FELIZ O QUÊ MESMO?

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           A esta altura do calendário, o Natal de 2008 já é uma página consumida, virada e esquecida. Talvez os catadores de lixo sejam os únicos seres que ainda têm algum contato com os resquícios da grande festa. Com suas luvas grossas e encardidas, devem, neste momento, estar recolhendo um bonezinho de Papai Noel jogado no meio-fio, a asa de um perú misturada aos restos de uma lata de ervilha, fragmentos de caixas que serviram para guardar presentes, cartões, muitos cartões com os chamados votos de boas festas e quilômetros de fios elétricos utilizados para acender as lâmpadas que iluminaram as noites que precederam a data. Aquilo que seria o propósito do Natal, a confraternização, a fraternidade entre as pessoas, tendo sempre a bondade como leme, ah, estas coisas nem nas latas de lixo é possível encontrar mais. Passada a noite do dia vinte e quatro, como que por milagre, elas evaporam e tornam-se temas banidos da agenda dos seres humanos durante todo o ano. Desembrulhados os presentes e consumidas as champanhes, somos possuídos por um estranho e poderoso efeito amnésico.

Para que algo de relevante aconteça na humanidade cristã, seria necessário ter Natal dia sim, dia não. E mesmo assim, em momentos mais difíceis, a festa deveria acontecer ininterruptamente durante um mês inteiro. É absolutamente patético que só nos concentremos uma vez por ano em valores tão fundamentais como a fraternidade e a bondade. E nos trezentos e sessenta quatro dias restantes, vivamos sob o império da mesquinhez, da violência, do egoísmo, da trapaçaria e da escuridão. E notem que estes desvios já estão tão arraigados na conduta do ser humano que acabaram tornando-se norma. Não preciso aqui exemplificar : basta abrir o jornal, andar pelas ruas, conviver com outras pessoas. A bestialidade domina cada vez mais as mentes e os corações. A sensação que tenho é que, apesar do telescópio Hubble, estamos caminhando cada vez mais em direção à caverna da Idade da Pedra Lascada.

Neste momento, todos os olhos estão voltados para a próxima data festiva do calendário : a chegada de 2009. Só de pensar que estamos a alguns dias de mais um réveillon, sinto calafrios na alma. Penso, imediatamente, onde vou me exilar para não escutar um só rojão explodindo perto dos meus ouvidos, não ver ninguém vestir-se de branco e pulando sete ondas , não escutar aquela cançãozinha chatérrima “ que tudo se realize no ano que vai chegar, muito dinheiro no bolso, fartura prá dar e vender”. O ano novo é o próprio triunfo da esperança que é derrotada logo no primeiro dia do ano. Talvez, dentre todas as festas oficiais, ( Páscoa, Carnaval, Natal) seja a mais nociva. Porque ela lida com a idéia de que de um dia para o outro todas as coisas vão se transformar. E esta mentira é comercializada, vendida e enfiada goela abaixo do pobre e crédulo ser humano.

            O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema sobre a data festiva que considero bastante interessante. Chama-se Cortar o Tempo : “Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.” Só tenho um senão com relação a este poema. Acho que doze meses meses é muito tempo e que o ano novo deveria ser comemorado mês sim, mês não, em fatias menores, como já disse. Só assim o ser humano entenderia que a esperança morre. Não importa se ela é a primeira ou a última a morrer, ela morre. E, entendendo esta verdade básica, não estaria sujeito a tantas frustrações e, portanto, a tantos sofrimentos.

           Com um ano novo mês sim, mês não, o homem passaria por uma espécie de treinamento intensivo sobre os efeitos do binômio esperança/frustração e, com toda certeza, daria um passinho importante na sua evolução comportamental. Mas como não sou um iludido esperançoso, prefiro pensar que, por enquanto, as coisas vão ficar como estão. Mesmo sabendo que é possível que elas piorem ainda mais.

Feliz o quê mesmo?

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma resposta para FELIZ O QUÊ MESMO?

  1. Michel Seikan disse:

    FELIZ O QUÊ MESMO?

    Boa reflexão do mundo “faz de conta” que alimentamos em nossas mentes na contemporaneidade dos tempos (obscuros) da atualidade.

    Abraços,
    Seikan.

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