CARTA PARA MINHA MÃE

Hoje está fazendo uma semana que você esteve aqui em casa e esqueceu ( acho que deixou premeditamente) um novelo de lã sobre a poltrona da sala. Assim que você acelerou seu carro rumo àquele fim de tarde hemorrágico, diante de um sol épico que se punha no horizonte como uma laranja futurista, notei a estranha e simbólica presença do tal novelo. A princípio supus que não fosse seu ( há pelo menos trinta anos que não a vejo tricotar), mas passados alguns minutos onde contabilizei todas as pessoas que haviam passado pela minha casa nos últimos cinco dias, concluí de maneira assertiva, que ele, o novelo de lã branca com algumas matizes de verde, vermelho e amarelo, era de fato seu.

Na noite daquela mesma tarde, coloquei-o sobre meu colo e comecei lentamente a desenrolá-lo, tarefa que só concluí agora, há menos de meia hora. Pode ser que eu esteja ficando louco ( “loucura é razão sublime para um olho perspicaz”, escreveu Emily Dickinson) mas este novelo recontou toda a nossa gloriosa e redentora história de uma maneira clara, quase didática. Na sua extremidade interna, onde acabei de chegar, estava intacto, azulado, brilhante, nada menos que o meu cordão umbilical. Tocando-o com os olhos fechados, pude reviver aqueles excelentes nove meses onde nadei no seu lago de águas quentes e fui, sucessivamente, girino, venusiano saudoso da minha última vida, homem-rã e, finalmente, ser humano.

É deste período a primeira lembrança que tenho de você : sua voz. Ao ouví-la pela primeira vez com clareza, estreei os meus neurônios com o seguinte pensamento : “ deve ser a minha mamãe, que voz linda, só pode ser uma pessoa maravilhosa” e assim que você permitiu, eu corrí para os seus seios repletos de leite e amor. Desde então, você se tornou a minha cúmplice indestrutível, entricheirada ao meu lado nos momentos mais catastróficos e caóticos da minha vida. E todos estes momentos, pode parecer absurdo, estão gravados no novelo de lã.

Como no dia da minha primeira fuga ( seriam várias ) da escola primária. Lembro-me da sua recepção eivada de uma rara compreensão e de uma afetividade desconcertante. “Eis um filho que foge da escola”, você teria pensado, enquanto me preparava um ki-suco de uva. Depois vieram os dias agônicos da minha juventude, toda aquela chatice de ter que escolher em menos de um ano o que eu seria pelo resto dos meus anos e você ali, ao meu ladinho, “ ah, é um filho que canta, que escreve e que dança…”, contra tudo e todos. É deste período , vejo no novelo, noites de inverno em frente à lareira, lendo Fernando Pessoa, Cecília Meireles e Helena Blavatski. Você se lembra?

Quando tudo parecia indicar a minha indesejada mas iminente entrada no mundo dos adultos neuróticos, você surgia, libélula com asas de pudim de leite, linda e luminosa, anunciando a chegada de uma eterna primavera : “ desperta no campo, gentil primavera, com ela chegou o canto, gorgeio do sabiá…” . Porque você, mãe, sempre foi esta criancinha encantadora, este manancial inesgotável de otimismo, este sublime e visível desejo de harmonia entre todos os seres de todas as esferas cósmicas. Aqui está, no novelo oráculo revelador, as incontáveis vezes que você salvou a minha vida. Foram trezentas e vinte e oito, exatas trezentas e vinte e oito vezes Não é espantoso?

E tudo o que ainda não vivemos corresponde ao branco do novelo. Olha, são algumas centenas de metros. É claro que pretendo encerrar ( em alguns anos) a minha vida pirotécnica instável mas, convenhamos, extremamente divertida. Ou seja, quero, ao menos vou tentar, ser um filho solícito e maduro. Um filho que nos fins de semana a convida para conhecer os pinguins da Patagônia Setentrional. E que durante a semana, declara, todos os dias, a gratidão de ter nascido seu filho.

P.S : Quando você vem aqui pegar o seu novelo de lã?

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Uma resposta para CARTA PARA MINHA MÃE

  1. Fernanda disse:

    Sou mãe… hoje minha filha está com 5 anos… e o sonho da minha vida é que um dia ela sinta um amor como este por mim… Achei esta página por acaso, fazendo uma pesquiza de escola para ela… E após começar a ler, senti um misto de emoção e graça em suas plavras… parabés a você pelas palavras e a sua mãe por tê-lo tornado uma pessoa capaz de descrever um sentimento desta forma.

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