arco iris noturno

abril 14, 2008

heavy_clouds

 

preciso algo urgente.

algo que não é mais
sexo, que não é mais
alguém, que não é mais
algo.

algo precioso
que não se vende
e que é urgentemente
essencial.

preciso algo preciso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A ILUSÃO DAS FRONTEIRAS

abril 5, 2008

O fato se deu no começo do ano passado : estava em minha casa praticando levitação quando o telefone tocou. Era Macro Céfalo, o lunático e excêntrico editor da revista de viagens Pirlimpimpim onde trabalho como repórter. “ Mantraman, esteja aqui em quinze minutos. Traga bagagem para viagem de uma semana.” Com o Macro é sempre assim, tudo para ontem. Lá chegando, ele estava com um envelope na mão e, como sempre, foi suscinto e direto : ” É o seguinte : estou desconfiado de que a Bulgária é um país imaginário. Em meus quarenta e tantos anos de vida nunca conhecí um búlgaro e tampouco alguém que tivesse ido à Bulgária. Vai lá e confira se este país existe ou não.” E sem mais delongas, entregou-me o envelope com o meu passaporte com o devido visto de entrada e uma passagem aérea para Sófia, capital do referido país.

Pois bem, vinte e quatro horas depois, eu já estava no Aeroporto Internacional de Sófia, sob uma tempertaura de menos dez graus. Pensava comigo, enquanto aguardava na fila de imigração “ desta vez o Macro vai se dar mal, eis aí a a Bulgária com seu aeroporto, seus guardas de fronteira e seu inverno…” Mas quando apresentei meu passaporte para o jovem guarda búlgaro ( o primeiro búlgaro da minha vida ) ele olhou-o com assombro e me informou em seu inglês bulgarizado : “ Sr. Mantraman, o seu visto de entrada só é válido para daqui há cinco dias. Sinto informá-lo, o senhor não poderá pisar em solo búlgaro a menos que espere durante cinco dias na sala de embarque.” Conferí a data de entrada e, de fato, o jovem búlgaro estava certo. Olhei para os sofás congelados da sala de embarque e, entendendo a minha situação complicada, voltei-me para o policial com a seguinte pergunta “ Mas aonde está o mundo livre?” Ele soltou uma gargalhada como se tivesse escutado algo completamente insano. Acabei voltando para o Brasil sem concluir a minha missão,ou, se preferirem, concluindo que a Bulgária de fato não existe.

Lembrei-me desta história quando conversava na semana passada com um amigo físico sobre o tema da moda, o aquecimento global. Tenho uma desconfiança aguda com relação à ciência pelo fato dela lidar com a certeza, uma certeza que, diga-se de passagem, quase sempre acaba se mostrando provisória. E, pelo que tinha lido do famoso relatório assinado por cientistas do mundo inteiro, esta soberba travestida de certeza estava mais presente do que nunca.

Fiz uma série de perguntas a este meu amigo, como “ mas em cem anos a natureza cósmica, que desconhecemos quase que por completo, não poderá nos brindar com algum fenômenos surpreendente, como uma lufada de oxigênio revigorante?” Ou “ do centro da Terra, que conhecemos menos ainda, não poderá brotar uma enzima ou algo que o valha que em menos de dez minutos poderá tapar o buraco da camada de ozônio?” . Mas conversar com cientistas é conversar com a razão em seu grau mais histérico. A verdade é que ele me olhava como se eu fosse um insano absoluto, um despreparado da lógica e da razão.

Foi então que ele me revelou, para minha surpresa, que a única forma de fazermos frente ao famigerado buraco da camada de ozônio é nos unirmos enquanto planeta. Neste caso, pensei em voz alta, pela primeira vez temos pela frente algo que poderá fazer com que as abomináveis fronteiras entre os países percam suas funções. Fui tomado por uma felicidade ímpar.

Desde então tenho pensado no jovem guarda búlgaro. Antes que eu morra, quero muito reencontrá-lo na “fronteira” de seu país e resolver este enigma sobre a existência da Bulgária. Sem meu passaporte, é claro.


girafas no saara

abril 4, 2008

não adianta mais
alardear que a solidão é a única alegria possível
e que a morte é a última saída divertida.

não adianta mais
recorrer à trama dos bilhares de pores do sol
para tentar explicar que a vida é uma indecência.

não adianta mais
nem inteligência nem elegância
tampouco a suprema ciência dos delirantes.

que chova girafas sobre o deserto do saara.


MAMÃE, ESTA SERVE?

abril 2, 2008

kunleykunleykunleykunley(Trecho da biografia do tibetano Drukpa Kunley (1455-1570), extraído do livro O LOUCO DIVINO (Le Fou Divin) e traduzido livremente por Mantraman). 

Aos vinte e cinco anos de idade, Drukpa Kunley encerrou seu período de aprendizado em monastérios, tornando-se mestre nas artes profanas e mentais. Ele praticava com perfeição a premonição, as materializações e andava com desenvoltura pelos caminhos da magia. Quando retornou à sua cidade natal a fim de visitar sua mãe, ela não se deu conta de que seu filho tinha alcançado o estado de budeidade (iluminação) e continuou a julgá-lo segundo seu comportamento exterior.  

Você deve decidir exatamente o que quer fazer da sua vida, advertiu-o assim que o encontrou, se resolver se consagrar à vida religiosa, deve trabalhar constantemente para o bem dos outros. Se quiser tornar-se um chefe de família, deve arranjar uma mulher que poderá ajudar a sua velha mãe nos trabalhos domésticos.   

Se você quer uma mulher, vou arranjar uma… respondeu-lhe Kunley.  

Ele se dirigiu imediatamente para a praça do mercado onde encontrou uma velha costureira de mais de cem anos, de olhos azuis, cabelos brancos e sem nenhum dente na boca.

Velha Dama, disse-lhe Kunley, hoje você vai se tornar minha esposa. Venha comigo! A velha senhora era incapaz de se levantar. Então Kunley colocou-a  sobre seus ombros e conduziu-a até a casa de sua mãe.

Mamãe! Mamãe! bradou Kunley ao entrar,  você não queria que eu arranjasse uma mulher? Pois aqui está, esta serve?  

Se é isto que você pode fazer de melhor, disse-lhe a mãe, não falemos mais. Leve-a de volta para onde a encontrou. Eu poderia fazer seu trabalho melhor que ela.  

 Muito bem! retorquiu Kunley resignado, se você pode trabalhar por ela, eu a levo de volta.  

À noite, Kunley se aproximou da cama da mãe e levantou sua coberta.O que você quer? ela lhe perguntou.

Hoje de manhã você me disse que daria conta dos trabalhos de uma mulher... sussurrou-lhe Kunley no ouvido.

Criatura sem vergonha! Eu disse que poderia fazer sozinha o trabalho doméstico. Não seja estúpido e volte para a sua cama!  gritou a mãe.  

Você deveria ter me explicado melhor o que quis me dizer esta manhã, retorquiu Kunley deitando-se na cama. Agora é muito tarde. Vamos dormir juntos.  

Saia já daqui, seu miserável! berrou a mãe.  

Mas ele insistiu : meus joelhos estão doloridos e eu não consigo me levantar…  

Mesmo que você não tenha honra, pense na opinião dos outros, imagine as consequências!  

Se você tem medo dos outros, nós poderemos guardar segredo.  

Finalmente, incapaz de encontrar as palavras que o convenceria, ela acabou cedendo : não vale a pena você me escutar. Agora, faça o que desejar.    

Estas palavras bateram em seus ouvidos como água que cai sobre um óleo borbulhante. Ele se levantou deixando-a sozinha na cama.

Na manhã seguinte, foi até a praça do mercado e bradou para os presentes :

Escutem todos! Se vocês encontrarem os meios , poderão subornar e seduzir até as suas próprias mães!