MINHA SECRETA LISTA DE DELÍCIAS

outubro 8, 2008

Que delícia que é quando estou andando num lugar qualquer e súbitamente minhas narinas são atingidas por um aroma que me desloca durante alguns mágicos segundos para um tempo/espaço indefinido da minha infância.

Que delícia que é quando estou sozinho e me lembro de algum fato engraçado que me aconteceu e começo a dar risada, primeiro tímidamente e a seguir tenho um acesso de riso que chega a me tirar lágrimas dos olhos.

Que delícia que é quando tomo um banho que lava até o o último fio de cabelo da minha alma e, logo após fechar o registro do chuveiro, gritar “what a fucking good life!” de modo que os vizinhos e se possível todo o bairro escute.

Que delícia que é numa tarde de chuva fina, me defrontar com o meu guarda chuva sequinho pendurado no armário e ele me convidar para irmos ao cinema. E depois andar com ele pelas ruas sentindo o inspirador cheiro que a chuva provoca, ouvindo o plic plic dos pingos da chuva caindo sobre sua superfície negra.

Que delícia que é, depois de uma noite bem dormida, acordar sem saber ao certo que horas são e, bem devagarzinho, ir abrindo a janela do meu quarto e se defrontar com a cabecinha alaranjada/avermelhada do Sol saindo de sua toca em direção a um céu azulado que ainda guarda no seu azul lembranças do céu noturno.

Que delícia que é quando percebo que a minha mente está confusa, repleta de pensamentos amarfanhados e desagradáveis e sento-me durante um certo tempo para me concentrar no o ar entrando e saindo do meu nariz e pouco a pouco ir percebendo a dissolução de todos aqueles pensamentos obscuros e finalmente notar que a minha mente voltou a ficar arejada e leve.

Que delícia que é quando tenho um abacate em casa e acompanho seu lento processo de amadurecimento. E, um dia, ao apalpá-lo como quem não quer nada, notar que ele está pronto para o abate e cortá-lo em duas fatias, encontrando no seu interior aquele bizarro caroço ovalado rodeado de vários tons de verde. Depois, com uma colher, retirar o seu recheio macio e despejá-lo num liqüidificador, acrescentando leite, um pouco de açúcar e vê-lo transformando-se num musse verde claro . E só então sorvê-lo lentamente perguntando em voz alta : “ Meu Deus! Quem inventou isto?”.

Que delícia que é receber de presente aquele livro que eu estava namorando há tanto tempo, desembrulhá-lo sem nenhuma pressa, perceber que é de fato o livro com quem eu estivera sonhando nos últimos meses, dar um beijo bem estalado em quem me presenteou, abrí-lo e sentir o perfume que suas páginas virgens emanam e sómente alguns dias depois começar a lê-lo acalentando página a página a inútil esperança de nunca chegar ao seu final.

Que delícia que é caminhar por uma alameda enevoada numa manhã de primavera, notando que a névoa deixa a forma das árvores imprecisas, ficar profundamente encantado com esta constatação e, no meio do meu transe ser abordado por um senhor de aspecto ligeiramente bíblico com sua barba branca e e seu corpo esguio que me diz numa voz de barítono : “ Vai com Deus!”.

Que delícia que é abrir a minha caixa de correio, retirar todos os papéis de publicidade, correspondências e contas e notar a presença de um envelope com um logotipo de uma companhia aérea, entrar em casa, abrí-lo rapidamente e, estupefacto, perceber que se trata de uma passagem aérea, em meu nome, para um país chamado Butão.

Que delícia que é fazer amor com quem eu realmente amo durante um, dois, três dias e ficar adiando o orgasmo e acumulando uma energia que potencializa atômicamente o amor e, por, fim, chegar ao gozo incensando o ar do quarto, da casa, da rua, do mundo, de um perfume do qual estamos tão carentes.

Que delícia que é ser possuído por uma felicidade leve e gratuita como a que estou sentindo agora.

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acaso, coisa, dispersão

outubro 2, 2008

Alguém falou que a casa parecia um navio. Súbitamente, o
aquário instalado. Olhamos para a janela e nos deparamos
com uma escotilha cintilante postada entre dois braseiros
vermelhos. Aquilo encandescia. A sra. Flasch passou várias
vezes diante da janela, inconformada, com um forte rubor
na face. Sentou-se na cadeira de balanço e murmurou as
três palavras-chave “acaso”, “coisa” “dispersão”.


aurora

outubro 2, 2008


Passou pela minha vida um som e um carro deslocado da estrada. Depois o dia nasceu. Dois olhos. Uma lua. Um sol. Só depois eu nasci. Com Mercúrio na crista. O dia. O raiar. Quando o som entrou. E o silêncio? Mas o carro. Sim. O carro passou. Devo dizer que o meu ouvido já era um ciclone de sensações. Depois passou um carrinho. De sorvete. Um cavalo. Tátétátétáté. Quando o Sol já ia alto. Devo dizer: meu desejo já era um baú de sensações. Seus seios. E o leite. Mas o carro. Passava. Passava. E depois a primeira noite. Estrelas. Cobertores. Sonhos deslocados. Reais demais. Depois o pó. Caindo. Lento. Sobre a luz da aurora. E uma saudade. Sim. O carro passou. E me deixou. Aqui.