Hoje eu acordei completamente apaixonado por você. Abri a janela do quarto e um certo azul invadiu os meus olhos, meu coração, minha alma. Era você. E tenho muitas razões para deduzir que aquele azul translúcido, suave, era realmente você.
Não sei ao certo há quanto tempo estamos namorando, acho que dois anos, dois meses, um dia, tanto faz… O fato é que o tempo parece ter se tornado nosso grande amigo pois ele só faz com que eu goste cada dia mais de você. E, mesmo sabendo que a razão não mora no coração, tenho em mim alguns indícios de que estou falando a verdade : repare só como o nosso amor é leve, bem humorado e livre.
Em nenhum momento você me disse o que eu deveria fazer, para onde ir e, o que é mais incrível e apaixonante, aonde eu fui. Desde sempre eu venho lhe dizendo : vamos fugir das fórmulas convencionais do amor, aquelas que aprisionam, que neurotizam, adoecem. E parece que é exatamente este o caminho que estamos seguindo. Entre nós dois, não há tragédia, é só diversão e rock and roll.
E como é bom o rock and roll ao seu lado. Juro, não é loucura minha. Escutar Mutantes com você, por exemplo, é diferente do que escutar sozinho. Esta sensação me traz uma espécie rara de amor, o da cumplicidade, da afinidade sangüínea, da companheira andando na mesma estrada. E não é só Mutantes, é Led Zeppelin, Hendrix e toda aquela cultura descabelada dos anos 60 que nos une como dois irmãos.
Hoje eu acordei com muita saudade de você. Pensei em lhe telefonar, ir vê-la no seu trabalho, qualquer coisa, mas deixei a saudade entrar no meu coração e assim que consegui abrir os meus três olhos comecei a escrever esta carta para você.
Neste momento, parece que você está aqui ao meu lado emanando um daqueles seus “súbitos sorrisos” tão surpreendentes quanto aqueles asteróides que riscam as noites estreladas. Eu sempre lhe digo : “ Rebel Woman, você sabe algo que ninguém mais sabe…conta prá mim?”. E você, ah você sempre me responde com aquele “sorriso súbito”, raio de sol rasgando o meu peito.
Quando tento pensar em nós dois num plano mais futuro, não consigo enxergar absolutamente nada. Acho mesmo que não temos futuro ( que sabedoria!!!) e por isto estamos cheios de presente. Mas não é qualquer presente : é um presente luminoso, harmônico, repleto de diversão, rock and roll e nuvens psicodélicas, como você, minha adorável Carolex.
Estou com um pressentimento de que nos encontraremos hoje à noite. Não tenho nenhuma ansiedade, só saudade. Sinto falta dos seus lábios. Da suas pernas. Do seus cabelos. E do seu jeito de me olhar. Porque você tem um jeito muito especial, muito seu, singular. E eu estou apaixonado por este seu jeito. Quero que você me aqueça neste inverno, Rebel Woman.
E que tudo mais vá pro inferno.
Escrito por mantraman 
Escrito por mantraman
O fato se deu no começo do ano passado : estava em minha casa praticando levitação quando o telefone tocou. Era Macro Céfalo, o lunático e excêntrico editor da revista de viagens Pirlimpimpim onde trabalho como repórter. “ Mantraman, esteja aqui em quinze minutos. Traga bagagem para viagem de uma semana.” Com o Macro é sempre assim, tudo para ontem. Lá chegando, ele estava com um envelope na mão e, como sempre, foi suscinto e direto : ” É o seguinte : estou desconfiado de que a Bulgária é um país imaginário. Em meus quarenta e tantos anos de vida nunca conhecí um búlgaro e tampouco alguém que tivesse ido à Bulgária. Vai lá e confira se este país existe ou não.” E sem mais delongas, entregou-me o envelope com o meu passaporte com o devido visto de entrada e uma passagem aérea para Sófia, capital do referido país.
Escrito por mantraman 