Estou numa idade de ler romances russos, Proust, Mais Chato-de-Assis, sei lá. Estou com 228 anos. E ainda ontem minha mãe me disse : “Mantraman, hora de amadurecer”. Minha própria namorada, Rebelde, 24, entre um e outro beijo varonil, sussurrou no meu ouvido “Mantraman, time to wake up!” e me convidou para almoçar numa quarta-feira chuvosa : Rebelde, entre aspargos e floridos agriões puxou minha cabeça e segredou no meu ouvido dilacerado “amor, hoje é o primeiro dia do resto de sua vida” . E logo catou a minha língua e colocou-a dentro de sua vagina enquanto cantava “ nós somos teimosos…”
Minha vida em fascículos parece querer me dizer “Mantraman , você quis & nem quis se cuidar”. Mas a porra do banco que quer me deslocar, desestabilizar, 224 reais, 449, sei lá. E agora estou do lado de cá : sou maluco e não sou mau humorado.
Ontem mesmo acordei com um pássaro que me dizia em sua língua “ Mantraman, depois de um recorde vem outro”. Lá fora o dia amanhecia, como sempre, como sempre. Ontem mesmo, aliás, alguém me perguntou : “ mas você não tem compromissos?”. Foi então, e só então, que pensei em ficar aqui no campo enquanto a turma de vaqueiros tira o leite.
A velhice com toda sua enfadonha serenidade e comedimento ainda não me kiss. Fui expulso da maturidade, virei um melão rock and roll dançando no pomar psicodélico for ever. Patético como um dos três patetas. Qual? O senhor escolhe. Sem compromissos quebrando contas bancárias a meu bel prazer. Porque eu não agüento mais o servilismo e tenho talento de sobra para pular a catraca. E mais : vou chamar a Rebelde pra pular a catraca comigo. “Rebelde, vamos pular a porra desta catraca?” Pular a catraca a dois é bem mais excitante.
Porque só ela, afora o oxigênio e a luz, neste momento, me seduz.
Moro numa casa de quatro andares com vista para o infinito. Estou muito hiper a fim de uma nova moradia. Mas não penso em nada. Nada. Penso em nada. Lá fora um ônibus azul está me chamando. “Hei Mantraman, venha com a gente, tente ser feliz aqui”. Penso no mar, aquele bálsamo. Esqueço de tudo e vou.
É leitor, life is so sweet. Não quero mais sofrer. Já é hora de equilibrar : good bye! good bye! . Lembro daquela senhora marxista de 27 anos que me disse : “ Siceramente, Mantraman, eu ouvia Mutantes quando tinha dezoito anos de idade…”. Ela queria me desestabilizar em seu mau humor políticamente sei lá. Acho que sei lá. Que estou com 229. 12, 446.
Esta gente que não sabe transgredir acaba sendo um saco, um verdadeiro saco. Poesia é mais. É além do tempo. E em qualquer lugar.
Que tal um chá chá chá prá gente se achar?
Concluo que triunfo é não matar formigas & ser amado por Rebelde.
O resto é repetição robótica.
“Mas Mantraman…”
Fim de papo.