IL PLEUT

 

j-l-borges

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lembro-me,

com uma úmida e difusa nitidez,

da primeira vez que ouvi a expressão il pleut.

 

Era dezembro

e meus olhos ainda intactos e curiosos vagavam

numa Paris invernal.

 

Dezembro.

 

Ela se aproximou da janela

(o ruído da chuva já era a todos perceptível)

e disse em voz baixa : il pleut

 

Lembrei-me desta cena agora

porque acabei de ouvir o ruído da chuva

olhei através da janela

e sussurrei il pleut

 

Lá fora

(hoje eu sei que dezembro e outono sempre estiveram no mesmo lugar)

a árvore que plantei há mais de cinco anos

e que até hoje não floresceu.

Pensei na minha morte em termos de uma saudade

desta árvore.

 

Não pelo fato dela ainda não ter florescido.

 

Mas porque sempre estou a pensar na morte.

E nas flores. E nos pássaros.

E nas flores e nos pássaros após a morte.

 

A verdade é que sinto um amor incondicional por esta árvore.

Um amor que suponho possa me custar caro

depois da minha morte.

 

A saudade depois da morte.

 

Ao meu lado, sobre a mesa, repousava uma foto de Jorge Luís Borges.

Nela, o cego olhava através da eternidade.

Sem os meus óculos, pude vê-lo com uma distorcida nitidez.

E ele parecia sobrevoar suas ( de mais quem seriam?) luminosas 1001 noites.

 

Tenho sentado e estado ao lado da poesia.

como quem sabe de sua viril inutilidade.

E chora pelos seus filhos que virão.

 

Il pleut. Qu’est qu’il pleut…

 

 

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