O PODER DO SORVETE DE FLOCOS

março 28, 2008

Costumo dizer para os meus amigos que tudo que faço pela minha saúde mental e física é ouvir o que o meu corpo tem a dizer. Não sigo nenhuma dieta pré-estabelecida, tenho horror a profissionais da saúde com seus discursos do tipo “ você tem que ter uma alimentação balanceada, ingerir fibras, carboidratos, vitamina E, F, senão você não passará dos sessenta, etc. ”.  Tenho para mim que médicos são especialistas em nos adoecer. E até onde sei, este meu método absolutamente empírico tem se mostrado eficaz. Tanto que depois da minha histórica catapora aos oito anos, nunca mais adoeci.   

Neste fim de semana, mais precisamente no sábado de manhã, quando estava praticando levitação sobre a raia de remo da USP,  meu corpo veio com um pedido inédito : “Mantraman, vamos tomar sorvete de flocos?” Fingi que não escutei (no fundo achei meio absurdo) e segui em frente, em direção ao Instituto Butantã (adoro sobrevoar o Butantã e ver as cobras como se fossem minhocas).  

À tarde quando estava lendo e me divertindo com um livro de John Fante (o meu escritor favorito), ouvi de novo aquela voz “ …e o sorvete de flocos, Mantraman, vem ou não vem?”. Anoitecia e presumi, já que conheço o meu corpo em toda sua extensão obsessiva, que ele não  desistiria tão cedo do sorvete de flocos. Mas, não sei bem porque, resolvi ignorá-lo.  

Quando voltei para a Sala de Navegação de onde mando estes torpedos mantramântricos, comecei a sentir uma estranha dor de cabeça que logo se acoplou a uma dor no fígado que por sua vez estendeu-se a uma suportável mas irritante dor no pulmão. Fiz uma breve retrospectiva da minha recente vida boêmia e concluí que não havia nem fumado nem bebido o suficiente para que tais dores se manifestassem de forma tão violenta. Mas era evidente que algo estava fora do lugar em meu corpo tagarela e para sempre protegido por Deus ou por um de seus asseclas.       

Foi só então que lembrei que costumo dizer aos meus amigos que tudo que faço pela minha saúde mental e física é ouvir o meu corpo. Fui até uma loja de conveniência de um posto BR e arrematei um pote de sorvete de flocos. E não é que ele, o meu corpo, como sempre, tinha razão?   À medida em que ia derretendo aquela iguaria em minha boca, fui sendo tomado por uma sensação de felicidade e relaxamento. Em certo momento, perguntei-me se teria o mesmo prazer caso o sorvete fosse de creme. Difícil saber.  

Hoje, segunda-feira, estou aqui nesta viajante Sala de Navegação, escrevendo esta crônica de Mantraman, tendo como companheira a última dose do precioso sorvete de flocos que salvou a minha vida.  Mas não pensem que eu consumi este nectar da felicidade e da longevidade sozinho. Tive a preciosa ajuda de Rebel, minha adorável Mantrawoman. “Mantraman, ela me disse depois de uma esplêndida sessão de ioga acrobática, vamos acabar com todas as nosssas dores com este maravilhoso sorvete de flocos. ”  

Acho que é o nome, “flocos”, ou o gosto, ou ambos. Ou o calor que fez neste fim de semana. Ou a sabedoria do meu corpo. Ou a alegria que tenho sentido nesta vida. Ou tudo isto ao mesmo tempo.           


Loteria

março 23, 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

No meio termo está a sabedoria.

O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

Façam suas apostas.


Nesta rua, nesta rua tem um bosque…

março 19, 2008

bosqueAssim que ruiu a minha penúltima ilusão amorosa começou a última. E devo dizer : esta será, definitivamente, a minha derradeira ilusão. Não tenho dúvida nenhuma quanto a isto. Porque o meu mais novo objeto de adoração nasceu para mim.    

Na verdade, fazia muito tempo que eu pretendia me aproximar desta pessoa. Para ser mais preciso, desde que me dou por gente. Conheci-a quando era ainda muito criança. Mas sempre achei que juntos não daríamos certo. Tinha muitas dúvidas quanto a este relacionamento. E medo. Muito medo.  

Por sermos muito parecidos, achava que numa eventual crise de tristeza ou de desânimo seríamos tomados duplamente pela tristeza e pelo desânimo. E que não teríamos força para sair de uma situação desta natureza. Ao contrário dos casais que guardam estratégicas dessemelhanças entre si, nós dois estaríamos fadados a uma espécie de exílio ou inércia inexorável. Mas o tempo vem provando que eu estava equivocado. 

O incrível deste romance é que foi preciso toda uma vida para que eu chegasse à conclusão de que ela é a pessoa com quem eu vou ficar até o fim dos meus dias. Já disse aqui que temos centenas de pontos em comum : eu realmente preciso falar muito comigo mesmo ( em voz baixa ou alta, tanto faz) para manter a minha sanidade mental em dia. E ela, milagre!, compartilha deste bizarro e singular hábito. De uma maneira radical, diga-se de passagem.  

Temos um apreço notável pela liberdade. Não gostamos de cobranças de nenhuma natureza. Além disto somos unidos por um profundo amor à alegria. Ela, como eu, adora dançar e  inventar passos em salas desertas. Temos um talento astronômico para tudo que implique em diversão.    

O nosso relógio biológico é idêntico. Basta eu ter fome para que ela também tenha. Se estou com sono, ela também está. E quando acordo, ela sempre abre seus olhos na mesma hora que eu. Nos dias em que a preguiça desce sobre nossos corpos com sua luz malemolente, ficamos na cama assistindo televisão, às vezes em silêncio, às vezes dando gargalhadas, às vezes murmurando palavras desconexas. Juntos, não temos nenhuma culpa. É perfeito.   

Por Deus, como me arrependo de não ter ficado com ela há muitos anos atrás! Não que minhas outras ilusões amorosas não tenham sido proveitosas. Até certo ponto elas foram responsáveis diretas pelo triunfal encontro que hoje estou tendo com a minha amada. Porque durante as inevitáveis crises nas quais todos os relacionamentos sempre mergulham, ela sempre esteva lá. Ao meu lado. ( Quando lembro disto, acho inacreditável ).  

E toda vez que minhas ilusões amorosas começavam a declinar ( o mais sublime do amor é que ele nasce, vive e morre), sempre lembrava-me dela. Pensava : desta vez eu vou procurá-la, pedí-la em casamento e por um ponto final nesta besteira que é se jogar de cabeça em amores estressantes. Sempre soube, lá dentro da usina onde se processam as minhas mais secretas intuições, que, ao seu lado, meus dias de sofrimento teriam fim. E passados três meses, posso dizer que estava certo.

Nosso romance vai de vento em popa. Ela, com sua tolerância e compreensão está me fazendo, ouçam isto, o mais feliz dos homens. E, como já disse, não tem mais volta. Pode parecer um conto de fada, uma ficção ou algo que o valha. Mas não é.   

Não é porque a minha última e definitiva ilusão amorosa existe e tem um nome. Ela se chama Solidão.