VIAGEM AO MUNDO DAS CORES

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Quando eu tinha dezoito anos, minha mãe percebeu que algo estranho se passava no conturbado reino da minha mente adolescente. Achava-me, como ela própria costumava definir-me, um rapaz demasiadamente avoado. Enquanto a maioria dos meus amigos escolhiam com assombrosa objetividade e rapidez o que seriam e como seriam no futuro, eu passava a maior parte do meu tempo dialogando com as estrelas e esperando pelo pouso de naves espaciais.

Preocupada com o meu futuro, ela levou-me a um psicoterapeuta, o Dr. Cenderas. Depois de algumas sessões, ele chegou a uma conclusão : “Olha, Mantraman, o seu problema é que você ainda não se deu conta de que vive no planeta Terra. Sugiro que você compre um par de botas anti-gravidade, como aquelas que os astronautas usam em missões espaciais…”  Mesmo parecendo um diagnóstico e uma prescrição um tanto quanto bizarras, ainda cheguei a escrever uma carta para NASA solicitando-lhe as tais botas. Que, aliás, nunca chegaram.

Recentemente, em plena fase adulta, tive alguns problemas e fui consultar-me com um especialista da mesma espécie de Dr. Cenderas. E, por improvável e incrível que possa parecer, seu veredicto foi, em muitos pontos, semelhante ao do sarcástico e impagável Dr. Cenderas : “Você é um homem demasiadamente espacial, Mantraman. Sugiro que se dedique a alguma atividade onde possa entrar em contato com a terra, como a jardinagem.” Achei a sua sugestão sedutora, sensata e, principalmente, viável, já que estou morando numa casa que tem espaço suficiente para a instalação de um jardim.

Foi então que caí, como um deslumbrado candidato a ex-extra-terrestre, num maravilhoso mundo terráqueo chamado CEAGESP , Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo, ou simplesmente Ceasa como é conhecido pela maioria da população paulistana.

Minha primeira e inesquecível manhã neste paraíso de cores, odores e formas se deu há menos de um mês. Com um calma alarmante, envolvi-me com o misterioso reino das trepadeiras. Concluí, como um autêntico jardineiro de primeiro jardim, que estes seres amistosos e tagarelas fazem parte de um universo vegetal à parte.

A seguir, confabulei animadamente com algumas orquídeas sobre assuntos que só os ex-extra-terrestres gostam de  confabular : perguntei-lhes de onde elas vinham, para onde estavam indo, se eram felizes em seus mundos de orquídeas, se conheciam o Dr.Cenderas e se tinham medo da morte. Quando estava prestes a ir embora, me perdi numa barraca de utensílios que vendia de cortadores de grama a severos e coloridos anões de jardim.

                E ali, para não sair de mãos abanando, arrematei um belíssimo regador de plantas. Afinal, as primeiras flores do jardim de um ser que acabou de aterrizar podem desabrochar a qualquer instante.

 

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