FELIZ O QUÊ MESMO?

dezembro 26, 2008

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           A esta altura do calendário, o Natal de 2008 já é uma página consumida, virada e esquecida. Talvez os catadores de lixo sejam os únicos seres que ainda têm algum contato com os resquícios da grande festa. Com suas luvas grossas e encardidas, devem, neste momento, estar recolhendo um bonezinho de Papai Noel jogado no meio-fio, a asa de um perú misturada aos restos de uma lata de ervilha, fragmentos de caixas que serviram para guardar presentes, cartões, muitos cartões com os chamados votos de boas festas e quilômetros de fios elétricos utilizados para acender as lâmpadas que iluminaram as noites que precederam a data. Aquilo que seria o propósito do Natal, a confraternização, a fraternidade entre as pessoas, tendo sempre a bondade como leme, ah, estas coisas nem nas latas de lixo é possível encontrar mais. Passada a noite do dia vinte e quatro, como que por milagre, elas evaporam e tornam-se temas banidos da agenda dos seres humanos durante todo o ano. Desembrulhados os presentes e consumidas as champanhes, somos possuídos por um estranho e poderoso efeito amnésico.

Para que algo de relevante aconteça na humanidade cristã, seria necessário ter Natal dia sim, dia não. E mesmo assim, em momentos mais difíceis, a festa deveria acontecer ininterruptamente durante um mês inteiro. É absolutamente patético que só nos concentremos uma vez por ano em valores tão fundamentais como a fraternidade e a bondade. E nos trezentos e sessenta quatro dias restantes, vivamos sob o império da mesquinhez, da violência, do egoísmo, da trapaçaria e da escuridão. E notem que estes desvios já estão tão arraigados na conduta do ser humano que acabaram tornando-se norma. Não preciso aqui exemplificar : basta abrir o jornal, andar pelas ruas, conviver com outras pessoas. A bestialidade domina cada vez mais as mentes e os corações. A sensação que tenho é que, apesar do telescópio Hubble, estamos caminhando cada vez mais em direção à caverna da Idade da Pedra Lascada.

Neste momento, todos os olhos estão voltados para a próxima data festiva do calendário : a chegada de 2009. Só de pensar que estamos a alguns dias de mais um réveillon, sinto calafrios na alma. Penso, imediatamente, onde vou me exilar para não escutar um só rojão explodindo perto dos meus ouvidos, não ver ninguém vestir-se de branco e pulando sete ondas , não escutar aquela cançãozinha chatérrima “ que tudo se realize no ano que vai chegar, muito dinheiro no bolso, fartura prá dar e vender”. O ano novo é o próprio triunfo da esperança que é derrotada logo no primeiro dia do ano. Talvez, dentre todas as festas oficiais, ( Páscoa, Carnaval, Natal) seja a mais nociva. Porque ela lida com a idéia de que de um dia para o outro todas as coisas vão se transformar. E esta mentira é comercializada, vendida e enfiada goela abaixo do pobre e crédulo ser humano.

            O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema sobre a data festiva que considero bastante interessante. Chama-se Cortar o Tempo : “Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.” Só tenho um senão com relação a este poema. Acho que doze meses meses é muito tempo e que o ano novo deveria ser comemorado mês sim, mês não, em fatias menores, como já disse. Só assim o ser humano entenderia que a esperança morre. Não importa se ela é a primeira ou a última a morrer, ela morre. E, entendendo esta verdade básica, não estaria sujeito a tantas frustrações e, portanto, a tantos sofrimentos.

           Com um ano novo mês sim, mês não, o homem passaria por uma espécie de treinamento intensivo sobre os efeitos do binômio esperança/frustração e, com toda certeza, daria um passinho importante na sua evolução comportamental. Mas como não sou um iludido esperançoso, prefiro pensar que, por enquanto, as coisas vão ficar como estão. Mesmo sabendo que é possível que elas piorem ainda mais.

Feliz o quê mesmo?

 

 

 

 

 

 

 

 


A CIDADE TRIUNFANTE

dezembro 19, 2008

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 São Paulo, 12 de junho de 2028

 Querida Anna,

cheguei ontem em São Paulo e não via a hora de lhe escrever que Bóris não estava delirando quando nos relatou as impressionantes mudanças operadas nesta cidade nos últimos vinte anos. Imagine que o desembarque no Aeroporto Internacional de Cumbica durou menos de dez minutos. Você se lembra da última vez que estivemos por aqui? Ficamos seis horas na fila de desembarque e quando voltamos para Paris pegamos uma outra filinha de oito horas. Pois é. As coisas mudaram muito por aqui. E para melhor.

Ao deixar o Aeroporto não fui obrigado a tomar aqueles taxis azuis com seus exorbitantes preços fixos. Nem aqueles ônibus que nos deixavam na Praça da República às três horas da manhã à mercê de delinquentes e quetais. Hoje existem várias opções de transporte para quem desembarca em Cumbica. Você pode escolher entre metrô, trem e várias linhas de ônibus. Juro que levei o maior susto e demorei para escolher o tipo de veículo que me levaria até o hotel no Centro Antigo.

Enfim, resolvi seguir o conselho de Bóris. Peguei o trem que margeia o Rio Tietê e fui até a estação terminal em Cidade Jardim, às margens do Rio Pinheiros, onde havia uma conexão de metrô para o Centro. Você se lembra daquele rio morto e fedido que chamávamos de Tietê? Esqueça, aquilo não existe mais. Ele está totalmente limpo, reluzente e despoluído. Suas margens estão urbanizadas e contam com dezenas de centros culturais, quadras de esportes, escolas, creches, casas noturnas, centros de compras para todos os gostos e bolsos e, o melhor, graciosos “vaporetos” fazem diferentes trajetos vinte e quatro horas por dia.

É claro que aqueles mastodônticos congestionamentos que ocupavam aquela avenida que margeava o rio (acho que se chamava Marginal, não lembro), desapareceram por completo. A própria avenida, aliás, deu lugar a pequenas praias onde os paulistanos tomam Sol e se divertem. Inútil dizer como o ânimo e o humor dos habitantes melhoraram.

Quando cheguei na Estação Cidade Jardim, guardei minha bagagem e fui dar uma volta a pé. Eram cinco e meia e no céu tintas vermelhas e amarelas ensaiavam um glorioso fim de tarde. Andei a pé até uma prainha de areia na margem do Rio Pinheiros e fiquei ali observando algumas crianças brincando em suas águas transparentes. Um pequeno navio decorado com bandeirolas multicoloridas que tinha acabado de ancorar, oferecia múltiplas atrações culturais e gastronômicas. Resolvi entrar para conhecê-lo. Chamava-se “A Cidade Triunfante” . A bordo, encontrei quatro salas de cinema, uma biblioteca virtual da melhor qualidade, um estúdio de gravação e dois restaurantes, um indiano e outro marroquino. O “Cidade Triunfante” zarparia do cais de Cidade Jardim com destino à Estação Ponte das Bandeiras em meia hora. A viagem de ida e volta tem duração de quatro horas. E quase todas as passagens já tinham sido vendidas.

Desculpe, Anna, estou ainda um pouco atordoado e atônito de felicidade com o que aconteceu na cidade de São Paulo. Acabei de chegar no Hotel e, acredite, tudo funciona bem no meu quarto. Do chuveiro ao computador onde lhe escrevo esta mensagem eletrônica. Estou cansado da viagem e com muito sono. Vou dormir um pouco. Quando acordar deste sonho eu ligo para você.

Amor,

do seu Mantraman.


NA PRAIA DE MARFIM

dezembro 11, 2008

 

 

 

noite, lua cheia

numa praia a nave pousa

luminoso carrossel

 

vem trazendo a ceia

desta fauna louca

que também veio do céu

 

ondas violetas tingem o mar

e o mar desnuda-se do azul

de toda ilha afluem pingüins

e os pingüins dançam ao redor do disco voador

 

podem ser de Vênus

estes seres lindos

cujo corpo é pura luz

 

mas isso é de menos

eles são bem-vindos

e já chegam todos nús

 

nuvens rosas tingem o céu azul

e o céu azul atinge o mar

de toda ilha afluem índios nús

e os índios nús dançam ao redor do disco voador

 

quando o Sol desperta

iluminando a festa

que parece não ter fim

 

a areia fosforesce

e outra nave desce

sobre a praia de marfim

 

milhões de borboletas tingem o ar

e o ar camufla-se de cor

de toda ilha afluem serafins

e os serafins dançam ao redor do disco voador


PATAGÔNIA MENTALIS

dezembro 5, 2008

 

 

 

          Se eu fosse Deus ou que restou Dele eu diria a todos os humanos sem pestanejar : “ A vida humana é a arte da solidão e da respiração : entendam-se com seus neurônios e seus pulmões”. Seria cruel e displicente e diria mais : “Tudo está fadado ao fracasso. A vida é uma grande ilusão.” Depois de ser devidamente apedrejado ( será que alguém se atreveria a Me apedrejar ?) continuaria o meu discurso : “ A família é uma grande bobagem.”

 

É claro que depois de proferir tais palavras um arco íris de proporções descomunais cobriria todo o horizonte terráqueo. Mas ninguém veria. Como sempre.

 

Destruídas todas as certezas religiosas e científicas, eu deusinho mequetrefe ordinarinho, faria da vida humana algo tão surpreendente e libertário que até os economistas do mercado comum europeu voltariam a ver graça na vida humana. Faria com que seus dinheirinhos hiper valorizados corressem em direção à Patagônia onde fundariam empresas que teriam como parceiros “os tais pinguins antenados”.

 

É claro que os bundões capitalistas do vaticano imporiam restrições severas às negociações com os membros do clã-pinguim-extra-terrestre da Patagônia. Mas neste momento de aparente impasse eu usaria o meu poderoso crachá-deus-cristinho-vale-iluminadinho em favor dos “tais pinguins antenados” e alegaria legítima possibilidade de tudo ser possível.

 

Deus são meus pretéritos.