LEVITAÇÃO : LAMA FRANCÊS VENCE TORNEIO EM SHANGRI-LA

novembro 29, 2008

 

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(Vale da Lua Azul, Shangri-lá) Terminou ontem à meia noite, horário local ( meio-dia em Brasília) o 37º Torneio Mundial de Lamas Levitantes na capital do Reino de Shangri-lá, Vale da Lua Azul. O evento que reuniu durante quatro dias lamas de dezoito países, teve como vencedor o francês Gyatso Chöpell que, além de quebrar o recorde local de velocidade ( média de 25,5 kms/hora, a marca anterior pertencia ao lama romeno Dharma Booms, 24,8 kms/hora) e altitude ( 9.570 metros, superando o lama vietnamita Chögyal Gyatso cuja marca era de 9.550 metros), criou uma nova modalidade, a de piruetas no ar por minuto. “ Não foi intencional, fui envolvido por uma fortíssima corrente de ar e quando dei por mim, meu corpo começou a dar piruetas”, revelou o lama francês que mora em Shangri-Lá  e que este ano vai completar um século de vida.

        Shangri-Lá fica na Cordilheira Ocidental dos Himalaias, numa região conhecida por Kue-Lun, considerada a parte mais elevada da Terra. Faz divisa com o planalto do Tibete e é rodeado pela Montanha Karakal cuja altura é de 8.400 metros. Durante mais de setenta anos, o Reino foi considerado uma “peça de ficção” criada pelo escritor inglês James Hilton, em seu livro “Horizonte Perdido”, publicado em 1933. Foi sómente em 2006 que uma expedição comandada pelo explorador de mundos paralelos, o búlgaro Cristo Romanóv, conseguiu desvendar o mistério e inserir definitivamente o Reino de Shangri-Lá no mapa-mundi.

           Mas, apesar de sua existência ter sido revelada ao mundo como uma verdade inequívoca, o acesso a Shangri-Lá continua sendo difícil e restrito. Para conseguir chegar em seus domínios, o turista é obrigado a se sujeitar a uma longa fila de espera no Aeroporto Tsan Tsé, em Baskul, China. O vôo que parte deste Aeroporto em direção a Shangri-Lá , tem saídas incertas e horários indefinidos. A espera pode durar dias e até mesmo meses. A viagem de doze horas só pode ser feita por aviões bi-motores adaptados à precaríssima pista de pouso de Shangri-Lá. Uma caminhada de cinco horas, através de escarpas e aclives montanhosos, separa a pista de pouso da cidade Vale da Lua Azul, a capital do Reino.

           Os habitantes, comandados pelo adorado e misterioso Lama Superior, temem pela invasão de turistas e a conseqüente degeneração da cultura preservada de maneira secreta durante mais de cinco séculos. “ Nunca tantos estrangeiros estiveram aqui ao mesmo tempo” disse Tchang Peng, o chinês de cento e vinte e dois anos de idade responsável pela organização da trigésima sétima edição do Torneio de Lamas Levitantes e a primeira com cobertura da imprensa internacional. Apesar da sua idade avançada, Tchang aparenta ter no máximo cinqüenta anos. Perguntado onde se localiza a fonte da juventude em Shangri-Lá, ele respondeu que “ela está na prática da meditação, no excelente ar que inalamos e na felicidade contínua e moderada que habita cada cidadão de Shangri-Lá”.

            A levitação é uma prática tradicional dos lamas residentes no Monastério Karakal. Segundo estudos científicos, ela só pode se dar em situações atmosféricas semelhantes a encontradas em Shangri-Lá, onde o ar rarefeito diminui considerávelmente o peso do corpo. Mas não é bem assim que pensa o lama Gyatso, vencedor do torneio encerrado ontem à noite : “ dedicamos longos períodos de tempo ao estudo e prática da meditação levitante. Se a ciência estivesse certa estaríamos todos levitando neste momento. E não estamos…”

            Feliz com a premiação de duzentas e vinte sementes de flor de lótus dourada, o francês, que superou o favorito lama tibetano Dharpo Chözang, pretende agora dedicar-se à quebra de um outro recorde : levitar até Paris e dar duas voltas em torno da Torre Eiffel.

 

 

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esconde-esconde

novembro 21, 2008

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uma mancha de sangue no meu passaporte,

um risco suspeito, perigosamente vermelho,

trouxe estranha insegurança à minha solidão.

 

não que a minha solidão estivesse sólida,

da boca pra fora, lá dentro sonhava tereza

que sonhava com um escritor inglês que

 

sonhava com uma personagem de seu livro

que sonhava com um passaporte brasileiro

perdido numa selva sangrenta e erótica.

 

a verdade é que não me lembro como esta

mancha sangrenta foi parar no passaporte,

tenho várias hipóteses mas nenhuma certeza.

 

a vida tem me dado um verdadeiro baile

e isto não é recente. há muito perdi o controle

em nome de uma vida expedicionária

 

onde malária, tereza e o terrível universo maya

brincam de esconde-esconde numa aventura

que tão cedo parece que não terá fim.  

 

 

 


O MEDITADOR DE GOLOK

novembro 10, 2008

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Um lama da província de Golok, no Tibet Oriental, foi ver Jamgön Kongtrül Lodrö Thaye, o Grande [1813-1899]. O lama disse a Jamgön Kongtrül que tinha ficado em uma cabana de retiro, meditando por nove ou dez anos. “Agora, minha prática é muito boa. Às vezes tenho algum grau de clarividência. Quando coloco minha atenção em alguma coisa, ela permanece inabalável, sinto-me tão quieto e sereno! Experiencio um estado totalmente sem pensamentos e conceitos. Durante longos períodos de tempo, experiencio nada mais do que êxtase, claridade e não-pensamento. Mais apropriadamente, eu diria que minha meditação tem sido bem sucedida!”

 

“Ó, que pena!”, foi a resposta de Jamgön Kongtrül.

 

O lama saiu um pouco abatido, retornando apenas na manhã seguinte. “Honestamente, Rinpoche, minha prática de concentração é boa. Consigo igualar todos os estados mentais de prazer e de dor. Os três venenos do ódio, desejo e ignorância não têm mais adesão real sobre mim. Depois de meditar por nove anos, acho que este nível é muito bom.”

 

“Ó, que pena!”, Jamgön Kongtrül respondeu.

 

O lama pensou, “Ele é reputado como sendo um mestre eminente, além da inveja, mas acho que ele está com um pouco de inveja de mim. Estou surpreso!”

Então disse, “Eu vim aqui para perguntar a você sobre a natureza da mente por causa da sua grande reputação. A minha meditação durante o dia é boa; absolutamente, não estou perguntando sobre ela. Estou muito satisfeito! O que quero perguntar é como praticar durante a noite, quando tenho alguma dificuldade.”

 

A resposta de Jamgön Kongtrül foi novamente “Ó, que pena!”

  

O lama pensou, “Ele realmente está com inveja de mim! Ele provavelmente não tem uma fração dos poderes de clarividência que eu tenho!” Quando o lama explicou sua clarividência, “Para mim, não há problema para ver três ou quatro dias no futuro”, Jamgön Kongtrül disse de novo, “Ó, que pena!”

  

O lama foi para o seu quarto. Ele mesmo deve ter começado a ter dúvidas, porque depois de alguns dias ele retornou e disse, “Estou indo de volta ao meu retiro. O que devo fazer agora?” Jamgön Kongtrül disse a ele, “Não medite mais! A partir de hoje, pare de meditar! Se você quer seguir o meu conselho, então vá para casa e fique em retiro por três anos, mas sem meditar nem um pouco! Não cultive o estado de calma mental nem por um instante!”

 

O lama pensou, “O que ele está dizendo! Quero saber o porquê, o que isso significa?

 

Por outro lado, ele é supostamente um grande mestre. Vou tentar fazer o que ele disse e ver o que acontece.” Então disse, “Certo, Rinpoche”, e saiu.

 

Quando voltou ao retiro, ele teve um período difícil, tentando não meditar. Cada vez em que ele simplesmente não interferia, sem tentar meditar, ele sempre se pegava meditando novamente. Depois ele disse, “O primeiro ano foi tão difícil! O segundo ano foi um pouco melhor.” Neste ponto, ele percebeu que, no “ato de meditar”, ele simplesmente tinha mantido sua mente ocupada. Então ele compreendeu o que Jamgön Kongtrül queria dizer com o “Não medite”.

  

No terceiro ano, ele alcançou a verdadeira não-meditação, deixando totalmente para trás o cultivo deliberado. Ele descobriu um estado totalmente livre do fazer e do meditar, simplesmente deixando a consciência exatamente como ela naturalmente é. Nesse ponto, nada espetacular aconteceu em sua prática, nem qualquer clarividência especial. Além disso, suas experiências de êxtase, claridade e não-pensamento desapareceram, e então ele pensou “Agora, minha prática de meditação está totalmente perdida! É melhor voltar e pedir mais conselhos!”

 

Retornando a Jamgön Kongtrül e relatando sua experiência, Rinpoche respondeu, “Certo! Certo! Estes três anos fizeram sua meditação ser bem sucedida! Certo!” Jamgön Kongtrül continuou, “Você não precisa meditar mantendo deliberadamente algo em mente, mas também não se distraia!”

 

O lama disse, “Dever ser por causa do meu treino anterior no estado calma mental que os períodos de distração são muito curtos. Não há muita distração. Sinto ter descoberto o que você queria dizer. Experiencio um estado que não é criado através da meditação, mas que dura por um tempo, por si mesma.”

 

“Certo”, disse Jamgön Kongtrül, “Agora passe o resto de sua vida treinando nisso!”

 

E esta é a história de um meditador de Golok que mais tarde ficaria conhecido por ter alcançado um altíssimo nível de realização.

(Contado por Tülku Urgyen Rinpoche)