A ILUSÃO DAS FRONTEIRAS

O fato se deu no começo do ano passado : estava em minha casa praticando levitação quando o telefone tocou. Era Macro Céfalo, o lunático e excêntrico editor da revista de viagens Pirlimpimpim onde trabalho como repórter. “ Mantraman, esteja aqui em quinze minutos. Traga bagagem para viagem de uma semana.” Com o Macro é sempre assim, tudo para ontem. Lá chegando, ele estava com um envelope na mão e, como sempre, foi suscinto e direto : ” É o seguinte : estou desconfiado de que a Bulgária é um país imaginário. Em meus quarenta e tantos anos de vida nunca conhecí um búlgaro e tampouco alguém que tivesse ido à Bulgária. Vai lá e confira se este país existe ou não.” E sem mais delongas, entregou-me o envelope com o meu passaporte com o devido visto de entrada e uma passagem aérea para Sófia, capital do referido país.

Pois bem, vinte e quatro horas depois, eu já estava no Aeroporto Internacional de Sófia, sob uma tempertaura de menos dez graus. Pensava comigo, enquanto aguardava na fila de imigração “ desta vez o Macro vai se dar mal, eis aí a a Bulgária com seu aeroporto, seus guardas de fronteira e seu inverno…” Mas quando apresentei meu passaporte para o jovem guarda búlgaro ( o primeiro búlgaro da minha vida ) ele olhou-o com assombro e me informou em seu inglês bulgarizado : “ Sr. Mantraman, o seu visto de entrada só é válido para daqui há cinco dias. Sinto informá-lo, o senhor não poderá pisar em solo búlgaro a menos que espere durante cinco dias na sala de embarque.” Conferí a data de entrada e, de fato, o jovem búlgaro estava certo. Olhei para os sofás congelados da sala de embarque e, entendendo a minha situação complicada, voltei-me para o policial com a seguinte pergunta “ Mas aonde está o mundo livre?” Ele soltou uma gargalhada como se tivesse escutado algo completamente insano. Acabei voltando para o Brasil sem concluir a minha missão,ou, se preferirem, concluindo que a Bulgária de fato não existe.

Lembrei-me desta história quando conversava na semana passada com um amigo físico sobre o tema da moda, o aquecimento global. Tenho uma desconfiança aguda com relação à ciência pelo fato dela lidar com a certeza, uma certeza que, diga-se de passagem, quase sempre acaba se mostrando provisória. E, pelo que tinha lido do famoso relatório assinado por cientistas do mundo inteiro, esta soberba travestida de certeza estava mais presente do que nunca.

Fiz uma série de perguntas a este meu amigo, como “ mas em cem anos a natureza cósmica, que desconhecemos quase que por completo, não poderá nos brindar com algum fenômenos surpreendente, como uma lufada de oxigênio revigorante?” Ou “ do centro da Terra, que conhecemos menos ainda, não poderá brotar uma enzima ou algo que o valha que em menos de dez minutos poderá tapar o buraco da camada de ozônio?” . Mas conversar com cientistas é conversar com a razão em seu grau mais histérico. A verdade é que ele me olhava como se eu fosse um insano absoluto, um despreparado da lógica e da razão.

Foi então que ele me revelou, para minha surpresa, que a única forma de fazermos frente ao famigerado buraco da camada de ozônio é nos unirmos enquanto planeta. Neste caso, pensei em voz alta, pela primeira vez temos pela frente algo que poderá fazer com que as abomináveis fronteiras entre os países percam suas funções. Fui tomado por uma felicidade ímpar.

Desde então tenho pensado no jovem guarda búlgaro. Antes que eu morra, quero muito reencontrá-lo na “fronteira” de seu país e resolver este enigma sobre a existência da Bulgária. Sem meu passaporte, é claro.

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2 Responses to A ILUSÃO DAS FRONTEIRAS

  1. paulo bono disse:

    mas e a seleção da Bulgária na copa de 94?, que tinha Stoitchkov e tudo? Era uma farsa?

    Outra coisa, sorvete de flocos é do caralho. Flocos e chocolate é a pedida. Na verdade, flocos embaixo e chocolate em cima.

    bacana suas viagens.
    abraço

  2. Dayane disse:

    Ola,
    desculpe eu nao ter vindo antes,Mantraman,é que nao estava atualizando o blog.Eu li os textos q vc me mandou por e-mail e ainda nao li suas postagens,mas depois lerei.Bem,os textos,nem precisa dizer nd,neh?MARAVILHOSOS,principalmnte o das arvores,amei mesmo.Bjo

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