O MEDITADOR DE GOLOK

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Um lama da província de Golok, no Tibet Oriental, foi ver Jamgön Kongtrül Lodrö Thaye, o Grande [1813-1899]. O lama disse a Jamgön Kongtrül que tinha ficado em uma cabana de retiro, meditando por nove ou dez anos. “Agora, minha prática é muito boa. Às vezes tenho algum grau de clarividência. Quando coloco minha atenção em alguma coisa, ela permanece inabalável, sinto-me tão quieto e sereno! Experiencio um estado totalmente sem pensamentos e conceitos. Durante longos períodos de tempo, experiencio nada mais do que êxtase, claridade e não-pensamento. Mais apropriadamente, eu diria que minha meditação tem sido bem sucedida!”

 

“Ó, que pena!”, foi a resposta de Jamgön Kongtrül.

 

O lama saiu um pouco abatido, retornando apenas na manhã seguinte. “Honestamente, Rinpoche, minha prática de concentração é boa. Consigo igualar todos os estados mentais de prazer e de dor. Os três venenos do ódio, desejo e ignorância não têm mais adesão real sobre mim. Depois de meditar por nove anos, acho que este nível é muito bom.”

 

“Ó, que pena!”, Jamgön Kongtrül respondeu.

 

O lama pensou, “Ele é reputado como sendo um mestre eminente, além da inveja, mas acho que ele está com um pouco de inveja de mim. Estou surpreso!”

Então disse, “Eu vim aqui para perguntar a você sobre a natureza da mente por causa da sua grande reputação. A minha meditação durante o dia é boa; absolutamente, não estou perguntando sobre ela. Estou muito satisfeito! O que quero perguntar é como praticar durante a noite, quando tenho alguma dificuldade.”

 

A resposta de Jamgön Kongtrül foi novamente “Ó, que pena!”

  

O lama pensou, “Ele realmente está com inveja de mim! Ele provavelmente não tem uma fração dos poderes de clarividência que eu tenho!” Quando o lama explicou sua clarividência, “Para mim, não há problema para ver três ou quatro dias no futuro”, Jamgön Kongtrül disse de novo, “Ó, que pena!”

  

O lama foi para o seu quarto. Ele mesmo deve ter começado a ter dúvidas, porque depois de alguns dias ele retornou e disse, “Estou indo de volta ao meu retiro. O que devo fazer agora?” Jamgön Kongtrül disse a ele, “Não medite mais! A partir de hoje, pare de meditar! Se você quer seguir o meu conselho, então vá para casa e fique em retiro por três anos, mas sem meditar nem um pouco! Não cultive o estado de calma mental nem por um instante!”

 

O lama pensou, “O que ele está dizendo! Quero saber o porquê, o que isso significa?

 

Por outro lado, ele é supostamente um grande mestre. Vou tentar fazer o que ele disse e ver o que acontece.” Então disse, “Certo, Rinpoche”, e saiu.

 

Quando voltou ao retiro, ele teve um período difícil, tentando não meditar. Cada vez em que ele simplesmente não interferia, sem tentar meditar, ele sempre se pegava meditando novamente. Depois ele disse, “O primeiro ano foi tão difícil! O segundo ano foi um pouco melhor.” Neste ponto, ele percebeu que, no “ato de meditar”, ele simplesmente tinha mantido sua mente ocupada. Então ele compreendeu o que Jamgön Kongtrül queria dizer com o “Não medite”.

  

No terceiro ano, ele alcançou a verdadeira não-meditação, deixando totalmente para trás o cultivo deliberado. Ele descobriu um estado totalmente livre do fazer e do meditar, simplesmente deixando a consciência exatamente como ela naturalmente é. Nesse ponto, nada espetacular aconteceu em sua prática, nem qualquer clarividência especial. Além disso, suas experiências de êxtase, claridade e não-pensamento desapareceram, e então ele pensou “Agora, minha prática de meditação está totalmente perdida! É melhor voltar e pedir mais conselhos!”

 

Retornando a Jamgön Kongtrül e relatando sua experiência, Rinpoche respondeu, “Certo! Certo! Estes três anos fizeram sua meditação ser bem sucedida! Certo!” Jamgön Kongtrül continuou, “Você não precisa meditar mantendo deliberadamente algo em mente, mas também não se distraia!”

 

O lama disse, “Dever ser por causa do meu treino anterior no estado calma mental que os períodos de distração são muito curtos. Não há muita distração. Sinto ter descoberto o que você queria dizer. Experiencio um estado que não é criado através da meditação, mas que dura por um tempo, por si mesma.”

 

“Certo”, disse Jamgön Kongtrül, “Agora passe o resto de sua vida treinando nisso!”

 

E esta é a história de um meditador de Golok que mais tarde ficaria conhecido por ter alcançado um altíssimo nível de realização.

(Contado por Tülku Urgyen Rinpoche)

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