SUJEIRA AUTO-LIMPANTE

fevereiro 26, 2009

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Ontem vi na TV de novo. Acho que foi a quarta vez em menos de um mês. Parece se tratar de uma daquelas pautas epidêmicas que, de tempos em tempos, virotizam os telejornais brasileiros. É o seguinte : casal resolve dividir as tarefas domésticas. Alegam que o orçamento não está dando para contratar uma empregada doméstica, e, principalmente, que as coisas mudaram muito depois que “a mulher conquistou o seu espaço no mercado de trabalho” ( não aguento mais ouvir esta expressão!).

Na reportagem de ontem, a imagem mostrava um rapaz de aproximadamente 27 anos, diante da pia, com uma bucha na mão, lavando sem nenhuma intimidade uma xícara que, suponho, fora usada no café da manhã do casal em questão. Enquanto ele, um claro iniciante naquele mundo de detergentes e espumas, tentava se entender com a parte que lhe cabia na nova divisão de tarefas domésticas, ela, trajando uma típica roupa que caracteriza as mulheres que ocupam cargos executivos – tailleur preto até o joelho, camisa de seda branca, sapatos meticulosamente discretos – era entrevistada pelo repórter. Nesta altura deste tipo de reportagem epidêmica, o texto é sempre o mesmo, seja qual for a emissora, o telejornal, ou a entrevistada. Algo como “ é… o mundo está muito diferente. Foi-se o tempo em que lavar louça era um trabalho feminino….”. E o resto do texto todo mundo já sabe de cor.

O que me deixa perplexo nesta ceninha ( aparentemente) cada vez mais comum nos lares do mundo inteiro é a aversão que se criou, historicamente, pela sujeira. Parece ser um dado atávico, imemorial, a ideia de que sujar é bom e limpar é ruim. Ou, por outra, limpar é degradante, torna a pessoa que se habilita a tal tarefa menor do que a aquela que se compraz em sujar. É uma espécie de continuação do sinal de ostentação ter alguém para limpar a sujeira depois que o banquete ou a festa se acaba. “Vamos nos fartar que depois alguém limpa”. Este parece ser o pensamento que domina a nossa sociedade.

Estou morando sozinho a cerca de três anos. Neste período, intenso para quem nunca tinha convivido com a solidão em quarenta e sete anos de existência, aprendi quase todos os macetes da limpeza doméstica. Devo confessar que, logo que assumi a solidão, parti para o velho expediente de ter uma faxineira que vinha na minha casa uma vez por semana. Com ela, fui aprendendo como e aonde se usa, por exemplo, a cândida, que tipo de produto de limpeza é melhor para limpar os vidros, o chão da cozinha, enfim, Dona Zica foi, durante um ano, a minha mestra e, principalmente, aquela que me fez perder aquele perturbador medo que até então eu tinha da sujeira.

Seguiu-se a esta primeira fase, de maneira natural, a minha total iniciação à manutenção do lar propriamente dito. Aprendi a fazer compras no supermercado e escolher de maneira criteriosa os produtos que de fato estou precisando e vou usar. Para quem não sabia distinguir uma rúcula de um agrião, uma salsinha de um coentro, este último ano foi de progresso absoluto. Por exemplo, ao comprar um abacate verde sei em quanto tempo vou poder consumí-lo, aprendi a distinguir os diversos tipos de tomate e suas finalidades, molho, salada, tempero. O resultado deste processo é que cada vez mais fui abdicando dos restaurantes e lanchonetes e me entendendo com o forno e o fogão da minha casa. Hoje posso receber amigos para um jantar e não fazer feio. Com muito auto-didatismo, especializei-me em algumas receitas que se tornaram clássicos da minha culinária. 

Considero que esta minha autonomia no serviço doméstico, foi, de longe, o legado mais importante de toda minha vida. Sem exagero. Bem, agora chega desta conversa que eu tenho passar cera líquida incolor no assoalho da sala. Querem saber que marca eu uso? Segredo de estado.

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VOTO DE SILÊNCIO

fevereiro 13, 2009

 

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No começo da semana passada, mais precisamente na terça-feira, comecei a sentir um cansaço inexplicável. Como sou um tipo que gosta de entender tudo o que se passa em meus domínios interiores, pus-me a observar, refletir e tentar categorizar o tal (inexplicável) cansaço.

A princípio supus que ele estivesse ligado ao malfadado estresse de trabalho. Mas não, definitivamente minha cabeça não estava debilitada pelo excesso de compromissos. Tampouco era um cansaço da rotina sentimental. Rotina que, aliás, não tenho tido por razões que não cabem explicar aqui. Enfim, tudo indicava que era um cansaço. Um cansaço simplesmente inexplicável.

Foi somente no fim da tarde de terça-feira, depois de um diálogo de quase uma hora no telefone com uma pessoa diretamente ligada aos meus problemas mais cotidianos e profundos, para quem tive que explicar pela centésima primeira vez em menos de duas semanas o porque das minhas atitudes e do meu comportamento, que percebi a verdadeira natureza da minha fadiga : estava cansado de falar. Sim, caros leitores, na verdade eu estava praticamente morrendo de tanto falar.

Naquela mesma noite, antes de dormir, lembrei-me de uma prática que aprendi num monastério budista no começo dos anos 90 : o voto de silêncio. “Eureka!” sussurrei para mim mesmo, “amanhã, faço voto de silêncio de cinco dias…” Na manhã de quarta-feira, logo ao despertar, tomei algumas providências necessárias para que a prática pudesse ter um bom andamento. A principal delas foi ligar para as pessoas mais próximas, aquelas com quem costumo falar diariamente, e, evitando explicações minuciosas, limitei-me a dizer-lhes : “Olha, vou ficar fora até domingo. Sendo urgente, deixe recado na secretária eletrônica ou na caixa de e-mail.” Desliguei o telefone e pronto : estava logisticamente preparado para a maravilhosa viagem ao Reino do Silêncio e da Solidão.

Durante os meus cinco dias de expedição neste mundo praticamente desconhecido para nós, ocidentais, descobri o quanto falamos sem a mínima necessidade de falar. Somos, por assim dizer, uma espécie de tagarelas compulsivos que sempre tem sobre tudo e sobre todos uma opinião, uma interpretação, enfim, um amontoado de palavras a dizer. Descobri, por extensão, que não emitir opinião sobre coisa nenhuma e nem ter que dar explicação oral sobre seus atos ou dos atos alheios a quem quer que seja, produz uma sensação tão boa quanto sonhar que está transando com a pessoa amada no Paraíso. E, principalmente, lembrei-me e refleti muito sobre uma frase que Buda disse : “Certamente, nós nascemos com um machado na boca e acabamos nos cortando com ele quando dizemos palavras tolas.”

É claro que ontem, domingo, quando quebrei o voto, tive que consertar alguns estragos produzidos durante a minha jornada silenciosa. Por exemplo, pessoas para quem não avisei que estava de partida e que me ligaram e me procuraram durante toda a semana, acharam que eu estava magoado com elas. Um recado de sábado dizia “Tá legal, Mantraman, você não quer mais falar comigo, mas ao menos me explica o que foi que eu fiz…” dizia a mensagem de uma amiga com a voz ligeiramente chorosa. Amanhã, quando voltar à rotina da tagarelice compulsiva, eu ligo para ela e tento explicar-lhe aonde estive, fazendo o que e tudo o que vi.

Sei que para quem trabalha fora de casa, tem família morando na mesma casa ou é adepto da psicanálise, deve ser muito difícil fazer um voto de silêncio. Mas, querem um conselho? : assim que entrarem em férias, comprem um bilhete de ida e volta para o revigorante e maravilhoso Reino do Silêncio e da Solidão. Mantraman garante : é uma viagem inesquecível.


IL PLEUT

fevereiro 5, 2009

 

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Lembro-me,

com uma úmida e difusa nitidez,

da primeira vez que ouvi a expressão il pleut.

 

Era dezembro

e meus olhos ainda intactos e curiosos vagavam

numa Paris invernal.

 

Dezembro.

 

Ela se aproximou da janela

(o ruído da chuva já era a todos perceptível)

e disse em voz baixa : il pleut

 

Lembrei-me desta cena agora

porque acabei de ouvir o ruído da chuva

olhei através da janela

e sussurrei il pleut

 

Lá fora

(hoje eu sei que dezembro e outono sempre estiveram no mesmo lugar)

a árvore que plantei há mais de cinco anos

e que até hoje não floresceu.

Pensei na minha morte em termos de uma saudade

desta árvore.

 

Não pelo fato dela ainda não ter florescido.

 

Mas porque sempre estou a pensar na morte.

E nas flores. E nos pássaros.

E nas flores e nos pássaros após a morte.

 

A verdade é que sinto um amor incondicional por esta árvore.

Um amor que suponho possa me custar caro

depois da minha morte.

 

A saudade depois da morte.

 

Ao meu lado, sobre a mesa, repousava uma foto de Jorge Luís Borges.

Nela, o cego olhava através da eternidade.

Sem os meus óculos, pude vê-lo com uma distorcida nitidez.

E ele parecia sobrevoar suas ( de mais quem seriam?) luminosas 1001 noites.

 

Tenho sentado e estado ao lado da poesia.

como quem sabe de sua viril inutilidade.

E chora pelos seus filhos que virão.

 

Il pleut. Qu’est qu’il pleut…