SUJEIRA AUTO-LIMPANTE

limpeza31

 

 

 

 

 

 

 

 

Ontem vi na TV de novo. Acho que foi a quarta vez em menos de um mês. Parece se tratar de uma daquelas pautas epidêmicas que, de tempos em tempos, virotizam os telejornais brasileiros. É o seguinte : casal resolve dividir as tarefas domésticas. Alegam que o orçamento não está dando para contratar uma empregada doméstica, e, principalmente, que as coisas mudaram muito depois que “a mulher conquistou o seu espaço no mercado de trabalho” ( não aguento mais ouvir esta expressão!).

Na reportagem de ontem, a imagem mostrava um rapaz de aproximadamente 27 anos, diante da pia, com uma bucha na mão, lavando sem nenhuma intimidade uma xícara que, suponho, fora usada no café da manhã do casal em questão. Enquanto ele, um claro iniciante naquele mundo de detergentes e espumas, tentava se entender com a parte que lhe cabia na nova divisão de tarefas domésticas, ela, trajando uma típica roupa que caracteriza as mulheres que ocupam cargos executivos – tailleur preto até o joelho, camisa de seda branca, sapatos meticulosamente discretos – era entrevistada pelo repórter. Nesta altura deste tipo de reportagem epidêmica, o texto é sempre o mesmo, seja qual for a emissora, o telejornal, ou a entrevistada. Algo como “ é… o mundo está muito diferente. Foi-se o tempo em que lavar louça era um trabalho feminino….”. E o resto do texto todo mundo já sabe de cor.

O que me deixa perplexo nesta ceninha ( aparentemente) cada vez mais comum nos lares do mundo inteiro é a aversão que se criou, historicamente, pela sujeira. Parece ser um dado atávico, imemorial, a ideia de que sujar é bom e limpar é ruim. Ou, por outra, limpar é degradante, torna a pessoa que se habilita a tal tarefa menor do que a aquela que se compraz em sujar. É uma espécie de continuação do sinal de ostentação ter alguém para limpar a sujeira depois que o banquete ou a festa se acaba. “Vamos nos fartar que depois alguém limpa”. Este parece ser o pensamento que domina a nossa sociedade.

Estou morando sozinho a cerca de três anos. Neste período, intenso para quem nunca tinha convivido com a solidão em quarenta e sete anos de existência, aprendi quase todos os macetes da limpeza doméstica. Devo confessar que, logo que assumi a solidão, parti para o velho expediente de ter uma faxineira que vinha na minha casa uma vez por semana. Com ela, fui aprendendo como e aonde se usa, por exemplo, a cândida, que tipo de produto de limpeza é melhor para limpar os vidros, o chão da cozinha, enfim, Dona Zica foi, durante um ano, a minha mestra e, principalmente, aquela que me fez perder aquele perturbador medo que até então eu tinha da sujeira.

Seguiu-se a esta primeira fase, de maneira natural, a minha total iniciação à manutenção do lar propriamente dito. Aprendi a fazer compras no supermercado e escolher de maneira criteriosa os produtos que de fato estou precisando e vou usar. Para quem não sabia distinguir uma rúcula de um agrião, uma salsinha de um coentro, este último ano foi de progresso absoluto. Por exemplo, ao comprar um abacate verde sei em quanto tempo vou poder consumí-lo, aprendi a distinguir os diversos tipos de tomate e suas finalidades, molho, salada, tempero. O resultado deste processo é que cada vez mais fui abdicando dos restaurantes e lanchonetes e me entendendo com o forno e o fogão da minha casa. Hoje posso receber amigos para um jantar e não fazer feio. Com muito auto-didatismo, especializei-me em algumas receitas que se tornaram clássicos da minha culinária. 

Considero que esta minha autonomia no serviço doméstico, foi, de longe, o legado mais importante de toda minha vida. Sem exagero. Bem, agora chega desta conversa que eu tenho passar cera líquida incolor no assoalho da sala. Querem saber que marca eu uso? Segredo de estado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: