….” ao que a voz respondeu “ você está parado diante de um, porque não entra?” esquivei-me do convite com outra pergunta “ depois deste portal tem outro portal?” a voz então seca e decidida “ entre e veja você mesmo” vinda da tenda amarela soou como se fosse um estalido interrompendo o ruído da água que escorria sobre a lona “ o que há aí dentro?” arrisquei sem pensar que a resposta viria fulminante como um raio que corta o espaço “ verá um belo e curioso espetáculo onde um cavalo alado canta uma ópera enquanto patina sobre um céu de gelo…ao fundo uma bailarina anã dança frenéticamente sobre uma torre de vidro…” interrompí a descrição “ e quanto ao portal de saída?” a chuva aumentava de intensidade e sobre a Lage dos Persas Dispersos a noite ia entrando no seu mais profundo movimento quando decidi entrar e ver se o tal espetáculo do cavalo alado e da anã dançarina ainda não tinha acabado e à medida em que ia entrando a chuva ia diminuindo e tudo que ficava para trás ia desaparecendo completamente ( em certo momento lembro-me de ter visto um distante mas luminoso incêndio e o súbito desaparecimento do portal enquanto que para frente surgia do vazio um concerto de imagens desconexas ( tigres girando numa multicolorida espiral e nuvens que de tão baixas tocavam a ponta das cartolas de cinco transeuntes que trafegavam através de uma avenida repleta de caixas azuis colocadas simétricamente ao longo das calçadas tortas que exalavam um vapor púrpuro que enevoava e eclipsava os cinco transeuntes “ será que é por aqui que devo seguir?” me perguntei ao me dar conta de que tinha percorrido um bom trecho da Lage “ será este o caminho, afinal?” como a resposta não me parecia fácil e já que aquele universo tinha se instaurado de uma maneira tão inusitada e repentinha à minha frente decidi seguir e quando caminhava sobre a calçada de pedras quentes avistei um camelo coberto de pelos de ouro que ao perceber a minha presença convidou-me “ não tenha medo vamos atravessar o Oceano das Ilhas Perdidas ” olhei de novo para trás e percebi que o incêndio começava a perder o seu contorno e já era um pequeno centro de luz encandescente “ conhece o portal que guarda a entrada de um castelo?” perguntei ao amigo camelo que mastigava uma xícara com asas que batiam como se fossem as asas de um pássaro e foi sómente depois de uns três grãos de areia que obtive uma resposta ( “ tudo o que vejo à minha frente são calçadas quentes”) e deixou escorrer de sua boca um caudaloso líquido verde que rapidamente encobriu toda a avenida formando um oceano por onde passava um navio de pesca ostentando a bandeira de um país cujo símbolo era uma espiral ( caminhei até o cais e quando o navio atracou pude ver claramente em seu convés um veículo metálico andando em zigue zague ( convés que lentamente foi se transformando num monumental autódromo cujo silêncio só era quebrado pelas cíclicas passagens deste veículo e foi só depois da queda de um terço de grão de areia que constatei que no centro do autódromo havia um lago e que em sua margem um pescador arremessava uma linha que caía lentamente sobre a sua superfície esverdeada ( era um homem muito velho cuja barba amarelada entrava lago adentro e os cabelos brancos desapareciam em meio às nuvens ( parecia estar completamente absorto em sua lenta pesca e talvez por esta razão não tenha notado a minha presença e quando me preparava para lhe perguntar “ desculpe, senhor, existe alguma coisa….” o seu anzol fisgou um cavalo que ( patinava q