VOTO DE SILÊNCIO

 

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No começo da semana passada, mais precisamente na terça-feira, comecei a sentir um cansaço inexplicável. Como sou um tipo que gosta de entender tudo o que se passa em meus domínios interiores, pus-me a observar, refletir e tentar categorizar o tal (inexplicável) cansaço.

A princípio supus que ele estivesse ligado ao malfadado estresse de trabalho. Mas não, definitivamente minha cabeça não estava debilitada pelo excesso de compromissos. Tampouco era um cansaço da rotina sentimental. Rotina que, aliás, não tenho tido por razões que não cabem explicar aqui. Enfim, tudo indicava que era um cansaço. Um cansaço simplesmente inexplicável.

Foi somente no fim da tarde de terça-feira, depois de um diálogo de quase uma hora no telefone com uma pessoa diretamente ligada aos meus problemas mais cotidianos e profundos, para quem tive que explicar pela centésima primeira vez em menos de duas semanas o porque das minhas atitudes e do meu comportamento, que percebi a verdadeira natureza da minha fadiga : estava cansado de falar. Sim, caros leitores, na verdade eu estava praticamente morrendo de tanto falar.

Naquela mesma noite, antes de dormir, lembrei-me de uma prática que aprendi num monastério budista no começo dos anos 90 : o voto de silêncio. “Eureka!” sussurrei para mim mesmo, “amanhã, faço voto de silêncio de cinco dias…” Na manhã de quarta-feira, logo ao despertar, tomei algumas providências necessárias para que a prática pudesse ter um bom andamento. A principal delas foi ligar para as pessoas mais próximas, aquelas com quem costumo falar diariamente, e, evitando explicações minuciosas, limitei-me a dizer-lhes : “Olha, vou ficar fora até domingo. Sendo urgente, deixe recado na secretária eletrônica ou na caixa de e-mail.” Desliguei o telefone e pronto : estava logisticamente preparado para a maravilhosa viagem ao Reino do Silêncio e da Solidão.

Durante os meus cinco dias de expedição neste mundo praticamente desconhecido para nós, ocidentais, descobri o quanto falamos sem a mínima necessidade de falar. Somos, por assim dizer, uma espécie de tagarelas compulsivos que sempre tem sobre tudo e sobre todos uma opinião, uma interpretação, enfim, um amontoado de palavras a dizer. Descobri, por extensão, que não emitir opinião sobre coisa nenhuma e nem ter que dar explicação oral sobre seus atos ou dos atos alheios a quem quer que seja, produz uma sensação tão boa quanto sonhar que está transando com a pessoa amada no Paraíso. E, principalmente, lembrei-me e refleti muito sobre uma frase que Buda disse : “Certamente, nós nascemos com um machado na boca e acabamos nos cortando com ele quando dizemos palavras tolas.”

É claro que ontem, domingo, quando quebrei o voto, tive que consertar alguns estragos produzidos durante a minha jornada silenciosa. Por exemplo, pessoas para quem não avisei que estava de partida e que me ligaram e me procuraram durante toda a semana, acharam que eu estava magoado com elas. Um recado de sábado dizia “Tá legal, Mantraman, você não quer mais falar comigo, mas ao menos me explica o que foi que eu fiz…” dizia a mensagem de uma amiga com a voz ligeiramente chorosa. Amanhã, quando voltar à rotina da tagarelice compulsiva, eu ligo para ela e tento explicar-lhe aonde estive, fazendo o que e tudo o que vi.

Sei que para quem trabalha fora de casa, tem família morando na mesma casa ou é adepto da psicanálise, deve ser muito difícil fazer um voto de silêncio. Mas, querem um conselho? : assim que entrarem em férias, comprem um bilhete de ida e volta para o revigorante e maravilhoso Reino do Silêncio e da Solidão. Mantraman garante : é uma viagem inesquecível.

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3 respostas para VOTO DE SILÊNCIO

  1. berenice disse:

    Desde os 15 dias de silêncio fiquei empolgada com essa idéia. Difícil por aqui, diria impossível mesmo, mas o silêncio e a solidão me encantam.

    Bjs

  2. edriana disse:

    meu filho esta sem falar a 2 meses,sera que fez o voto do silencio ou esta doente? gostaria de saber mais a respeito

  3. dri disse:

    meu filho esta sem falar a 2 meses, sera que fez o voto do silencio, ou esta doente? gostaria de saber mais a respeito.

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