UM CONTINENTE MAIOR

Outubro 21, 2009

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Com 95 anos de idade, Genpo Roshi, um dos grandes mestres zen da atualidade, falava do “portão sem portão” e enfatizava que, de fato, não existe portão algum por onde tenhamos de passar a fim de darmo-nos conta do que nossa vida é. Não obstante, segundo ele, do ponto de vista da prática, devemos atravessar um portão, o portão de nosso orgulho. Todos nós, desde o momento em que nos levantamos pela manhã, temos de confrontar nosso orgulho, de alguma maneira — todos nós que estamos aqui. Para ultrapassarmos esse portão, que não é um portão, temos de ir além do portão de nosso próprio orgulho.

Bem, a filha do orgulho é a raiva. Quando me refiro a raiva, digo todos os tipos de frustrações, incluindo a irritação, o ressentimento e o ciúme. Falo tanto da raiva como do modo de trabalhar com ela porque entender como praticar com a raiva é entender como aproximar-se do “portão sem portão”. Em termos de vida diária, entendemos o que significa distanciar-se de um problema. Por exemplo, observei que Laura fez um lindo arranjo de flores. Ela mexe aqui, ali, tira, põe, e, num determinado momento, dá um passo atrás para ver as flores, o que fez com elas, como foi que ficou o arranjo pronto. Se você está costurando um vestido, primeiro corta o pano e une as peças, costura e arremata, e em um determinado momento, você vai para a frente do espelho para ver como ficou. Está penso nos ombros? Como está a bainha? Está caindo bem? Tornou-se um vestido adequado? Você dá um passo atrás. Da mesma forma, para pôr nossa vida em perspectiva, devemos dar um passo atrás e dar uma olhada.

Bom, a prática zen é fazer isso. Ela desenvolve a habilidade de dar um passo atrás e olhar. Tomemos um exemplo prático, uma discussão. A qualidade ostensiva de qualquer discussão é o orgulho. Suponhamos que sou casada e discuto com meu marido. Ele fez alguma coisa de que não gostei — gastou, digamos, as economias da família comprando um carro novo — e acho que nosso carro atual está bom. Acredito — aliás, eu sei — que tenho razão. Fico com raiva, fico furiosa. Quero gritar. Bem, o que posso então fazer com a minha raiva? O que é proveitoso que eu faça? Antes de mais nada, creio que é uma boa idéia simplesmente dar um passo atrás: fazer e dizer o mínimo possível. Quando recuo um pouco que seja, posso me lembrar de que o que na realidade desejo é ser aquilo que poderia ser chamado de Um Continente Maior (em outras palavras devo praticar as coisas mais elementares). Agir assim é o mesmo que penetrar em uma outra dimensão, numa dimensão espiritual, se quisermos dar-lhe um nome.

Consideremos uma seqüência de passos da prática, tendo em mente que, no auge da raiva, é impossível à maioria efetuar a prática no desenrolar do drama. Entretanto, tente de fato dar um passo atrás; faça e diga o mínimo possível; afaste-se. Depois, quando estiver sozinho, apenas sente e observe. O que quero dizer com “observe”? Observe a novela que está passando na televisão da cabeça: o que ele (o marido) disse, o que ele fez; o que tenho a dizer a respeito disso tudo, o que eu deveria fazer sobre o caso… todas essas considerações são fantasia. Não são a realidade do que está acontecendo. Se pudermos rotular esses pensamentos (difícil de fazer quando estamos com raiva), devemos fazê-lo. Por que é tão difícil? Quando estamos com raiva, há um enorme obstáculo no caminho da prática: o fato de não querermos praticar. Preferimos alimentar nosso orgulho, ter “razão” na discussão, no argumento. (“Não busque a Verdade: apenas cesse de alimentar suas opiniões.”) É por isso que o primeiro ato é dar um passo atrás, falar pouco. Semanas de prática assídua podem passar, até que sejamos capazes de ver que, o que desejamos, não é ter razão, mas ser Um Continente Maior. Dê um passo atrás e observe. Rotule os pensamentos do drama: sim, ele não deveria ter feito isso; sim, não consigo suportar o que ele está fazendo; sim, vou encontrar um jeito de me vingar. Tudo isso pode se dar num nível superficial, porém, não deixa de ser uma novela.

Se realmente recuarmos e observarmos — o que, como disse, é bastante difícil de fazer quando estamos com raiva —, seremos com o tempo capazes de enxergar nossos pensamentos como pensamentos (irreais), não como a verdade. Houve ocasiões em que repeti o processo dez, vinte, trinta vezes, antes de os pensamentos por fim cessarem. Quando isso acontece, o que me resta? Resta-me a experiência direta da reação física de meu corpo, o resíduo, por assim dizer. Quando vivencio de forma direta o resíduo (como tensão, contração), visto que na experiência direta não há dualidade, entro lentamente naquela dimensão que sabe o que fazer, qual a ação a ser empreendida (samadhi). Ali se sabe qual é a melhor atitude não só para mim, como para o outro também. Ao tornar-me Um Continente Maior, saboreio a “unidade” de modo direto.

Podemos falar sobre “unidade” até o final dos tempos. Como efetivamente nos destacamos dos outros? Como? O orgulho do qual a raiva nasce é o que nos destaca. A solução é uma prática na qual vivenciemos essa emoção de separação como um estado corporal definido. Quando fazemos isso, é criado Um Continente Maior.

O que é criado, o que cresce, é o tanto de vida que posso conter sem que ele me aborreça ou me domine. No início, esse espaço é bastante restrito, depois fica maior, cada vez maior. Nunca precisa parar de crescer, O estado de iluminação é aquele espaço enorme e compadecido. No entanto, enquanto vivermos, descobriremos que existe um limite para o tamanho de nosso continente e, nesse ponto, é que devemos praticar. Como sabemos onde se localiza esse ponto-limite? Estamos nele quando sentimos em qualquer nível raiva ou aborrecimento. Não há mistério nenhum. A força de nossa prática está no tamanho que nosso continente alcança.

Ao fazermos essa prática, precisamos ser caridosos com nós mesmos. Necessitamos reconhecer os momentos em que não estamos com disposição para efetuá-la. Ninguém tem vontade o tempo todo. E não faz mal que não a façamos sempre. Estamos fazendo sempre aquilo para o que estamos prontos.

Essa prática de fazer Um Continente Maior é em essência espiritual, porque essencialmente não é nada em absoluto. Um Continente Maior não é uma coisa; a consciência não é uma coisa; a testemunha não é uma coisa, nem uma pessoa. Não há ninguém testemunhando.

Apesar disso, aquilo que pode testemunhar minha mente e meu corpo deve ser algo que não seja minha mente e meu corpo. Se posso observar minha mente e meu corpo num estado de raiva, quem é este “eu” que observa? Ele me demonstra que sou diferente de minha raiva, que sou maior do que minha raiva, e esse conhecimento permite-me construir Um Continente Maior, crescer. Portanto, é essa capacidade de observar que deve ser expandida. O que observamos sempre é secundário. Não é importante estarmos aborrecidos; o importante é termos a habilidade de observar o aborrecimento.

Conforme essa habilidade se expande, primeiro para observar e depois experimentar, aumentam, ao mesmo tempo, dois outros fatores: a sabedoria, que é a capacidade de ver a vida tal como ela é (e não do jeito que eu gostaria que fosse), e a compaixão, que é a ação natural decorrente dê ver a vida como ela é. Não podemos ter compaixão por ninguém nem por nada se nosso encontro com eles está tingido de raiva e orgulho; é impossível. A compaixão cresce conforme criamos Um Continente Maior.

Quando efetuamos a prática, estamos penetrando profundamente em nossa vida tal como a conhecemos, e o modo como esse processo se desenrola varia de uma pessoa para outra. Para algumas, dependendo de seu condicionamento e história pessoais, o processo pode transcorrer de maneira suave, e a compreensão é gradativa. Para outros, vem em ondas, em enormes ondas emocionais. É como um dique que se rompe. Temos medo da inundação e de sermos tragados pela voragem. É como ter contido parte do oceano atrás de frágeis diques que, quando explodem sob o impacto da água, deixam-na retomar o que simples e verdadeiramente é; e há alívio nisso porque agora ela pode fluir com as correntezas e a vastidão do oceano.

Não obstante, acredito ser importante que o processo não aconteça rápido demais. Se for acelerado, creio que deveria ser desacelerado. Chorar, tremer e ficar transtornado não são coisas indesejáveis. Aquele dique está começando a se romper, mas não é preciso que se quebre rápido demais. É melhor desacelerar, e, se romper depressa, que seja, está tudo certo; quero enfatizar apenas que não tem de ser obrigatoriamente assim. Pensamos que somos todos do mesmo jeito, mas é provável que, quanto mais repressora e difícil tenha sido a infância, mais importante é que o dique ceda com lentidão. Contudo, não importa quanto nossa vida possa ter transcorrido com suavidade, sempre há um dique para estourar em algum ponto.

Lembremo-nos ainda de que um pouco de humor a respeito de tudo isso não é uma má idéia. Essencialmente, jamais nos livramos de coisa alguma. Não precisamos nos livrar de todas as nossas tendências neuróticas; o que fazemos é começar a ver como são engraçadas, como apenas fazem parte do lado engraçado da vida, da graça de viver com outras pessoas. São todas loucas, assim como nos, e claro. Mas na realidade nunca enxergamos que somos loucos; esse é nosso orgulho. Claro que eu não sou louca, afinal de contas, sou a instrutora! 

Texto de Charlotte  Joko Beck, extraído livro “Sempre Zen”


PASSO DOBLE SOBRE SR. HELENO

Outubro 2, 2009

                                                        

 

finalmente um sonho claro em minhas noites desconectadas de qualquer princípio real ~ ~ ~ uma pérola na ostra onírica : : : estava eu sob a forma de um sapo à beira de um lago coachando lágrimas – quando – alguém-ser sussurrou no meu ouvido anfíbio a fórmula que me levaria a renascer humano ~^~ ~^~ o dharma vem do pântano e do cosmos – - – acordo chorando

                                                                                           

 

aqui está o melhor & ali o pior” – - – “o ouro é mais valioso que a prata” – - – “cometas, borboletas e estrelas cadentes : grátis” ~~~~~~~ “ópio e poesia : fora de catálogo” – - – “o amor é bom e a morte é má” – - – “ratos, baratas e pernilongos : extermínio” – - – “sublime ignorância : pesca de extra-terrestres ~~~~~~~~~ “o crime é cadeia” – - – “fadas, anjos e deuses são invisíveis” – - – “linhas imaginárias” – - – “estágio atual : pré-primitivo” – - – “balanço final : falta”

 

                                                                                     

 

amanhã – amanhã não que é domingo – segunda de manhã – vou cortar a minha cabeça e dá-la de presente para o primeiro animal que passar na minha frente – junto com ela o felizardo levará como brinde o que restou da minha carteira de identidade – sapos não usam documentos – e uma vasta coleção de pensamentos – produto de uma intensa atividade mental exercida durante anos e anos

                                   

 

sensação ~ ostra ~ nuvem

 


ORAÇÃO DE BOA SORTE

Agosto 9, 2009

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Alguns homens preferem a beleza do céu e dos espaços,

Outros preferem a riqueza das religiões infernais;

Boa sorte aos deuses e às serpentes!

 

Alguns se deliciam praticando a virtude,

Outros se divertem gastando a fortuna dos reis;

Boa sorte aos santos felizes e aos reis miseráveis!

 

Doutor Coutinho gosta de cavalos,

Mantraman gosta de gatos;

Boa sorte ao amante dos cavalos e ao amante dos gatos!

 

Elvis gosta de cerveja,

Tonico gosta de carne;

Boa sorte aos cervejeiros e aos carnívoros!

 

Senhora Tico Tico adora jogar bingo

Enquanto Almerino Pimpão adora cantar;

Boa sorte ao jogador e ao cantor!

 

Bela Bia gosta de recitar o mantra MANI PEME

Andreé Spanovich gosta de peixe;

Boa sorte à amante do Dharma e ao amante do peixe!

 

Anísio Bola 7 só é feliz quando dorme,

Vera Zung Zung só é feliz quando acorda;

Boa sorte ao passivo e ao ativo!

 

Ricardo Boa Praça gosta de religião

O livre Kunley gosta de sua parceira;

Boa sorte ao amante da religião e ao amante das mulheres!

 

Luís Eulálio é feliz no Brasil,

Juan Artigas é feliz na Argentina;

Boa sorte aos que amam o Brasil e aos que amam a Argentina!

 

Garotos bebem cerveja com um vigor heróico,

Vestem roupas transadas e portam anéis delirantes;

Boa sorte ao espírito da juventude!

 

As garotas vestem-se de seda e comem doces,

Adoram fazer amor e se meter no mundo dos meninos:

Boa sorte às garotas e às mulheres!

 

O sentido do Ensinamento e a orelha do ouvinte,

A importância do estudo e o caminho onde é praticado;

Boa sorte aos mestres e aos discípulos!

 

Poema escrito pelo iogue tibetano Drukpa Kunley ( 1455-1570 ) e traduzido livremente por Mantraman.

 

 

 


A BRUTAL FELICIDADE INTERNA DOS BUTANESES

Junho 23, 2009

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“A cobiça, a insaciável cobiça humana” disse o primeiro ministro do Butão ( país budista de existência duvidosa, mais para miragem do que para nação, situado, ao que tudo indica, no alto das Cordilheiras do Himalaia) Jigme Thinley, referindo-se ao que considera a causa principal da catástrofe econômica que o mundo está atravessando. “Precisamos mudar o rumo das coisas” disse ainda o butanês do interior do Palácio de Sonhos onde trabalha. “ Temos que pensar na Felicidade Interna Bruta. Produto interno bruto, como o próprio nome diz, é uma brutalidade além de uma tremenda promessa esfarrapada”.

 Conforme a nova Constituição Butanesa, aprovada no ano passado, os programas de Governo, da agricultura ao comércio exterior, passando pelos transportes, devem ser avaliadas não só pelos benefícios econômicos que podem gerar, mas também pela felicidade que produzem. Para que o mundo comece a levar a sério a Felicidade Interna Bruta, os governantes do reino budista criaram um modelo com normas e definições que podem ser quantificadas e medidas pelos mais proeminentes economistas da economia mundial.

O modelo é formado por quatro pilares, nove campos e 72 indicadores de felicidade. Os quatro pilares são a economia, a cultura, o meio ambiente e o bom governo. Estes se dividem em nove campos : bem estar psicológico, ecologia, saúde, educação, cultura, formas de vida, uso do tempo, vitalidade da comunidade e bom governo, cada qual com seu índice FIB. Tudo isto é analisado por meio de 72 indicadores.

No campo do bem estar psicológico, por exemplo, os indicadores incluem a frequência da prática da meditação e de sentimentos como egoísmo, a tranquilidade, a compaixão, a generosidade e a frustração, além dos pensamentos suicidas. Na imaculada cultura butanesa, contudo, o que se esconde atrás de um conceito tão maravilhoso quanto revolucionário é a palavra sobrevivência. “ A história do Butão hoje em dia é, em uma palavra, sobrevivência” disse Thinley. “A Felicidade Interna Bruta é uma poderosa arma para triunfar sobre as ameaças que nos impedem de sobreviver”.


GOSTAR OU NÃO GOSTAR

Março 6, 2009

 

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Certa vez, S.S. Dilgo Khyentse Rinpoche falou a Dudjom Rinpoche a propósito de haver quem falasse mal ou bem dele. “Não se preocupe. Lembre-se sempre que, quando existir uma pessoa que não gosta de você, ou que pense que você é maluco, existirão outras cem pessoas que gostarão de você. De forma similar, sempre que haja uma pessoa que goste de você, não deveria ficar muito excitado porque existirão outras cem pessoas que não te suportarão.” E rematou Dudjom Rinpoche, anos mais tarde: “Por isso, gostar e desgostar é completamente irrelevante.”


O MEDITADOR DE GOLOK

Novembro 10, 2008

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Um lama da província de Golok, no Tibet Oriental, foi ver Jamgön Kongtrül Lodrö Thaye, o Grande [1813-1899]. O lama disse a Jamgön Kongtrül que tinha ficado em uma cabana de retiro, meditando por nove ou dez anos. “Agora, minha prática é muito boa. Às vezes tenho algum grau de clarividência. Quando coloco minha atenção em alguma coisa, ela permanece inabalável, sinto-me tão quieto e sereno! Experiencio um estado totalmente sem pensamentos e conceitos. Durante longos períodos de tempo, experiencio nada mais do que êxtase, claridade e não-pensamento. Mais apropriadamente, eu diria que minha meditação tem sido bem sucedida!”

 

“Ó, que pena!”, foi a resposta de Jamgön Kongtrül.

 

O lama saiu um pouco abatido, retornando apenas na manhã seguinte. “Honestamente, Rinpoche, minha prática de concentração é boa. Consigo igualar todos os estados mentais de prazer e de dor. Os três venenos do ódio, desejo e ignorância não têm mais adesão real sobre mim. Depois de meditar por nove anos, acho que este nível é muito bom.”

 

“Ó, que pena!”, Jamgön Kongtrül respondeu.

 

O lama pensou, “Ele é reputado como sendo um mestre eminente, além da inveja, mas acho que ele está com um pouco de inveja de mim. Estou surpreso!”

Então disse, “Eu vim aqui para perguntar a você sobre a natureza da mente por causa da sua grande reputação. A minha meditação durante o dia é boa; absolutamente, não estou perguntando sobre ela. Estou muito satisfeito! O que quero perguntar é como praticar durante a noite, quando tenho alguma dificuldade.”

 

A resposta de Jamgön Kongtrül foi novamente “Ó, que pena!”

  

O lama pensou, “Ele realmente está com inveja de mim! Ele provavelmente não tem uma fração dos poderes de clarividência que eu tenho!” Quando o lama explicou sua clarividência, “Para mim, não há problema para ver três ou quatro dias no futuro”, Jamgön Kongtrül disse de novo, “Ó, que pena!”

  

O lama foi para o seu quarto. Ele mesmo deve ter começado a ter dúvidas, porque depois de alguns dias ele retornou e disse, “Estou indo de volta ao meu retiro. O que devo fazer agora?” Jamgön Kongtrül disse a ele, “Não medite mais! A partir de hoje, pare de meditar! Se você quer seguir o meu conselho, então vá para casa e fique em retiro por três anos, mas sem meditar nem um pouco! Não cultive o estado de calma mental nem por um instante!”

 

O lama pensou, “O que ele está dizendo! Quero saber o porquê, o que isso significa?

 

Por outro lado, ele é supostamente um grande mestre. Vou tentar fazer o que ele disse e ver o que acontece.” Então disse, “Certo, Rinpoche”, e saiu.

 

Quando voltou ao retiro, ele teve um período difícil, tentando não meditar. Cada vez em que ele simplesmente não interferia, sem tentar meditar, ele sempre se pegava meditando novamente. Depois ele disse, “O primeiro ano foi tão difícil! O segundo ano foi um pouco melhor.” Neste ponto, ele percebeu que, no “ato de meditar”, ele simplesmente tinha mantido sua mente ocupada. Então ele compreendeu o que Jamgön Kongtrül queria dizer com o “Não medite”.

  

No terceiro ano, ele alcançou a verdadeira não-meditação, deixando totalmente para trás o cultivo deliberado. Ele descobriu um estado totalmente livre do fazer e do meditar, simplesmente deixando a consciência exatamente como ela naturalmente é. Nesse ponto, nada espetacular aconteceu em sua prática, nem qualquer clarividência especial. Além disso, suas experiências de êxtase, claridade e não-pensamento desapareceram, e então ele pensou “Agora, minha prática de meditação está totalmente perdida! É melhor voltar e pedir mais conselhos!”

 

Retornando a Jamgön Kongtrül e relatando sua experiência, Rinpoche respondeu, “Certo! Certo! Estes três anos fizeram sua meditação ser bem sucedida! Certo!” Jamgön Kongtrül continuou, “Você não precisa meditar mantendo deliberadamente algo em mente, mas também não se distraia!”

 

O lama disse, “Dever ser por causa do meu treino anterior no estado calma mental que os períodos de distração são muito curtos. Não há muita distração. Sinto ter descoberto o que você queria dizer. Experiencio um estado que não é criado através da meditação, mas que dura por um tempo, por si mesma.”

 

“Certo”, disse Jamgön Kongtrül, “Agora passe o resto de sua vida treinando nisso!”

 

E esta é a história de um meditador de Golok que mais tarde ficaria conhecido por ter alcançado um altíssimo nível de realização.

(Contado por Tülku Urgyen Rinpoche)


Budismo teórico

Setembro 9, 2008

Os venenos da mente são divididos em três categorias principais. A primeira é o apego ou desejo, que inclui o ficar preso física ou mentalmente a pessoas, objetos e fenômenos. A segunda é a raiva, que significa rejeitar, não querer, afastar algo de você. O terceiro é a ignorância, que significa não ter uma noção clara da vida, não compreender a natureza verdadeira das coisas. Estes venenos agem de maneira interdependente. O que ocorre é que, quando não temos uma visão real da vida, acabamos criando desejos e apegos. E quando não conseguimos o que queremos, criamos aversão e ficamos com raiva. Os venenos da mente agem como toxinas, criando energias mentais negativas. Estas energias são expressas em nossas ações, palavras e pensamentos, causando um sofrimento cíclico, em cadeia, que se repete infinitamente.


Budismo prático

Setembro 9, 2008

Mantra das 100 Sílabas da Mente Adamantina

Om Benza Sato Samaya /
Manupalaya /
Benza Sato Tenopa /
Tishta Dri Do Me Bhawa /
Suto Kayo Me Bhawa /
Anurakto Me Bhawa /
Supo Kayo Me Bhawa /
Sarwa Siddhi Memtrayatsa /
Sarwa Karma Sutsa Me /
Tsitam Shri Ya Kuru Hung /
Ha Ha Ha Ha Ho Bhagawaen /
Sarwa Tathagata /
Benza Ma Me Muntsa Benzi Bhawa Maha Samaya Sato Ah.

Recitar 21 vezes por dia. Os venenos da mente dissolvem-se.


formigas não matam bodhisatvas

Agosto 19, 2008

fluxo de espelhos na avenida
perfilar de saúvas no canteiro central
vagalumes desligados e pernilongos indolentes
ensaiam pela última vez
a dança dos insetos que não deram certo

casais de gafanhotos acrobatas
gritos histéricos – monocórdicos
emas: lhamas
um passar exagerado na intrigante fauna terrestre
eis o que basta para um homem:
ver-se em formigas.

em breve
iniciar-se-á o ciclo da iluminação humana
inevitável único caminho -
o tempo é uma luz por demais soberana
independe de nossa vontade
reina naturalmente:

formigas são estrelas no firmamento


o deus do budismo

Agosto 2, 2008

“Jesuítas e outros missionários católicos recentemente desenvolveram um método no qual eles dizem aos povos primitivos, “sim, seus deuses existem, é verdade, mas meu deus é muito mais sábio do que seu deus, porque é
onipresente e assim por diante – ambidestro e tudo mais.”

Mas o budismo encara o problema totalmente diferente. Não há questão alguma de meu deus e seu deus. Você tem seu deus, mas eu não tenho deus algum. E não tenho nada para colocar no lugar. Onde está a grandeza e o poder do meu enfoque? Não tenho nada para colocar no lugar. A única coisa que pode haver para substituir é a louca sabedoria – a mente é poderosa.

 Todos têm mente. Não interessa eles ou ele, ou eles e ele, nada disso.” (Chögyam Trungpa / Louca Sabedoria)