82, NEON

junho 2, 2012

1.982 foi o ano em que a maioria e as mais importantes bandas da chamada geração do rock dos anos 80 surgiu.  É a data que marca os primeiros shows de Ultraje A Rigor, Ira, Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana, Gang 90, dentre outras. Neste depoimento autobiográfico o ex-titã Ciro Pessoa recapitula como eram os bastidores do início deste movimento que até hoje ressoa nas veias da música brasileira.  

Na noite em que fiz 25 anos de idade as estrelas do céu de Lumiar zuniam e rodopiavam como bailarinas russas afetaminadas. Eu estava deitado sobre uma planície esverdeada ao lado da minha namorada carioca. Minha mente, contudo, transpunha com agilidade de Nijinski a formidável lua cheia, as nuvens, o espaço e espatifava-se sobre uma iluminada Avenida Paulista. 

Estava morando no Rio há três meses, meu romance tinha esfriado e nas duas últimas semanas estava obcecado por um projeto musical que tinha nascido em SP há menos de seis meses e atendia pelo nome de Titãs do Iê Iê Iê. Esta obsessão tornou-se insuportável desde o dia em que o meu chefe na agência de publicidade que trabalhava num prédio antigo da Cinelândia, me mostrou a gravação de algumas faixas de um disco de um certo Lobão. Meu chefe era o letrista deste projeto e chamava-se Bernardo Vilhena. O disco era o Cena de Cinema.

 

Rock direto com alguma influência punk, power trio comendo solto, a voz rasgada de Lobão, tudo isto acabou me abrindo o apetite para voltar para minha cidade e reunir Arnaldo, Belloto, Marcelo, Paulo, Branco, Brito, Nando para uma jornada em mar aberto. Em menos de quarenta e oito horas já estava na porta da casa dos meus amigos Eduardo Elias e Paulo Millani, na Vila Mariana. Os dois se aliaram ao projeto imediatamente e criaram condições físicas para que ele se desenvolvesse.                                                                               

Éramos então um bando de hippies que fumava maconha, flertava com a cozinha macrobiótica, ouvia reagge e MPB e sonhava com um mundo power flower que já tinha ido para o abismo há muito tempo. Mas tínhamos uma banda e dentro da banda havia uma camaradagem e um fluxo criativo bastante intensos. Naquele inverno de 82 nos trancamos durante quatro meses no estúdio improvisado dentro de um galpão daquela antológica casa da Vila Mariana e de lá só saímos para estrear no Sesc Pompéia no dia 15 de outubro de 1982.

 Foi só então que tiramos ( eu ao menos) nossas cabecinhas do fundo da terra e olhamos em direção à superfície. Ao redor começaram a surgir nomes como Ultraje a Rigor, Ira, Agentss, Barão Vermelho, Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens, Paralamas do Sucesso, Blitz. Nomes tão estranhos como o nosso e afinados na mesma idéia : criar uma nova linguagem musical que enterrasse o ramerrão que era a música no Brasil naqueles idos. 

Uma ou duas semanas depois de nossa estréia fui ver o Ira tocar pela primeira vez num teatrinho mequetrefe do Bixiga. Quando o show acabou percebi claramente que havia algo em curso. Fui falar com os caras e ouvi a expressão “atitude punk”, acho que foi do Edgard Scandurra. Tudo naquela apresentação  parecia ser muito urgente, enérgico e novo. Adorei. E fiquei a fim de me tornar amigo dos caras. O que acabou acontecendo.

 

Na semana seguinte conheci o Julio Barroso. Minha namorada paulistana já tinha me falado dele como dj –  era sua assistente nas suas discotecagens pelos nascentes clubes new wave de São Paulo. Ela marcou um encontro com ele num boteco da Alameda Ministro Rocha Azevedo, à tarde. Era novembro e o calor chicoteava o asfalto da cidade criando ondas negras e musgosas. De repente, gigante, ele surgiu por entre os carros, entrou no bar – parecia louco, alegre, bêbado – com um livro de Ezra Pound embaixo do braço, desconcertante, falante, carioca, canibal.

                                                                                                                                          

Naquela tarde ele me falou sobre o disco que estava gravando com sua banda Gang 90 e As Absurdetes e, entre cusparadas de perdigotos com recheio de cerveja, cantou várias letras “ já foi assim / mares do sul/ entre jatos de luz / beleza sem dor / a vida sexual dos selvagens” ( “isto é tirado do conceito de inconsciente coletivo do Jung!!!” ele berrava) e me falou de dezenas de bandas que nunca tinha ouvido falar.  B’52, Kid Creole and the Cocnuts Girls, Gang of  Four, Devo, Talking Heads e muitas outras.  

A poucos metros daquele boteco surgiria, um mês depois, o Hong Kong, um night club capital para que o rock dos anos 80 decolasse. E quem estava à frente do empreendimento era o Júlio. Por ali passaram várias bandas. A pista de dança era um verdadeiro supermercado de sons novos, cabelos coloridos e drinks efervescentes. Como toda decoração desta época, o neon aparecia no luminoso principal, nos frisos dos balcões e na decoração das paredes. 82, neon. A cocaína era rara mas já começava a colocar suas garras brancas e brilhantes para fora. Garras que se tornariam tatuagens em poucos anos. 

Apesar de fazer parte de uma banda,  Júlio tinha uma visão ampla do que estava acontecendo. Queria trazer as bandas do Rio para São Paulo e vice-versa. Conhecia todas, gostava de todas. Era um especialista em achar muquifos parasitas e torna-los lugares vivos e vibrantes. Foi assim com a obscura boate Val Improviso no Largo Arouche, local frequentado por gays e travestis e que, graças à sua perspicácia, tornou-se um dos lugares mais emblemáticos daquela época. 

Seu lema era a máxima maikovskiniana “prefiro morrer de vodka do que tédio”. E eis algo que ele levava a sério. Era raro encontra-lo sóbrio. Numa noite saímos pelos bares mais sórdidos do centro de SP e ele, mesmo cambaleando, continuava a beber e a provocar discussões e terremotos por onde quer que passasse. No dia seguinte fui leva-lo para o Aeroporto de Congonhas onde voaria par o Rio e no caminho ele me confessou “porra, Cirinho, não lembro de nada do que aconteceu ontem…”. 

                                                                                              ooooooooooo 

Longe dos Jardins, dos neons e dos aromas de perfume francês, um outro universo se erguia vindo da periferia. Era o movimento punk. Nós vínhamos da comportadíssima e hippie MPB e não entendíamos direito o que eram aqueles cabelos moicanos, alfinetes rasgando a boca, coturnos e, sobretudo, aquele som gritado, com letras visceralmente políticas.

Meu primeiro contato com esta tribo foi no festival O Começo do Fim do Mundo no Sesc Pompéia em novembro de 82. Naquela tarde tumultuada, caótica, se não entendi, senti o que era “atitude punk”. Era como se eu estivesse num outro planeta, onde os punks eram os alienígenas. Uma multidão de extravagantes bestas. No palco, as bandas Cólera, Inocentes, Ratos do Porão pareciam envolvidas num torneio para ver quem gritava mais. O vocalista de uma das bandas, acho que Juízo Final, esgoelava uma palavra de ordem “Morte aos hippies!” enrolado numa bandeira do Brasil. Meus cabelos na época eram compridos e, à medida que a palavra de ordem ia se encorpando e ganhando força, fui saindo de fininho. Quando estava indo embora vi uma tropa de choque da Polícia Militar chegando. Soube depois que o pau comeu solto. E aquilo, creiam, era rock and roll.

 

A relação entre as bandas punks e as chamadas new waves, rótulo em que  nós éramos incluídos, não era das melhores. O termômetro desta “diferença” se deu com o nascimento de uma nova boate no centro de São Paulo com o sugestivo nome de Napalm. Ali, de maneira inédita, punks e new waves ocupavam o mesmo palco, a mesma pista, o mesmo balcão. Fizemos um show lá. Lembro-me que parte da platéia, na sua maioria punks, ficava de braços cruzados balançando a cabeça negativamente. Foi o primeiro lugar em SP que o Legião Urbana tocou. A seguir, já em 83, as bandas de Brasília começaram a aportar de maneira sistemática em terras paulistanas. E todas passaram pelo Napalm.

                                                                           

Então, em dezembro de 82, tínhamos este panorama. Dezenas de bandas – muito diferentes entre si – procurando lugares para tocar, estúdios para ensaiar e gravar. E os estúdios eram terríveis, vivíamos num país completamente despreparado para este tipo de som. Gravar um bumbo com potência numa gravação era um suplício. Era preciso enviar um requerimento em duas vias, carimbo, depois voltar, entregar no guichê. E esperar a boa vontade do técnico de som. 

Todas as bandas eram amadoras. Não me lembro de ter ganhado algum dinheiro com música neste ano. Acho que ninguém ganhou, aliás. Dinheiro veio dois anos depois. E para a maioria destas bandas, choveu durante duas décadas. Para outras ainda continua chovendo. Mas a grande maioria delas já passou. Como o neon. Ninguém usa mais.


ROUBEI A PERUCA DE JESUS

novembro 15, 2011

 

30/01

 

O negócio é tocar a bola e esperar o juiz apitar o fim do jogo. Definitivamente, não há sentido nenhum nesta partida. Tive um dia e uma noite intensos. Agora são cinco e meia da manhã e ao invés de estar dormindo como mandam as normas de segurança da longevidade estou aqui refletindo sobre o que vivi nas ultimas vinte e quatro horas. Sinto-me um operário padrão da inutilidade. 

 

6/02

 

Parece que o verão finalmente chegou. Parece. O que seria de mim se me dessem um ano de contas pagas? Hoje de manhã ruiu minha última ilusão financeira : a sra. Beatriz, incisiva, decidida, negou-me adiantamento por obra futurista. À tarde, antes da chuva luminosa e transversal, a visita de Lú, minha penúltima ilusão amorosa. Agora, noite, a poesia, ilusão definitiva. Preciso urgentemente reconhecer o meu lugar no mundo formiga.

 

 

 18/07

 

Semana passada ganhei um troféu. Curiosa sensação. Como sempre, fui à cerimônia de prêmiação para perder. E, no entanto, voltei para casa com a estatueta. Passado o delírio de subir ao palco e receber a arvorezinha de metal, fui tomado por um êxtase egóico sem precedentes. Afinal, era a sociedade coroando meu esforço de escriba. Nada mais importante do que escrever num escritório com o aval da sociedade. Estava ficando inseguro.

 

 

23/09

 

Voltei a usar a substância que produz sede saárica.

 

 

19/04

 

Tudo começou quando conheci Spyder, o poeta beat-metafísico português que tinha no seu currículo venda de psicotrópicos para entidades como David Bowie e Iggy Pop. Era como se eu estivese conhecendo alguém que já conhecia há milênios, o Spyder. Junto com ele, Severa, uma garota sensacional com uma história sensacional. Precoce, roubou a peruca de Jesus com apenas 16 anos de idade.   

 

 

29/12

 

O roubo da peruca de Jesus criou alento e inspiração para fundação de um fanzine que batizamos de Roubei a Peruca de Jesus. Severa seria a editora, Spyder cuidaria da editoria espírita usando o codinome Gasparzinho, Repepê, o proprietário da nascente mas promissora empresa Companhia das Águas ficaria à frente da editoria de esportes, e eu acabei ficando com o suplemento agrícola que achamos por bem ser verde e roxo e com uma coluna permanente de Nelson Ned.

 

 

02/07

 

 

O maior perigo reside na doença, no sofrimento que a doença produz. Para evitar a armadilha passei a evitar falas médicas e e me entreguei de cabeça a auto-sugestão. Quando a mente está alerta os vírus entram em pânico.

 

 

12/13/14/06

 

Foram três dias de intensas ilusões. A primeira chamava-se Cláudia e era alta, loira e bela, muito bela. Tê-la era uma questão meramente estética. A segunda foi Tereza que além da beleza tinha o atributo precioso da loucura. Tê-la era aventurar-me em paisagens inauditas. A terceira, Fernanda, beleza, loucura e poesia. Tê-la era ter-me. No quarto dia caí em mim.

 

 

23/04

 

 

Hoje parecia domingo. E era. Para mim, indiferente. As mesmas dúvidas de sempre. Porque preciso de alguém para amar e ser amado? Onde esta esfinge foi erguida e nublou a minha visão da felicidade? Em que ponto da nossa história genética este berro virou um barro totêmico? Hoje parecia domingo. Mas não era. Era mais um dia de dúvidas. Como todos.  

 

 

31/03

 

 

Súbita e atroz saudade de Fratelo.

 

 

02/01

 

Ninguém me procurou. Todos de férias. Da minha insensatez. Não vejo mais caminho de volta. Roubei a Peruca de Jesus pode vir a ser minha nova ilusão, meu libelo a favor das libélulas. Algo como pilotagem divertida num kartódromo psicodélico. Vou convidar Gracita para usar a peruca de Jesus por uma semana.

 

 

22/07

 

Acordei com o firme propósito de encontrar o tempo perdido. Saltei da cama em estado de rara animação e procurei-o nas gavetas e dentro dos livros. Inútil. Quando a manhã ensolarada já ia alta, arranquei o meu coração e interroguei-o a respeito de um certo tempo que havia perdido. Em vão. Disposto a chegar às últimas consequências liguei para o Homem do Tempo. Ocupado. Deseperado, acionei os astrofísicos da Nasa. Nada. Quando tudo parecia perdido o telefone tocou. Era ele.

 

 

17/11

 

 

Spyder me liga de madrugada com a péssima boa nova : Severa, a nossa editora do Peruca, está em poder da Farcs (Futurismo Aéreo Rebelde ao Cone Sul). Indago-lhe o que ou quanto estão pedindo para libertá-la. Pode parecer absurdo mas os caras querem, simplesmente, ficar com a peruca de Jesus para sempre. Pondero para Spyder que isto seria o fim da nossa última e mais preciosa ilusão. E peço para que ele negocie-me como refém dos terríveis pinguins da Patagônia Mentalis por tempo indeterminado em troca da liberdade da Peruca de Jesus.   

 

 

16/11

 

Intuindo que a situação da Peruca de Jesus poderia agravar-se, uso de todos os meus precários dons para alianças políticas e resolvo procurar por Aline Dorel, a famosa atriz e deusa viva do cinema de todos os tempos e direções, espécie de eminência inquestionável para questões ligadas à Peruca de Jesus. Depois de muitos contatos telefônicos, localizo Aline num set de filmagem em Cairo contracenando um filme com Charlton Heston com o nome provisório de “Os 10 Mandamentos”. Explico-lhe, aflito, a gravidade da situação. Com a voz um tanto lenta ela me pede um tempo para resolver a questão. Antes de desligar o telefone ela tenta me tranquilizar alegando que conhece como poucas a Peruca de Jesus.

 

 

05/09

 

Mais uma noite de contrasensos. Por mais que eu tente recuperar uma postura de seriedade e continuidade que nunca tive, sou sempre surpreendido pelo acaso e seu sorriso.

 

 

09/11

 

Intuindo a gravidade da situação mudamos para Piracicaba. Longe do tumulto metropolitano traçamos estratégias a fim de libertar Severa. Contudo, súbita e avassaladora paixão de Aline Dorel pela Peruca de Jesus inviabiliza nosso plano. Para piorar a situação, Spider apaixona-se por Aline. Repepe tenta remediar o caos internando-se numa fábrica de suco de cajú. Sólido como um gelo alio-me a um pinguim especialista em desatar nós.

 

 

14/08  

 

Silenciosamente chove sobre o tempo.

 

 

8/03

 

Teste de resistência e fidelidade aos ideais do Peruca de Jesus. Vigiados pelas autoridades locais e pressionados pelas quatro estações e seus efeitos devastadores, presenciamos o nascimento dos 32 filhos de Aline com Peruca de Jesus e a súbita e surpreendente falência da competente fábrica de suco de cajú que livrou Repepe do caos. Colômbia marxista nos envia Severa de volta pelo correio. Irreconhecível, quer transformar o Peruca numa fábrica de biscoito de milho. Percebendo sua ausência, enviamo-a de volta para Colômbia anexada a um livro de Clarice Lispector. Spider emotivo chora pela devolução.  

 

 


AS CARCAÇAS DE NEANDERTHAL

novembro 10, 2011

Toda vez que estou encalacrado num veículo em meio a um mega congestionamento lembro-me daquelas maravilhosas espaçonaves que levitavam felizes e coloridas nos céus do antológico desenho animado Os Jetsons. É flagrante que muitos daqueles atrevimentos futuristas que habitavam o cotidiano da família, como as extensas esteiras rolantes horizontais, serviram de inspiração para inventores, designers, arquitetos e engenheiros contemporâneos. Mas no tocante aos veículos, ficamos com a opção mais primitiva e ineficaz que são estes automotores rastejantes que se procriam pelas ruas das grandes cidades numa velocidade prá lá de geométrica.

 

Sabe-se que a velocidade média de um carro que trafega hoje nos centros urbanos é inferior à velocidade que andavam as caravanas dos bandeirantes com seus jumentos e botas de Borba Gato. E que só na cidade de São Paulo cerca de 40 mil pessoas morrem por ano por problemas decorrentes de doenças respiratórias provocadas pela enxurrada desumana de monóxido de carbono que estas carcaças de neanderthal despejam diáriamente na atmosfera. Mas por que, oh santos escapamentos & direções hidráulicas!, a indústria automobilística no Brasil continua batendo seguidos recordes de venda de seus anacrônicos, criminosos e nefastos produtos? 

 

Em todas as grandes cidades do primeiro mundo o automóvel tornou-se um “veículo non grato”. Uma repórter televisiva que mora em Nova York, disse numa entrevista que ter carro nesta cidade hoje em dia é considerado algo de extremo mau gosto. Usou mesmo o termo “jeca”. Um amigo meu fez um vôo entre Londres e Oslo, há poucos dias atrás. Contou-me que quando os passageiros chegaram no estacionamento do aeroporto da capital norueguesa, mais da metade foi embora de bicicleta. Sendo que ali havia, à disposição dos passageiros, ônibus, metrô, trem e taxi. 

 

 

Bem, diriam os realistas, quem comanda o jogo é o capitalismo, quem comanda o capitalismo é o mercado e quem comanda o mercado são os empresários, feitos de carne e osso, diga-se de passagem. E todos que fazem parte desta “ciranda” – incluindo sindicatos, trabalhadores, os novos consumidores, governo e, sobretudo, os publicitários – parecem muito felizes com o andar desta carruagem putrefata. Cada qual com o seu interesse. Interesses, que, aliás, estão interligadas.

 

A impressão que tenho é que 50% das propagandas exibidas na TV são de automóveis. É algo absolutamente desproporcional. Um desavisado estrangeiro que chegar aqui e assistir meia hora da nossa programação vai achar que o brasileiro é um louco aficcionado por automóveis e que só pensa nisto 24 horas por dia. Há de se notar que nestes filmes, os veículos são humanizados, glamorizados, mitificados, tudo no limite da histérica idiotia. Eles sempre andam em alta velocidade em estradas e cidades vazias e o mundo sempre está aos pés de quem os dirige. Em suma, gera uma sensação de que se você não tem um não é ninguém. E é possível detectar esta cruel falácia quando andamos pelas ruas no papel de pedestre. A grande maioria dos motoristas vê o transeunte como alguém que não é ninguém. Atropelamento é algo corriqueiro. É a própria expressão da barbárie.  

 

Soma-se a esta crueldade perpetrada pelo mundo publicitário, feita de ilusão e de mentira, o evidente descaso dos governos com transportes públicos. É absolutamente patético que um passageiro desembarque no Aeroporto de Cumbica, na segunda maior cidade da América Latina, e tenha só duas opções de deslocar-se, de taxi ou de ônibus ( que saem de uma em uma hora e custam o olho da cara). E que depois siga por uma via como a Marginal Tietê ladeada por um rio cadavérico e tendo como companhia milhares de carros que andam a menos de cinco quilômetros por hora, quando andam. No rio, nenhum sinal de vida. Nenhuma barcarola.  Nada. Só desolação e descaso. 

 


ERA UMA VEZ UMA BULGÁRIA

novembro 1, 2011

Lembro-me com uma distorcida nitidez da noite em que ouvi pela primeira vez o nome de Campos de Carvalho. Estava jogando bilhar num daqueles botecos ladrilhados da Cardeal Arco Verde quando um acaso favorável fez com o que o poeta Sérgio Cohn, então editor da sensacional revista de poesias Azougue, adentrasse o ambiente. Disse distorcida nitidez : lembro-me que chovia e que ainda estávamos no conturbado século XX. E que as esferas coloridas ricocheteavam provocando um ruído estridente, agudo. Acho que os ladrilhos eram brancos. E que o Sérgio estava de óculos. Pouco importa.

Sentamo-nos numa mesa e ele me contou que tinha acabado de entrevistar o Campos de Carvalho. “ Quem?” “O maior escritor brasileiro de todos os tempos!” “Como? Nunca ouvi falar deste cara…” Me parecia impossível eu não conhecê-lo, principalmente porque Sérgio repetiu algumas vezes durante o intenso diálogo que  “o texto de Campos tem tudo a ver com você…”. Comecei a achar que era ficção. É normal em conversas entre poetas e escritores estes legítimos delírios onde inventamos alguém que nunca existiu para ver até que ponto conseguimos convencer o nosso interlocutor.  Já estava com a cereteza de que era alvo de uma destas brincadeiras quando pedi-lhe para que dissesse alguma frase do escritor. “ Aos dezesseis anos de idade matei meu professor de lógica alegando legítima defesa.” Houve um silêncio. Aquele silêncio que se segue após uma porrada, um forte estrondo, uma tempestade. “É a primeira frase de “A Lua Vem Da Ásia”, uma de suas quatro novelas” disse Sérgio emoldurando meu encantamento.

Depois daquela noite posso afirmar que eu nunca mais fui o mesmo. Um ano depois a editora José Olympio lançaria um livro com as tais quatro novelas ( A Lua Vem Da Ásia, Vaca De Nariz Sutil, Chuva Imóvel e o Púlcaro Búlgaro) e eu me tornaria um discípulo e divulgador emérito da obra de Campos de Carvalho. Me deixei influenciar pelas suas idéias, sua maneira livre e louca de escrever, seu surrealismo intransigente e iconoclasata, seu senso de humor sarcástico e dilacerante. Passei alguns anos devorando aquelas iguarias non-sense-insanas e procurando digeri-las no calor dos textos que escrevia.

Nesta época trabalhava como repórter de uma famosa revista de turismo. Tinha um bom trânsito com os editores e redatores e minhas pautas, embora atípicas e excêntricas, eram aceitas com facilidade e simpatia pela direção da revista. E foi munido deste cacife que entrei numa reunião de pauta e disse-lhes o seguinte : “ Alguém precisa ir à Bulgária e comprovar a existência deste país. Até onde sei, ele não existe.”  Houve uma nervosa gargalhada e a seguir o editor, com uma expressão “este cara vai aprontar, mas vamos ver onde isto vai dar” aprovou a viagem. A pauta, na verdade, vinha de o Púlcaro Búlgaro, uma das quatro novelas de Campos de Carvalho. Na vertiginosa narrativa de aproximadamente cem páginas, o personagem organiza uma hilária e absurda expedição à Bulgária a fim de certificar-se da existência daquele país.

Dias depois estava no avião em solitária expedição rumo à Sófia, a capital do controvertido país. Munido de uma câmera digital e embriagado do espírito surrealista de Campos de Carvalho entrei na fila que me levaria ao Bigode do guarda de fronteira búlgaro e a seguir à possível constatação da existência do tal país. Enquanto esperava minha vez, observava um tapume de madeira que dividia a rua do Aeroporto. A parte inferior deste tapume era vazada o que tronava possível ver sapatos de “cidadãos búlgaros” transitando pela suposta calçada. “Onde há búlgaros há Bulgária”, pensei.

Mas os secretos desígnios que conduzem nossos passos me guardava uma surpresa. Ao abrir meu passaporte o policial olhou-me com assombro e, num inglês típico da região, informou-me que a data do meu visto de entrada estava prevista para dali há quatro dias. E que eu não poderia entrar naquele momento, mas se quisesse poderia esperar na sala de embarque durante os quatro dias ou retornar a Milão, de onde tinha vindo. Olhei para a desolada e gelada Sala com seus sofás e bancos de couro imundos. A tempertaura local era de menos dez graus. Nevava.

Disse-lhe que era repórter de uma revista brasileira de turismo e que estava ali a trabalho. Ele então conduziu-me até uma sala, onde fiquei esperando um funcionário que trataria da minha situação. Neste ínterim de quinze minutos lembrei-me de que a maioria da polícia secreta da ex-União Soviética, a terrível KGB, era composta de búlgaros. Tremi. Então chegou o tal Nariz, o funcionário, acompanhado de mais três mulheres, todas Narizes. “Para quais lugares da Búlgária que você pretendia ir?” perguntou-me já me informando no verbo “pretendia” que eu não entraria no seu país.  

Neste momento eu já tinha entendido que a minha matéria estava em pleno curso, a pauta funcionava, policiais de fronteira búlgaros queriam ocultar de mim a não existência da Bulgária. Respondi-lhe que meu objetivo era “andar sempre frente sob a neve até atingir o Mar Negro.” Ele se sentiu ofendido e retorquiu nervoso “ mas porque você  foi mandado pela sua revista justamente para a Bulgária?” . E esta era a perguntava que eu mais esperava. “ Porque no Brasil há uma desconfiança quanto à existência da Bulgária.” . Imediatamente ele apontou a porta de saída e, acompanhado de dois Narizes masculinos e um feminino, fui jogado no ônibus que me levaria até o avião.

De volta à Milão, bolei um plano para atingir o misterioso país de trem. Dei-lhe o jocoso nome de “Pegando Os Búlgaros De Calça Curta”. Mas fui capturado na fronteira da República Tcheca e deportado para a Áustria, país que não via nenhum mal no fato de um repórter brasileiro desconfiar da existência de um outro país. Em Viena tomei oito cafés com o embaixador brasileiro daquele país enquanto ele não resolvia absolutamente nada e me tratava como seu eu fosse búlgaro e conheci uma garota de programa. Relatei-lhe minha brava saga que já durava três dias. Ela fingiu uma comoção. E abriu suas alvíssimas pernas.

O resto, bem, o resto é segredo


PAULA E SANDRIX

outubro 18, 2011

Em novembro do ano passado fiquei 15 dias sem falar. Estava cansado do meu repertório, dos meus pensamentos verbalizados, de ter que emitir opinião sobre tudo e todos, enfim, minha língua exigiu férias e resolvi atender ao pedido. Embarquei em um navio rumo a um lugar que chamei de Patagônia Secreta.

No décimo dia de navegação, resolvi fazer fotos sobre o meu silencioso cotidiano. E, entre imagens do altar diante do qual meditava, dos músicos que ouvia, dos alimentos que preparava, apareceu uma foto de duas lindas árvores moradoras do Bosque das Árvores Flutuantes, onde caminhava (e caminho) toda manhã. É bem verdade que eu já as conhecia antes de fotografá-las. Mas, quando descarreguei as imagens no meu computador, fui tomado por um sentimento inédito. Percebi que estava apaixonado por aquelas duas árvores flutuantes. 

Quando fui legendar as fotos, seus nomes apareceram na minha mente como que por encanto: Paula e Sandrix. Decidi achar que eram duas árvores primas e que há séculos flutuavam sob a lona encantada do Bosque. Desde então, passei a dispensar um tratamento diferenciado a Paula e Sandrix. Toda vez que me aproximo das duas, meu coração parece acelerar ligeiramente, como se eu estivesse indo ao encontro de uma pessoa que amo muito. Desacelero o meu passo e, enquanto tenho aquela sensação absolutamente nova para mim, caminho em direção às duas cheio daquelas palavras que nascem no coração e viajam quentes até explodir na boca.

Primeiro namoro a Paula, que me parece ser mais velha e, portanto, mais sensível às minhas declarações amorosas. ‘Como você está sublime hoje, minha linda Paula…’, sussurro-lhe enquanto acaricio de leve com meus dedos a grossa casca que envolve o seu corpo inferior. Encosto meu ouvido no seu tronco e sorvo todo aquele secular silêncio de seivas que grita em seu interior. Em dias de chuva, ela exibe o verde cintilante aveludado de seus musgos e eu toco com meus lábios aquela pele acetinada. Sinto, e isso pode parecer loucura, e pode ser que seja, não importa, que ela percebe a minha presença calorosa, afetiva, e troca, a seu modo, carícias comigo.

Mas logo percebo que Sandrix, a mais jovem e inexperiente, começa a sentir ciúme, um ciúme que parece vir muito mais da saudade e do desejo de ser tocada do que do doentio apego e do meu namorico com Paula. E lá vou eu em direção a ela, envolvê-la em meus braços silenciosos, ‘você tem a elegância de uma princesa, Sandrix’, digo-lhe entre um e outro beijo. Então sento-me sobre suas raízes que invadem a pequena estrada de terra onde as duas moram e assobio uma melodia qualquer, tentando me fazer passar pelo vento. Suas folhas vibram, contorcem-se e, quase sempre, uma delas acaba caindo próxima do meu corpo.

No começo de nossa relação, o ritual durava alguns intensos e mágicos segundos. E quase sempre acabava quando alguém se aproximava de nós três: tinha vergonha de que algum ser humano me flagrasse aos beijos com duas árvores e, disfarçando, saía de fininho com ares de um biólogo profissional. Hoje em dia, contudo, perdi o medo de ser tomado por louco e não são poucos os que me vêem abraçá-las, beijá-las e sussurrar-lhes juras de amor em suas cavidades eróticas.

Esse triângulo amoroso, eterno como o espaço, desprovido de apego, cobranças e outros vícios de linguagem do mundo amoroso humano, está completando um mês. Pressinto que enquanto estiver vivo e morando na mesma cidade, hei de vê-las, abraçá-las e beijá-las todos os dias. Não sei o que elas sentem, pensam, esperam de mim. O mais provável é que seja nada. Um nada cheio de mistério. O que sei é que Paula e Sandrix são minhas duas amantes num reino onde a pureza e a imaginação são soberanas.


DESPEJAR & SAGA DA FORMIGA-CABEÇA-DE-DALI

junho 30, 2011

http://www.youtube.com/watch?v=Z936JizODV4

 

O Homem Cabeça de Pêssego…


junho 22, 2011

Escuta Melissa : basta uma palavra para destruir o sólido edifício da calma. Esta noite eu tive um sonho, vi a Lua cair num prado. Ela não entendeu o sentido da palavra calma. Recorremos ao arquivo : no fichário de ensaios encontramos uma curiosa tese macunaíma-kamikase que comparava Torquato Neto a Mishima. Pensamos num tema mais sólido : abordar a nossa imperfeição e escrever uma crítica de comportamento. Argumentei : a calma é o passo que nos conduz ao abismo. Ela torceu o nariz ( “a felicidade dos homens é a origem de seus sofrimentos”). Escuta Melissa : as paredes estão se fechando. Existe um mito que diz “vida e arte”. Quanto mais forte for a porrada mais (eles?) gostam. Meus contemporâneos esparsos pelo espaço e pelo tempo. Da inacessível montanha que nenhum homem ainda ousou tocar aos prados incendiados pela Lua que caiu.  Escuta Melissa : esta noite eu tive um sonho que só agora me lembrei. Levantou-se uma cortina à minha frente e o espetáculo da vida infinita converteu-se num túmulo eternamente aberto. Ela disse que gostava destes homens que colecionam baús. Nossa vitrine apedrejada pelos bárbaros. Em cima de nossas cabeças dançava um céu sem Lua / túnel sem luz / a redoma estava completa. A chave era a palavra calma. Ela insistia numa idéia de alegoria-labirinto. Isto me parecia extremamente matemático. Foi se tornando cada vez mais difícil o combate com as forças geômatras dos imbecis. Eles equalizavam suas idéias em gráficos. Nunca supus que fosse passar meus verdes anos em meio a tantos números e telas. Sómente num ponto estivemos de acordo : aquele objeto branco espumando neblinas era a Lua. Seguir por ali significava encontrar com Virgílio em selva escura. (Pela última vez provaríamos do perigo). Escuta Melissa : três da tarde é muito cedo para estar tão cético. Olhe pela janela : não há nenhum mistério essencial que possa ser desvendado de imediato : do desconhecido Oceano ao pó do mais insignificante deserto. Ela me corrigiu com acerto. O que seria do mundo sem o amor? No arquivo das baratas : eles equalizavam suas forças em gráficos.     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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