ASSIM FALOU SERGE GAINSBOURG

Junho 17, 2009

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A burrice é a descontração da inteligência.

Eu acho que é mais aceitável fazer rock sem pretensão do que fazer uma canção ruim com pretensão literária. Isto é realmente insuportável.

A amizade é mais rara do que o amor e necessita uma integridade absoluta.

Não sou deste mundo. Não sou de mundo nenhum.

As mulheres, no fundo, adoram os misóginos.

O amor é um cristal que se quebra em silêncio.

Quando tudo vai mal é preciso cantar o amor, o belo amor. E quando tudo vai bem, cantamos as rupturas e as atrocidades.

A beleza é a única vingança das mulheres.

Jornalista : Você se ama? Gainsbourg : Não, não gosto de por na minha boca aquilo que acabou de sair do meu nariz.

Só lavo as minhas extremidades. Tenho a pele seca. De toda maneira, só as pessoas sujas se lavam.

Não tenho nenhuma pretensão de ser eu mesmo.

Jornalista : Em algum momento você mudou seu visual de maneira radical? Gainsbourg : Nunca fiz cirurgia plástica, se é o que você está me perguntando. Só cirurgia mental.

Até a decomposição, eu comporei…

O objeto mais precioso é a mulher-objeto.

Minha ocupação favorita? Escutar minha barba crescer.

 

Do livro Pensées, provocs et autres volutes, de Serge Gainsbourg. Traduzido por Mantraman


THE BLUE BUS IS CALLING US

Novembro 19, 2008

 

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Eu não sei o que seria de mim se não fosse eu. Tenho segurado as minhas convicções  como um camelo que estoca  gordura em suas corcovas. Não porque eu seja um idealista, um cretino cósmico ou coisa que o valha. Sigo ao pé da letra o sábio conselho do meu mestre ( e quem sabe tio) Fernando Pessoa : “ segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias.”

 

Para cortar caminho e não aborrecer o leitor com atalhos, vou direto ao assunto : os anos sessenta (e oito, nove ) com sua psicodelia, hiper-hippismo (cabeludos andando em cavalos alados), contra-cultura, hendrixismo, Woodstock, lisergia, amor livre, comunidades e o diabo a quatro, estão absolutamente vivos no imaginário de grande parte dos seres vivos.  

 

Ontem recebi um e-mail de uma instituição cultural chamada Casa da Sabedoria :   palestra de um psicanalista refletindo sobre o amor. Dizia o e-mail : “ A dissolução das certezas atingiu, também, o amor. Existirá ainda a possibilidade de amar alguém?”. Li, reli, me imaginei na platéia perguntando ao palestrante se as certezas não foram feitas para serem dissolvidas, o que ele entende por amor e, enquanto deletava a mensagem, pensei na velha e única certeza que é morrer.

 

Hoje é dia 30 de Janeiro ( “como o tempo passa/ mal começou o ano / é já é janeiro”) e sou levado por um devaneio absolutamente inútil : fazer uma retrospectiva do mês que chega ao seu final. Minha memória ziguezagueia atrás de lembranças quentes e chega naquela manhã levemente ensolarada em que minha namorada Rebelde apareceu na minha casa e me presenteou com uma versão lunática de “When The Music Is Over” dos Doors. Naquela mesma manhã eu tinha lido dois aforismos do livro “Dicionário do Diabo” de Ambrose Bierce : “ O amor é uma insanidade passageira, curável pelo casamento” e “ O casamento  é uma cerimônia em que dois se tornam um, um se torna nada e nada se torna suportável”. Troquei com Rebelde “When The Music Is Over” por estes dois aforismos. Inesquecível.

 

A história é absolutamente verdadeira : o filho de dezenove anos de uma querida amiga minha andava deprimido. Numa bela noite ele se abriu com a mãe : “Nasci na época errada. Queria ter sido jovem nos anos sessenta ( e oito,nove)”. E chorou. Dias depois Rebelde, 24, aportou no meu barraco levando embaixo do seu braço fino e sensual o DVD do Festival de Woodstock. Vi e revi e cheguei à seguinte conclusão : ninguém ali estava para brincadeira. Aquela multidão acreditava mesmo naquilo tudo. Aquilo tudo : psicodelia, hiper-hippismo, etc.

 

Mas o fato é que aquilo tudo passou. Ou parece que passou. Olho para a cara da primavera e as flores são as mesmas. Ou parece que são. Mas parece que o tempo ficou devendo uma certa saída incerta. Mas o tempo não deve nada a ninguém. Ele simplesmente passa. E o passado é uma mórbida ilusão.

 

 

Eu não sei o que seria de mim sem mim.  

O resto?

É a sombra de árvores alheias.  

 

 

 

 


EM DIA COM A REBELDIA

Outubro 27, 2008

Deixa eu chupar o seu drops psicodélico
E mergulhar na sua piscina de absinto
Me asfixia com seus beijos hendrixianos
Depois me asila no azul do seu ânus luz

Me submeta ao grito da borboleta
Me deixa loki na sua vulva woodstock
Revele a trilha da sua sonífera ilha
Que eu me limito a ser o seu Raulzito


abra a boca : é sucrilhos

Junho 15, 2008

 

 


UM CHÁ CHÁ CHÁ PRA GENTE SE ACHAR

Março 26, 2008

mutantesEstou numa idade de ler romances russos, Proust, Mais Chato-de-Assis, sei lá. Estou com 228 anos. E ainda ontem minha mãe me disse : “Mantraman, hora de amadurecer”. Minha própria namorada, Rebelde, 24, entre um e outro beijo varonil, sussurrou no meu ouvido “Mantraman, time to wake up!” e me convidou para almoçar numa quarta-feira chuvosa : Rebelde, entre aspargos e floridos agriões  puxou minha cabeça e segredou no meu ouvido dilacerado  “amor, hoje é o primeiro dia do resto de sua vida” . E logo catou a minha língua e colocou-a dentro de sua vagina enquanto cantava “ nós somos teimosos…” 

Minha vida em fascículos parece querer me dizer “Mantraman , você quis & nem quis se cuidar”. Mas a porra do banco que quer me deslocar, desestabilizar, 224 reais, 449, sei lá. E agora estou do lado de cá : sou maluco e não sou mau humorado.

Ontem mesmo acordei com um pássaro que me dizia em sua língua “ Mantraman, depois de um recorde vem outro”. Lá fora o dia amanhecia, como sempre, como sempre. Ontem mesmo, aliás, alguém me perguntou : “ mas você não tem compromissos?”. Foi então, e só então, que  pensei em ficar aqui no campo enquanto a turma de vaqueiros tira o leite.

A velhice com toda sua enfadonha serenidade e comedimento ainda não me kiss. Fui expulso da maturidade, virei um melão rock and roll dançando no pomar psicodélico for ever. Patético como um dos três patetas. Qual? O senhor  escolhe. Sem compromissos quebrando contas bancárias a meu bel prazer. Porque eu não agüento mais o servilismo e tenho talento de sobra para pular a catraca. E mais : vou chamar a Rebelde pra pular a catraca comigo. “Rebelde, vamos pular a porra desta catraca?” Pular a catraca a dois é bem mais excitante.

Porque só ela, afora o oxigênio e a luz, neste momento, me seduz.  

Moro numa casa de quatro andares com vista para o infinito. Estou muito hiper a fim de uma nova moradia. Mas não penso em nada. Nada. Penso em nada. Lá fora um ônibus azul está me  chamando. “Hei Mantraman, venha com a gente, tente ser feliz aqui”. Penso no mar, aquele bálsamo. Esqueço de tudo e vou.

É leitor, life is so sweet. Não quero mais sofrer. Já é hora de equilibrar : good bye! good bye! .  Lembro daquela senhora marxista de 27 anos que me disse : “ Siceramente, Mantraman, eu ouvia Mutantes quando tinha dezoito anos de idade…”. Ela queria me desestabilizar em seu mau humor políticamente sei lá. Acho que sei lá. Que estou com 229. 12, 446.  

Esta gente que não sabe transgredir acaba sendo um saco, um verdadeiro saco. Poesia é mais. É além do tempo. E em qualquer lugar.

Que tal um chá chá chá prá gente se achar?    

Concluo que triunfo é não matar formigas & ser amado por Rebelde.  

O resto é repetição robótica.  

“Mas Mantraman…”  

Fim de papo.