CARTA PARA MINHA MÃE

julho 22, 2008

Hoje está fazendo uma semana que você esteve aqui em casa e esqueceu ( acho que deixou premeditamente) um novelo de lã sobre a poltrona da sala. Assim que você acelerou seu carro rumo àquele fim de tarde hemorrágico, diante de um sol épico que se punha no horizonte como uma laranja futurista, notei a estranha e simbólica presença do tal novelo. A princípio supus que não fosse seu ( há pelo menos trinta anos que não a vejo tricotar), mas passados alguns minutos onde contabilizei todas as pessoas que haviam passado pela minha casa nos últimos cinco dias, concluí de maneira assertiva, que ele, o novelo de lã branca com algumas matizes de verde, vermelho e amarelo, era de fato seu.

Na noite daquela mesma tarde, coloquei-o sobre meu colo e comecei lentamente a desenrolá-lo, tarefa que só concluí agora, há menos de meia hora. Pode ser que eu esteja ficando louco ( “loucura é razão sublime para um olho perspicaz”, escreveu Emily Dickinson) mas este novelo recontou toda a nossa gloriosa e redentora história de uma maneira clara, quase didática. Na sua extremidade interna, onde acabei de chegar, estava intacto, azulado, brilhante, nada menos que o meu cordão umbilical. Tocando-o com os olhos fechados, pude reviver aqueles excelentes nove meses onde nadei no seu lago de águas quentes e fui, sucessivamente, girino, venusiano saudoso da minha última vida, homem-rã e, finalmente, ser humano.

É deste período a primeira lembrança que tenho de você : sua voz. Ao ouví-la pela primeira vez com clareza, estreei os meus neurônios com o seguinte pensamento : “ deve ser a minha mamãe, que voz linda, só pode ser uma pessoa maravilhosa” e assim que você permitiu, eu corrí para os seus seios repletos de leite e amor. Desde então, você se tornou a minha cúmplice indestrutível, entricheirada ao meu lado nos momentos mais catastróficos e caóticos da minha vida. E todos estes momentos, pode parecer absurdo, estão gravados no novelo de lã.

Como no dia da minha primeira fuga ( seriam várias ) da escola primária. Lembro-me da sua recepção eivada de uma rara compreensão e de uma afetividade desconcertante. “Eis um filho que foge da escola”, você teria pensado, enquanto me preparava um ki-suco de uva. Depois vieram os dias agônicos da minha juventude, toda aquela chatice de ter que escolher em menos de um ano o que eu seria pelo resto dos meus anos e você ali, ao meu ladinho, “ ah, é um filho que canta, que escreve e que dança…”, contra tudo e todos. É deste período , vejo no novelo, noites de inverno em frente à lareira, lendo Fernando Pessoa, Cecília Meireles e Helena Blavatski. Você se lembra?

Quando tudo parecia indicar a minha indesejada mas iminente entrada no mundo dos adultos neuróticos, você surgia, libélula com asas de pudim de leite, linda e luminosa, anunciando a chegada de uma eterna primavera : “ desperta no campo, gentil primavera, com ela chegou o canto, gorgeio do sabiá…” . Porque você, mãe, sempre foi esta criancinha encantadora, este manancial inesgotável de otimismo, este sublime e visível desejo de harmonia entre todos os seres de todas as esferas cósmicas. Aqui está, no novelo oráculo revelador, as incontáveis vezes que você salvou a minha vida. Foram trezentas e vinte e oito, exatas trezentas e vinte e oito vezes Não é espantoso?

E tudo o que ainda não vivemos corresponde ao branco do novelo. Olha, são algumas centenas de metros. É claro que pretendo encerrar ( em alguns anos) a minha vida pirotécnica instável mas, convenhamos, extremamente divertida. Ou seja, quero, ao menos vou tentar, ser um filho solícito e maduro. Um filho que nos fins de semana a convida para conhecer os pinguins da Patagônia Setentrional. E que durante a semana, declara, todos os dias, a gratidão de ter nascido seu filho.

P.S : Quando você vem aqui pegar o seu novelo de lã?


ILHA DO DIA ANTERIOR

julho 4, 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ideal para quem não gosta de viajar e não chegar a lugar nenhum.

A Ilha do Dia Anterior é assim chamada porque os visitantes não conseguem fixar um ponto no espaço a partir do qual o tempo possa ser medido, o que  torna impossível inscrevê-la no presente.

Quem pretende visitá-la deve saber que não poderá desembarcar na própria ilha. Terá de contentar-se em observá-la de um barco ancorado em sua baía. A olho nú, de binóculo ou telescópio.

Tudo que se sabe sobre a Ilha do Dia Anterior vem de relatos. Como este do  pesquisador holandês Jean V. Doweel : “São comuns as raposas voadoras e o canto dos pássaros são parecidos com a música de uma orquestra onde os instrumentos são assobios, estalidos, cacarejos e tiros abafados.”

O viajante deve estar consciente de que a ilha que vê talvez não seja a mesma que outros vêem, pois a paisagem reflete a experiência do mundo de cada visitante.


BOSQUE ENTRE DOIS MUNDOS

julho 4, 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lugar tranquilo e perfeito para os que gostam de sonhar. Sem som de pássaros ou animais, tudo o que se ouve em Entre-Dois-Mundos é o som das árvores crescendo. Entre as árvores, o visitante pode mergulhar em lagos que dão acesso a milhares de outros mundos. Apesar de possuirem um tipo de água que não molha a pele, estes lagos podem trazer alguns contratempos aos turistas mais afoitos. “ É extremamente difícil distinguir os diferentes tipos de lagos” alerta o guia de lagos intra-dimensionais de Entre-Dois-Mundos, Gabriel Rossetti, “e é bem possível que um turista desavisado vá parar num mundo errado.” 

 

Para chegar a Entre-Dois-Mundos é preciso adquirir anéis mágicos feitos de um pó que vem originalmente do próprio bosque. Os anéis amarelos levam os  visitantes ao bosque. Os verdes dão passagem para outros mundos. Os turistas que já visitaram o bosque Entre-Dois-Mundos dizem que, apesar de sua aparente quietude, “ele é completamente vivo”. Para Margareth Seight, turista ucraniana que visitou trinta e dois mundos em apenas quinze dias, “o bosque entre dois mundos é rico como um pudim de ameixas.”