PECADOS NA TERRA DO NUNCA

Junho 28, 2009

 

Este texto foi em escrito em 2003, num período em que Michael Jackson era o inimigo público número um da sociedade. Reparem que os mesmos que o apedrejaram naquele período hoje estão canonizando-o. Triunfo da hipocrisia é pouco.

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, bastou o sujeito equilibrar um prato no nariz e controlar uma bola com o pé ao mesmo tempo que ele já se torna uma celebridade. Vivemos um período raquítico do ponto de vista cultural e vazio do ponto de vista pessoal. É como se a grande maioria das pessoas não tivesse vida própria e usasse, como saída, o método de viver a vida dos outros. Ainda mais quando o outro é uma “celebridade”, convenhamos, uma palavra que se desgastou a tal ponto que hoje em dia quer dizer qualquer coisa menos o que de fato significa. 

Dito isto, vamos ao Michael Jackson. Vejam bem : ele não é uma celebridade instantânea de reality show, tampouco um ator de novela das seis que tem chiliques em desfiles de moda. Ele é um artista. Sim, precisamos, neste momento de histérica confusão, separar o joio do trigo : Michael Jackson é um grande artista que, dentre outros feitos, gravou um dos melhores álbuns da história da música pop mundial, Thriller, em 82. Só este álbum, que influenciou e continua influenciando pessoas de todo o planeta, já seria suficiente para dar-lhe o título de artista. Ou melhor, de grande artista. 

E, curioso, é principalmente por ser um grande artista, que ele está escalando os sete círculos do inferno em sua vida particular. Fosse ele um bossal anônimo, um artista canastrão como tantos que circulam livremente pelas emissoras de tv, e ele já estaria absolvido, ou preso, enfim, seu destino já estaria traçado. Mas não, ele teve a infelicidade de se tornar Michael Jackson. 

É claro que existem outras razões secundárias ou periféricas para justificar sua sofrida escalada através dos sete círculos do inferno : suas plásticas faciais, o súbito embranquecimento de sua pele e a sua hipotética negação de sua raça. 

Não tenham dúvida. Pelo posicionamento da imprensa mundial em frente ao tribunal onde ele responderá por assédio sexual a menores numa pequena cidade da Califórnia, o julgamento vai se transformar numa espécie de reality show a céu aberto com uma audiência que deve superar os mais populares programas da tv mundial. E o componente mais aterrador desta novela já está no ar. Antes mesmo de ser julgado, já existe uma tendência de opinião pública a considerá-lo um notório pedófilo sem escrúpulos. Um psicopata que construiu uma cidade para crianças, a Never Land ou Terra do Nunca, com o único intuito de embriagá-las com taças de vinho e depois seviciá-las em inocentes carrocéis e rodas gigantes. 

Mas porque este comportamento, até prova em contrário, preconceituoso? Para responder a esta pergunta, teríamos que recorrer a alguns jargões da psicologia barata. Inveja, por exemplo. De quem ? De grande parte da população branca americana que detem os meios de comunicação e fazem o que bem entendem com a imagem de seus desafetos e com a mente daqueles que consomem suas informações. E de um outro segmento, conhecido por sua intolerância racial, que transita nas esferas judiciais e policiais. 

O delegado que o indiciou no ano passado, por exemplo, sofre de problemas mentais (e culturais) bem mais graves do que aqueles que Michael tem sido acusado. Pude vê-lo num documentário ( que certamente será reprisado durante a novela “ Pecados na Terra do Nunca”) e posso dizer sem sombra de dúvida : ele odeia com todas as suas forças o pop star americano. Trata-se de um ódio que exala de seus olhos, de suas sobrancelhas, de suas papadas, de seu suor. 

Desde que começaram as acusações e o “escândalo” veio à tona, a cerca de dois anos, 90% do que se veicula a seu respeito são histórias mal contadas baseadas em hipóteses imprecisas. Tudo embalado num mega-show onde a grande estrela é o preconceito. Os 10% restantes ainda lembram do inequívoco talento de Michael, de suas preciosíssimas interpretações e de sua dança única, inimitável e intransferível. 

É aterrador. Mas é o sinal dos tempos.

 

 


SOU MONOGÂMICO, E DAÍ?

Março 17, 2009

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Uma das mazelas de se manter uma grande amizade durante muito tempo, é ter de ouvir da boca de seu amigo a mesma história dezenas de vezes. O Amaury ( “é Amaury com y, viu?”, ele sempre dizia quando se apresentava) foi meu amigo durante intensos dez anos. A amizade se deu no finado século passado : nunca mais o encontrei e não tenho a mínima idéia de onde ele está e o que está fazendo de sua vida. Ele sumiu, mas uma de suas histórias ficou guardada na minha memória. Não porque eu a tenha ouvido dezenas de vezes, mas porque, além de ser uma história, ela guarda um ensinamento precioso.

Ele geralmente a contava depois do terceiro ou quarto copo de uísque, fosse num bar ou na casa de amigos. Depois de fazer um preâmbulo sobre as virtudes da poligamia e a opressão que era o casamento monogâmico, Amaury relatava sem nenhum pudor que na noite de núpcias de seu casamento tinha dormido com uma outra mulher. Entrava em detalhes de como tinha sido sua transa, descrevia a beleza da outra mulher e suas encantadoras habilidades sexuais. “Queria provar para mim mesmo que o casamento não era uma prisão”, costumava argumentar. Se alguém lhe perguntava porque, então, ele se casara, a resposta era sempre a mesma “casamento ou delegacia, meu caro, ela estava grávida e sua família meio que me obrigou a me casar com ela. Mas eu a amava, não tenham dúvida. E foi por esta razão que me casei com ela…” respondia.

E, de fato, o Amaury era um convicto poligâmico. Traía sua esposa à luz do dia, da noite e na frente de quem quisesse ver. Quanto a ela, na minha opinião, fazia vista grossa, fingia que não sabia das estrepulias extra-conjugais do marido. Tinha algum outro interesse no casamento que até hoje não descobri exatamente qual era. Recentemente soube, através de uma amiga, que a farra de Amaury durou até uma noite em que ele estava em casa, à espera da sua esposa, e recebeu um telefonema. Era ela. Ele perguntou-lhe onde ela estava e a resposta veio com um cruzado certeiro no rosto bonitinho do meu amigo : “ Estou na cama com fulano…” . Detalhe : fulano também era um grande amigo de Amaury. Ao receber a notícia, ele teria desabado sobre o chão, esmurrando-o e chorando como uma criança. E dias depois entrou numa depressão que durou meses. Deduzí, de longe, que pela primeira em sua vida Amaury sentiu na alma, na pele, no coração, o que é um sentimento chamado ciúme.

Lembrei-me de Amaury na semana passada quando lia uma reportagem numa revista de comportamento que trazia na capa a manchete-pergunta “ A ciência explica a poligamia : nascemos para amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?”. A matéria, para encurtar o caminho, dava voz a um bando de pessoas desesperadas à procura de uma justificativa qualquer para legitimar a poligamia. Traz um tipo de relacionamento que será a “última moda” daqui há dez anos, o Poliamor (sic) que, segundo uma de suas praticantes “ defende a possibilidade prática e sustentável de se envolver em relações íntimas, profundas e eventualmente duradouras com vários parceiros simultaneamente.” Mas, calma, ainda faltam dez anos. Por enquanto só os modernóides antenadinhos é que estão praticando o Poliamor.

O que me deixa perplexo e ligeiramente indignado com relação à nova modalidade é o domínio que seus praticantes dizem ter com um sentimento chamado ciúme. Um dos parceiros de um quarteto que já completou dois anos de relacionamento disse que a transa a quatro se dá “com muito respeito e sem sentimentos ruins como ciúme ou posse”. Gostaria de acreditar, mas duvido.

Quando a fria ciência entra na discussão e um zoológo afirma que a monogamia “é incomum e difícil entre seres humanos”, o desespero parece atingir o seu clímax. Isto depois de expor complicadíssimas teorias sobre “bimaturismo” sexual, dimorfismo e outras teorias que, na minha leiga e contundente opinião, devem servir muito bem para explicar o funcionamento da vida sexual de besouros, bizões e abelhas da Polinésia.

Eu entendo o desespero desta gente. E aqui, tenho que ser o “Mantraman Flor de Obsessão” e repetir que, em matéria de auto-conhecimento estamos na idade da pedra lascada. Não avançamos ainda nem meio milímetro para dentro de nossas fronteiras e ainda vem esta gente falando em “evolução” dos relacionamentos amorosos. Ora, é claro que a poligamia entre humanos só vai existir quando conseguirmos dominar, minimamente que seja, um sentimento chamado ciúme. E como estamos longe disto!. Precisamos ainda caminhar muitas milhas, passar pelo desapego às coisas materiais, ao ego, continuar caminhando, começar a enxergar a si próprio para poder ver os outros e, finalmente, tentar algum tipo de contato mais civilizado com o bárbaro e irascível sentimento chamado ciúme.

Eu sou monogâmico. Não me acho antiquado ou demodê por ter optado por este tipo de relação com a pessoa que amo. E digo mais : monogâmico sem nenhum esforço. Ela, que é um tesouro que pouco a pouco vou conhecendo, me nutre de tudo o que há de bom no amor : é super amiga, uma amante reluzente, divertida, inteligente. E, portanto, vejam que simples, não tenho nenhuma necessidade de possuir mais ninguém, além dela. Caso esta necessidade venha a me assombrar algum dia, mais simples ainda, me separo. E, possivelmente, vou atrás da assombração.


SUJEIRA AUTO-LIMPANTE

Fevereiro 26, 2009

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Ontem vi na TV de novo. Acho que foi a quarta vez em menos de um mês. Parece se tratar de uma daquelas pautas epidêmicas que, de tempos em tempos, virotizam os telejornais brasileiros. É o seguinte : casal resolve dividir as tarefas domésticas. Alegam que o orçamento não está dando para contratar uma empregada doméstica, e, principalmente, que as coisas mudaram muito depois que “a mulher conquistou o seu espaço no mercado de trabalho” ( não aguento mais ouvir esta expressão!).

Na reportagem de ontem, a imagem mostrava um rapaz de aproximadamente 27 anos, diante da pia, com uma bucha na mão, lavando sem nenhuma intimidade uma xícara que, suponho, fora usada no café da manhã do casal em questão. Enquanto ele, um claro iniciante naquele mundo de detergentes e espumas, tentava se entender com a parte que lhe cabia na nova divisão de tarefas domésticas, ela, trajando uma típica roupa que caracteriza as mulheres que ocupam cargos executivos – tailleur preto até o joelho, camisa de seda branca, sapatos meticulosamente discretos – era entrevistada pelo repórter. Nesta altura deste tipo de reportagem epidêmica, o texto é sempre o mesmo, seja qual for a emissora, o telejornal, ou a entrevistada. Algo como “ é… o mundo está muito diferente. Foi-se o tempo em que lavar louça era um trabalho feminino….”. E o resto do texto todo mundo já sabe de cor.

O que me deixa perplexo nesta ceninha ( aparentemente) cada vez mais comum nos lares do mundo inteiro é a aversão que se criou, historicamente, pela sujeira. Parece ser um dado atávico, imemorial, a ideia de que sujar é bom e limpar é ruim. Ou, por outra, limpar é degradante, torna a pessoa que se habilita a tal tarefa menor do que a aquela que se compraz em sujar. É uma espécie de continuação do sinal de ostentação ter alguém para limpar a sujeira depois que o banquete ou a festa se acaba. “Vamos nos fartar que depois alguém limpa”. Este parece ser o pensamento que domina a nossa sociedade.

Estou morando sozinho a cerca de três anos. Neste período, intenso para quem nunca tinha convivido com a solidão em quarenta e sete anos de existência, aprendi quase todos os macetes da limpeza doméstica. Devo confessar que, logo que assumi a solidão, parti para o velho expediente de ter uma faxineira que vinha na minha casa uma vez por semana. Com ela, fui aprendendo como e aonde se usa, por exemplo, a cândida, que tipo de produto de limpeza é melhor para limpar os vidros, o chão da cozinha, enfim, Dona Zica foi, durante um ano, a minha mestra e, principalmente, aquela que me fez perder aquele perturbador medo que até então eu tinha da sujeira.

Seguiu-se a esta primeira fase, de maneira natural, a minha total iniciação à manutenção do lar propriamente dito. Aprendi a fazer compras no supermercado e escolher de maneira criteriosa os produtos que de fato estou precisando e vou usar. Para quem não sabia distinguir uma rúcula de um agrião, uma salsinha de um coentro, este último ano foi de progresso absoluto. Por exemplo, ao comprar um abacate verde sei em quanto tempo vou poder consumí-lo, aprendi a distinguir os diversos tipos de tomate e suas finalidades, molho, salada, tempero. O resultado deste processo é que cada vez mais fui abdicando dos restaurantes e lanchonetes e me entendendo com o forno e o fogão da minha casa. Hoje posso receber amigos para um jantar e não fazer feio. Com muito auto-didatismo, especializei-me em algumas receitas que se tornaram clássicos da minha culinária. 

Considero que esta minha autonomia no serviço doméstico, foi, de longe, o legado mais importante de toda minha vida. Sem exagero. Bem, agora chega desta conversa que eu tenho passar cera líquida incolor no assoalho da sala. Querem saber que marca eu uso? Segredo de estado.


VOTO DE SILÊNCIO

Fevereiro 13, 2009

 

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No começo da semana passada, mais precisamente na terça-feira, comecei a sentir um cansaço inexplicável. Como sou um tipo que gosta de entender tudo o que se passa em meus domínios interiores, pus-me a observar, refletir e tentar categorizar o tal (inexplicável) cansaço.

A princípio supus que ele estivesse ligado ao malfadado estresse de trabalho. Mas não, definitivamente minha cabeça não estava debilitada pelo excesso de compromissos. Tampouco era um cansaço da rotina sentimental. Rotina que, aliás, não tenho tido por razões que não cabem explicar aqui. Enfim, tudo indicava que era um cansaço. Um cansaço simplesmente inexplicável.

Foi somente no fim da tarde de terça-feira, depois de um diálogo de quase uma hora no telefone com uma pessoa diretamente ligada aos meus problemas mais cotidianos e profundos, para quem tive que explicar pela centésima primeira vez em menos de duas semanas o porque das minhas atitudes e do meu comportamento, que percebi a verdadeira natureza da minha fadiga : estava cansado de falar. Sim, caros leitores, na verdade eu estava praticamente morrendo de tanto falar.

Naquela mesma noite, antes de dormir, lembrei-me de uma prática que aprendi num monastério budista no começo dos anos 90 : o voto de silêncio. “Eureka!” sussurrei para mim mesmo, “amanhã, faço voto de silêncio de cinco dias…” Na manhã de quarta-feira, logo ao despertar, tomei algumas providências necessárias para que a prática pudesse ter um bom andamento. A principal delas foi ligar para as pessoas mais próximas, aquelas com quem costumo falar diariamente, e, evitando explicações minuciosas, limitei-me a dizer-lhes : “Olha, vou ficar fora até domingo. Sendo urgente, deixe recado na secretária eletrônica ou na caixa de e-mail.” Desliguei o telefone e pronto : estava logisticamente preparado para a maravilhosa viagem ao Reino do Silêncio e da Solidão.

Durante os meus cinco dias de expedição neste mundo praticamente desconhecido para nós, ocidentais, descobri o quanto falamos sem a mínima necessidade de falar. Somos, por assim dizer, uma espécie de tagarelas compulsivos que sempre tem sobre tudo e sobre todos uma opinião, uma interpretação, enfim, um amontoado de palavras a dizer. Descobri, por extensão, que não emitir opinião sobre coisa nenhuma e nem ter que dar explicação oral sobre seus atos ou dos atos alheios a quem quer que seja, produz uma sensação tão boa quanto sonhar que está transando com a pessoa amada no Paraíso. E, principalmente, lembrei-me e refleti muito sobre uma frase que Buda disse : “Certamente, nós nascemos com um machado na boca e acabamos nos cortando com ele quando dizemos palavras tolas.”

É claro que ontem, domingo, quando quebrei o voto, tive que consertar alguns estragos produzidos durante a minha jornada silenciosa. Por exemplo, pessoas para quem não avisei que estava de partida e que me ligaram e me procuraram durante toda a semana, acharam que eu estava magoado com elas. Um recado de sábado dizia “Tá legal, Mantraman, você não quer mais falar comigo, mas ao menos me explica o que foi que eu fiz…” dizia a mensagem de uma amiga com a voz ligeiramente chorosa. Amanhã, quando voltar à rotina da tagarelice compulsiva, eu ligo para ela e tento explicar-lhe aonde estive, fazendo o que e tudo o que vi.

Sei que para quem trabalha fora de casa, tem família morando na mesma casa ou é adepto da psicanálise, deve ser muito difícil fazer um voto de silêncio. Mas, querem um conselho? : assim que entrarem em férias, comprem um bilhete de ida e volta para o revigorante e maravilhoso Reino do Silêncio e da Solidão. Mantraman garante : é uma viagem inesquecível.


PARA SER FELIZ

Janeiro 10, 2009

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Resumindo : viver bem é saber conviver com os outros. E isto não é fácil. Primeiro porque os outros não estão nem aí com você. Os outros estão sempre a fim deles próprios. Eles podem até dissimular e fingir que estão aí com você. Mas não se deixe iludir : os outros estão aí só consigo próprios. Não porque sejam egoístas ou malvados. Os outros, por essência, deformação ou “sentido cósmico das sobrancelhas”, simplesmente não conseguem ver quem são os outros : é uma curiosa espécie que só tem olhos para si próprios. E o mais intrigante é que os outros não conseguem nem enxergar a si próprios. Vivemos, nós e os outros, numa escuridão total. 

Mas, afinal, como lidar com isto?

Revelo aqui, em primeríssima mão, o primeiro e último mandamento para todos aqueles que desejam ser felizes, apesar dos outros : o outro (aquele de quem você espera tudo, até aquilo que você não é, e que vem perturbando a instalação da sua pequena mas redentora felicidade) está completamente cego. Caso você encontre alguém de posse de alguma visão, por minúscula que seja, vá imediatamente a uma loja de fogos de artifícios e de uma forma insana adquira todo o estoque. Diga ao comerciante algo como “ eu quero todos os seus fogos”. É importantíssimo não ser muquirana nesta hora. O mundo humano sempre precisa ser avisado de que um ser começou a ver o outro. Festeje este fato sem nenhuma timidez.

                Um toque : cuidado com o ano novo, onde todos os cegos parecem estar vendo todos os cegos. Se você encontrou alguém que não está cego no dia 31 de dezembro, guarde seu estoque de fogos para uma noite qualquer de julho. Ou setembro. Seja discreto mas colabore com a causa da felicidade humana.

 


PATAGÔNIA MENTALIS

Dezembro 5, 2008

 

 

 

          Se eu fosse Deus ou que restou Dele eu diria a todos os humanos sem pestanejar : “ A vida humana é a arte da solidão e da respiração : entendam-se com seus neurônios e seus pulmões”. Seria cruel e displicente e diria mais : “Tudo está fadado ao fracasso. A vida é uma grande ilusão.” Depois de ser devidamente apedrejado ( será que alguém se atreveria a Me apedrejar ?) continuaria o meu discurso : “ A família é uma grande bobagem.”

 

É claro que depois de proferir tais palavras um arco íris de proporções descomunais cobriria todo o horizonte terráqueo. Mas ninguém veria. Como sempre.

 

Destruídas todas as certezas religiosas e científicas, eu deusinho mequetrefe ordinarinho, faria da vida humana algo tão surpreendente e libertário que até os economistas do mercado comum europeu voltariam a ver graça na vida humana. Faria com que seus dinheirinhos hiper valorizados corressem em direção à Patagônia onde fundariam empresas que teriam como parceiros “os tais pinguins antenados”.

 

É claro que os bundões capitalistas do vaticano imporiam restrições severas às negociações com os membros do clã-pinguim-extra-terrestre da Patagônia. Mas neste momento de aparente impasse eu usaria o meu poderoso crachá-deus-cristinho-vale-iluminadinho em favor dos “tais pinguins antenados” e alegaria legítima possibilidade de tudo ser possível.

 

Deus são meus pretéritos.

 

 

 

 


THE BLUE BUS IS CALLING US

Novembro 19, 2008

 

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Eu não sei o que seria de mim se não fosse eu. Tenho segurado as minhas convicções  como um camelo que estoca  gordura em suas corcovas. Não porque eu seja um idealista, um cretino cósmico ou coisa que o valha. Sigo ao pé da letra o sábio conselho do meu mestre ( e quem sabe tio) Fernando Pessoa : “ segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias.”

 

Para cortar caminho e não aborrecer o leitor com atalhos, vou direto ao assunto : os anos sessenta (e oito, nove ) com sua psicodelia, hiper-hippismo (cabeludos andando em cavalos alados), contra-cultura, hendrixismo, Woodstock, lisergia, amor livre, comunidades e o diabo a quatro, estão absolutamente vivos no imaginário de grande parte dos seres vivos.  

 

Ontem recebi um e-mail de uma instituição cultural chamada Casa da Sabedoria :   palestra de um psicanalista refletindo sobre o amor. Dizia o e-mail : “ A dissolução das certezas atingiu, também, o amor. Existirá ainda a possibilidade de amar alguém?”. Li, reli, me imaginei na platéia perguntando ao palestrante se as certezas não foram feitas para serem dissolvidas, o que ele entende por amor e, enquanto deletava a mensagem, pensei na velha e única certeza que é morrer.

 

Hoje é dia 30 de Janeiro ( “como o tempo passa/ mal começou o ano / é já é janeiro”) e sou levado por um devaneio absolutamente inútil : fazer uma retrospectiva do mês que chega ao seu final. Minha memória ziguezagueia atrás de lembranças quentes e chega naquela manhã levemente ensolarada em que minha namorada Rebelde apareceu na minha casa e me presenteou com uma versão lunática de “When The Music Is Over” dos Doors. Naquela mesma manhã eu tinha lido dois aforismos do livro “Dicionário do Diabo” de Ambrose Bierce : “ O amor é uma insanidade passageira, curável pelo casamento” e “ O casamento  é uma cerimônia em que dois se tornam um, um se torna nada e nada se torna suportável”. Troquei com Rebelde “When The Music Is Over” por estes dois aforismos. Inesquecível.

 

A história é absolutamente verdadeira : o filho de dezenove anos de uma querida amiga minha andava deprimido. Numa bela noite ele se abriu com a mãe : “Nasci na época errada. Queria ter sido jovem nos anos sessenta ( e oito,nove)”. E chorou. Dias depois Rebelde, 24, aportou no meu barraco levando embaixo do seu braço fino e sensual o DVD do Festival de Woodstock. Vi e revi e cheguei à seguinte conclusão : ninguém ali estava para brincadeira. Aquela multidão acreditava mesmo naquilo tudo. Aquilo tudo : psicodelia, hiper-hippismo, etc.

 

Mas o fato é que aquilo tudo passou. Ou parece que passou. Olho para a cara da primavera e as flores são as mesmas. Ou parece que são. Mas parece que o tempo ficou devendo uma certa saída incerta. Mas o tempo não deve nada a ninguém. Ele simplesmente passa. E o passado é uma mórbida ilusão.

 

 

Eu não sei o que seria de mim sem mim.  

O resto?

É a sombra de árvores alheias.  

 

 

 

 


OS IMPOTENTES DO SENTIMENTO PRECISAM MATAR O AMOR

Outubro 31, 2008

 

Curioso que o amor tenha chegado quando eu estava distraído e muito bem casado com a Solidão. Sutilmente ele foi me envolvendo, primeiro só aos sábados, depois aos domingos de manhã e, quando dei por  mim, numa quarta à noite, ele já tinha escorraçado a adorável e silenciosa Solidão da minha vida. Sinceramente não acho que ele vá me trazer a Felicidade. Mesmo porque sou absolutamente contra ser absolutamente feliz. Gosto da vida como ela é, oscilante como uma montanha russa, alternando esperança, melancolia, decepção, euforia, frustração, alegria, medo, triunfo, fracasso.

 

 

Existe entre ela e eu, alguns vínculos essenciais para que o nosso amor crie suas asas e se transforme numa nave espacial de dar inveja aos mais astutos e competentes técnicos da Nasa. O principal deles é que estamos plugados no Senso-de-Humor-220-Volts. E ele é o nosso bilú bilú cãozinho que levamos para passear todos os dias. Na verdade, queríamos adotar um tamanduá mas fomos ameaçados de execução sumária por uma destas ongues ecológicas que tem por objetivo não permitir que casais apaixonados possam domesticar este singular mamífero símbolo do surrealismo (ao menos do nosso) e notório viciado em formigas. Portanto, estamos conformados e relativamente felizes com o nosso bilú bilú cãozinho e procuramos, sempre que possível, adicionar à sua dieta uma boa quantidade de formigas na esperança de que um dia ele se transforme num tamanduá. 

 

Existem, é claro, outros vínculos periféricos tais como transarmos muito bem, obrigado, ela sempre tem múltiplos orgasmos e me leva a alturas nunca antes atingidas ( venho batendo sucessivos recordes todas as noites) e depois de nossas fodas repletas de deliciosas palavras de sacanagem, costumamos acender os nossos cigarros e, como aqueles casais de filmes ordinários, soltamos grossos rolos de fumaça de nossas bocas untadas  de líquidos seminias e vaginais enquanto analisamos o nosso desempenho sexual com comentários muito profundos e sinceros tais como : “ sua pica está cada vez mais anatômica na minha buceta” ou “ gosto muito daquele momento em que já não sei quem é você e quem sou eu”.

 

Resumindo, está tudo bem conosco. Com os outros, nem tanto. Explico : o nosso problema, segundo os outros, está na nossa “ diferença de idade”. Ela é bem mais nova do que eu. Digamos que ela nasceu ontem e eu anteontem e que, portanto, sou um dia mais velho do que ela. E eis algo que a fracassada, obsoleta e patética cartilha oficial do amor que normatiza o mais caro, desconhecido, cobiçado e nobre dos sentimentos humanos recrimina com vigor em seu artigo 5, segundo parágrafo, alínea C.

 

Dia destes fui almoçar com um amigo e contei-lhe sobre ela e os nossos planos de estabelecermos residência fixa ao lado de um viveiro de tamanduás do zôo municipal. Ele achou razoável. Contei-lhe também da nossa nave espacial e de nosso evidente talento para quebrar recordes de altitude. Ele achou bastante interessante. Mas foi só eu mencionar a nossa diferença de idade para que ele dissesse as suas primeiras palavras de reprovação. “ Olha, Mantraman, ele me disse enquanto equilibrava no ar uma azeitona espetada num palito, é batata, mais cedo ou mais tarde ela vai te trocar por alguém mais novo.” Argumentei que eu também poderia trocá-la por uma mulher mais nova. E que ela também poderia me trocar por um homem mais velho. E que depois este homem mais velho poderia conhecer esta garota mais nova e os dois virem a se casar. E ele, o meu amigo, ser o padrinho. Inútil. 

 

A instalação do nosso delicioso Parque de Diversões, como costumo definir o nosso amor, vem provocando uma onda de perplexidade, indignação e constrangimento em algumas mulheres à beira dos quarenta anos. Em geral, elas acham que o objeto do meu amor é um pedaço de carne rija e fresca.  Tenho certeza de que, entre elas devem dizer frases do tipo “ o Mantraman está na idade do lobo…”. Mas, convenhamos, ficar apaixonado por um pedaço de carne rija e fresca durante um fim de semana ou uma semana ou, vá lá, um mês, tudo bem. Mais do que isto, é sinal de pouca inteligência e nenhuma noção do que é o amor. O que, definitivamente, não é o meu caso.    

 

Os homens da minha idade, vêem nesta nossa relação sinais de devassidão e de depravação sexual. Devem, em suas mentes impregnadas de erotismo vulgar, imaginar que a nossa cama é palco de cenas dignas de Sodoma e Gomorra. E, pensando bem, eles têm razão. Nossa cama é realmente uma loucura orgiástica, cósmica, onde, como já disse, nos dedicamos com afinco ao alpinismo e à quebra de recordes de altitude.

 

Estas pessoas, que chamei aqui de “outros”, fazem parte de uma manada que Nelson Rodrigues, o maior cronista brasileiro de todos os tempos, chamou de “os impotentes do sentimento que precisam matar o amor”. Incapazes de sonhar com tamanduás, de criar um mundo formigóide asteróide depravóide, elas ficam tentando evangelizar o amor e doutrinar os amantes com suas cartilhas e bíblias furadas. 

 

Nós já temos o nosso parque de diversões devidamente instalado. O que já é um grande passo para nos mudarmos para o zôo municipal. Mas ainda temos muito tempo para decidir. Se vamos ou não. Se é ou se não é. Se já passou ou ainda virá. Só sei que temos todo tempo. O que já é alguma coisa.                


meu amor e eu

Setembro 9, 2008

Percebo que estou cada vez mais apaixonado pela minha namorada. O tempo e o amor. Curioso, penso olhando para seus lindos lábios, como o tempo tem sido construtivo e generoso com o nosso romance. Mas há algo na nossa história que não consigo compreender. Algo que diz respeito a “estar cada vez mais apaixonado”. Como sei que a quantidade de amor que estou sentindo está aumentando? A resposta vem à noite, quando nos abraçamos. Sinto que seu corpo já parece fazer parte do meu. E sinto um calor, ah um calor, que não tem outro nome na linguagem dos amantes que não amor.


SICA PIMPÃO CORPORATION

Setembro 2, 2008

Recebo, à noite, a visita de meu amigo de infância Sica Pimpão. Sica permanece, cinqüenta anos depois, a mesmíssima pessoa. Como não conversávamos ( sobre as mesmas coisas) há muito tempo, conversamos ( sobre as mesmas coisas) durante muito tempo. Acho que se passaram fulminantes e eletrizantes dez horas entre o primeiro olá e o derradeiro adeus. Neste entretempo fiquei sabendo que sua empresa, a Sica Pimpão Corporation, vai de mal a pior. “Todos os funcionários me enganam… ” ele me revelou, a certa altura, “chegam até a fazer reuniões para bolar estratégias para me trapacear…”

O que eu mais amo no meu amigo Sica é o seu senso de humor. Onde quer que ele esteja , estão a graça a alegria e a loucura.

Definitivamente este meu amigo é um homem rico.