A VOLTA DA LINHA DA NÉVOA

Novembro 13, 2009

                                         PSSARO~1                                                                                                                                           

 

 

 

 

 

 

um pássaro encontrado por detrás da vidraça – pode ser uma semente se insinuando ou ser simplesmente um pássaro – mas revela algo em sua linhagem mágica este pássaro feito de glórias do sol e do eterno encanto inatingível – como as crianças – e os rios – e as sereias – dor e esplendor

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               contudo há um universo interno pleno de cometas & neurônios que nos diz “ bondade , bondade”um quase sussurro vindo de uma criança iluminada em sua noite de dragões e jogos – linda noite de encantos     

 

um pássaro – seu peito cheio de um som amarelo – uma bússola sim orientada por um som inaudível para nós – e logo a seguir a segunda borboleta laranja da noite , um céu de lírios iluminado por um solzinho cantante – um rio , uma pedra – esplendor e só esplendor

 

entra um som , uma voz , um ruído , no mais profundo da alma , tilinta , um sopro feito de luz , tingido na mais negra tinta da noite , vivo , circulante , abrangente , fluxuoso , bondoso , enigmático , estrito , preciso , tenebroso em todo seu furor de ambiguidade , duas margens insinuando a terceira , borboleta – noite riscada no calendário das vertigens , é claro


A ESMO NA SAÍDA DO PÂNTANO

Outubro 29, 2009

dv-fernando%20pessoa 

 

quem tem dá pra quem não tem – fernando pessoa tomava absinto a pensar em suas diversas vidas – e daí que o cérebro é um relógio de cuco intergaláctico? – oh pessoa como sintonizo sua solene histeria transpassando o tejo em direção ao atlântico até ganhar o espaço ticket to ride

o comedimento tem produzido excelente panquecas – um coração frio é capaz de empilhar garrafas vazias de uísque numa manhã chuvosa – a guerra é claro está

imagino um guarda-chuva e, embaixo, um chinês magro acariciando uma pedra chamada verdade ilusória

penso-tenso

o zero a zero não convece ninguém – futebol é bola na rede – sexo é orgasmo – carnaval 4 dias

amanhã, amanhã não que é domingo, na segunda, logo de manhã, vou à livraria comprar o tal livro biográfico do pessoa escrito por um espanhol de nome estranho


UM CONTINENTE MAIOR

Outubro 21, 2009

roshi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com 95 anos de idade, Genpo Roshi, um dos grandes mestres zen da atualidade, falava do “portão sem portão” e enfatizava que, de fato, não existe portão algum por onde tenhamos de passar a fim de darmo-nos conta do que nossa vida é. Não obstante, segundo ele, do ponto de vista da prática, devemos atravessar um portão, o portão de nosso orgulho. Todos nós, desde o momento em que nos levantamos pela manhã, temos de confrontar nosso orgulho, de alguma maneira — todos nós que estamos aqui. Para ultrapassarmos esse portão, que não é um portão, temos de ir além do portão de nosso próprio orgulho.

Bem, a filha do orgulho é a raiva. Quando me refiro a raiva, digo todos os tipos de frustrações, incluindo a irritação, o ressentimento e o ciúme. Falo tanto da raiva como do modo de trabalhar com ela porque entender como praticar com a raiva é entender como aproximar-se do “portão sem portão”. Em termos de vida diária, entendemos o que significa distanciar-se de um problema. Por exemplo, observei que Laura fez um lindo arranjo de flores. Ela mexe aqui, ali, tira, põe, e, num determinado momento, dá um passo atrás para ver as flores, o que fez com elas, como foi que ficou o arranjo pronto. Se você está costurando um vestido, primeiro corta o pano e une as peças, costura e arremata, e em um determinado momento, você vai para a frente do espelho para ver como ficou. Está penso nos ombros? Como está a bainha? Está caindo bem? Tornou-se um vestido adequado? Você dá um passo atrás. Da mesma forma, para pôr nossa vida em perspectiva, devemos dar um passo atrás e dar uma olhada.

Bom, a prática zen é fazer isso. Ela desenvolve a habilidade de dar um passo atrás e olhar. Tomemos um exemplo prático, uma discussão. A qualidade ostensiva de qualquer discussão é o orgulho. Suponhamos que sou casada e discuto com meu marido. Ele fez alguma coisa de que não gostei — gastou, digamos, as economias da família comprando um carro novo — e acho que nosso carro atual está bom. Acredito — aliás, eu sei — que tenho razão. Fico com raiva, fico furiosa. Quero gritar. Bem, o que posso então fazer com a minha raiva? O que é proveitoso que eu faça? Antes de mais nada, creio que é uma boa idéia simplesmente dar um passo atrás: fazer e dizer o mínimo possível. Quando recuo um pouco que seja, posso me lembrar de que o que na realidade desejo é ser aquilo que poderia ser chamado de Um Continente Maior (em outras palavras devo praticar as coisas mais elementares). Agir assim é o mesmo que penetrar em uma outra dimensão, numa dimensão espiritual, se quisermos dar-lhe um nome.

Consideremos uma seqüência de passos da prática, tendo em mente que, no auge da raiva, é impossível à maioria efetuar a prática no desenrolar do drama. Entretanto, tente de fato dar um passo atrás; faça e diga o mínimo possível; afaste-se. Depois, quando estiver sozinho, apenas sente e observe. O que quero dizer com “observe”? Observe a novela que está passando na televisão da cabeça: o que ele (o marido) disse, o que ele fez; o que tenho a dizer a respeito disso tudo, o que eu deveria fazer sobre o caso… todas essas considerações são fantasia. Não são a realidade do que está acontecendo. Se pudermos rotular esses pensamentos (difícil de fazer quando estamos com raiva), devemos fazê-lo. Por que é tão difícil? Quando estamos com raiva, há um enorme obstáculo no caminho da prática: o fato de não querermos praticar. Preferimos alimentar nosso orgulho, ter “razão” na discussão, no argumento. (“Não busque a Verdade: apenas cesse de alimentar suas opiniões.”) É por isso que o primeiro ato é dar um passo atrás, falar pouco. Semanas de prática assídua podem passar, até que sejamos capazes de ver que, o que desejamos, não é ter razão, mas ser Um Continente Maior. Dê um passo atrás e observe. Rotule os pensamentos do drama: sim, ele não deveria ter feito isso; sim, não consigo suportar o que ele está fazendo; sim, vou encontrar um jeito de me vingar. Tudo isso pode se dar num nível superficial, porém, não deixa de ser uma novela.

Se realmente recuarmos e observarmos — o que, como disse, é bastante difícil de fazer quando estamos com raiva —, seremos com o tempo capazes de enxergar nossos pensamentos como pensamentos (irreais), não como a verdade. Houve ocasiões em que repeti o processo dez, vinte, trinta vezes, antes de os pensamentos por fim cessarem. Quando isso acontece, o que me resta? Resta-me a experiência direta da reação física de meu corpo, o resíduo, por assim dizer. Quando vivencio de forma direta o resíduo (como tensão, contração), visto que na experiência direta não há dualidade, entro lentamente naquela dimensão que sabe o que fazer, qual a ação a ser empreendida (samadhi). Ali se sabe qual é a melhor atitude não só para mim, como para o outro também. Ao tornar-me Um Continente Maior, saboreio a “unidade” de modo direto.

Podemos falar sobre “unidade” até o final dos tempos. Como efetivamente nos destacamos dos outros? Como? O orgulho do qual a raiva nasce é o que nos destaca. A solução é uma prática na qual vivenciemos essa emoção de separação como um estado corporal definido. Quando fazemos isso, é criado Um Continente Maior.

O que é criado, o que cresce, é o tanto de vida que posso conter sem que ele me aborreça ou me domine. No início, esse espaço é bastante restrito, depois fica maior, cada vez maior. Nunca precisa parar de crescer, O estado de iluminação é aquele espaço enorme e compadecido. No entanto, enquanto vivermos, descobriremos que existe um limite para o tamanho de nosso continente e, nesse ponto, é que devemos praticar. Como sabemos onde se localiza esse ponto-limite? Estamos nele quando sentimos em qualquer nível raiva ou aborrecimento. Não há mistério nenhum. A força de nossa prática está no tamanho que nosso continente alcança.

Ao fazermos essa prática, precisamos ser caridosos com nós mesmos. Necessitamos reconhecer os momentos em que não estamos com disposição para efetuá-la. Ninguém tem vontade o tempo todo. E não faz mal que não a façamos sempre. Estamos fazendo sempre aquilo para o que estamos prontos.

Essa prática de fazer Um Continente Maior é em essência espiritual, porque essencialmente não é nada em absoluto. Um Continente Maior não é uma coisa; a consciência não é uma coisa; a testemunha não é uma coisa, nem uma pessoa. Não há ninguém testemunhando.

Apesar disso, aquilo que pode testemunhar minha mente e meu corpo deve ser algo que não seja minha mente e meu corpo. Se posso observar minha mente e meu corpo num estado de raiva, quem é este “eu” que observa? Ele me demonstra que sou diferente de minha raiva, que sou maior do que minha raiva, e esse conhecimento permite-me construir Um Continente Maior, crescer. Portanto, é essa capacidade de observar que deve ser expandida. O que observamos sempre é secundário. Não é importante estarmos aborrecidos; o importante é termos a habilidade de observar o aborrecimento.

Conforme essa habilidade se expande, primeiro para observar e depois experimentar, aumentam, ao mesmo tempo, dois outros fatores: a sabedoria, que é a capacidade de ver a vida tal como ela é (e não do jeito que eu gostaria que fosse), e a compaixão, que é a ação natural decorrente dê ver a vida como ela é. Não podemos ter compaixão por ninguém nem por nada se nosso encontro com eles está tingido de raiva e orgulho; é impossível. A compaixão cresce conforme criamos Um Continente Maior.

Quando efetuamos a prática, estamos penetrando profundamente em nossa vida tal como a conhecemos, e o modo como esse processo se desenrola varia de uma pessoa para outra. Para algumas, dependendo de seu condicionamento e história pessoais, o processo pode transcorrer de maneira suave, e a compreensão é gradativa. Para outros, vem em ondas, em enormes ondas emocionais. É como um dique que se rompe. Temos medo da inundação e de sermos tragados pela voragem. É como ter contido parte do oceano atrás de frágeis diques que, quando explodem sob o impacto da água, deixam-na retomar o que simples e verdadeiramente é; e há alívio nisso porque agora ela pode fluir com as correntezas e a vastidão do oceano.

Não obstante, acredito ser importante que o processo não aconteça rápido demais. Se for acelerado, creio que deveria ser desacelerado. Chorar, tremer e ficar transtornado não são coisas indesejáveis. Aquele dique está começando a se romper, mas não é preciso que se quebre rápido demais. É melhor desacelerar, e, se romper depressa, que seja, está tudo certo; quero enfatizar apenas que não tem de ser obrigatoriamente assim. Pensamos que somos todos do mesmo jeito, mas é provável que, quanto mais repressora e difícil tenha sido a infância, mais importante é que o dique ceda com lentidão. Contudo, não importa quanto nossa vida possa ter transcorrido com suavidade, sempre há um dique para estourar em algum ponto.

Lembremo-nos ainda de que um pouco de humor a respeito de tudo isso não é uma má idéia. Essencialmente, jamais nos livramos de coisa alguma. Não precisamos nos livrar de todas as nossas tendências neuróticas; o que fazemos é começar a ver como são engraçadas, como apenas fazem parte do lado engraçado da vida, da graça de viver com outras pessoas. São todas loucas, assim como nos, e claro. Mas na realidade nunca enxergamos que somos loucos; esse é nosso orgulho. Claro que eu não sou louca, afinal de contas, sou a instrutora! 

Texto de Charlotte  Joko Beck, extraído livro “Sempre Zen”


QUANDO ACABA UM AMOR?

Outubro 8, 2009

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Bem, o amor acabou. Todos os fatos, indícios, depõem a favor. É hora de esquecer aquela pessoa que durante tanto tempo foi nosso espelho, nossa estrada : não há mais espaço, nem esperança e tampouco saída para que o romance continue. É uma opinião unânime. E, embora toda unanimidade seja duvidosa, acabamos por acatá-la. Afinal, até um motorista de táxi que você teve um breve contato e decidiu relatar a sua intensa e às vezes catástrófica história de amor lhe disse com razoavel convicção: “esqueça, esqueça…”.

Todos os princípios da racionalidade estão ativados. Tudo parece preparado para implodir aquele amor que consumiu alguns milhões de minutos de nossas vidas. E então começamos a ouvir, de dentro de nossas cabeças e de algumas bocas que nossos olhos vêem e nossos ouvidos escutam ( amigos, pais, a sociedade , enfim) a famosa contagem regressiva. Entre um número e outro 10, 9, alguém sempre há de nos perguntar se aquele romance já não tinha acabado há muito tempo 8, 7, outros mais indignados dirão frases como “ se fosse eu já teria dado um chute há muito tempo…” 6, 5, os mais comedidos e ligeiramente sensíveis certamente nos darão conselhos “porque não vai viajar para algum lugar onde não poderá encontra-la(lo)?” 4 , 3, e certamente haverão de surgir aqueles mais “sábios” com atenuantes do tipo “ eu também já passei por isto, com o tempo passa…” e ao ouvir esta frase, em geral somos tomados por uma ligeiro mas intenso desejo de matar quem a pronunciou, 2, 1, 0 e….nada acontece : sua mente, seu coração, suas vísceras, sua visão, sua respiração ainda estão ligadas àquela pessoa, de uma forma obcecada, doentia, neurótica.

Afinal, quando acaba um amor?

Para responder a esta pergunta, temos que fazer uma breve análise sobre este que é o mais cobiçado dos sentimentos humanos,  o amor.  Na verdade, o que acontece com uma frequência de formigas no verão, é o falso amor, também conhecido como “ romance paraguaio” . Esta confusão se deve ao fato de termos perdido o verdadeiro significado da palavra e portanto da sua sensação.

Por exemplo, achar que é amor o amor que começa por causa de uma bunda. E isto tem acontecido um milhão duzentas e vinte e cinco vezes por dia no planeta ( dados de 2001). Outro falsa pista que nos leva à ilusão de estar vivendo um grande amor é o dinheiro. Fulana está apaixonada pelas cédulas de cem dólares de fulano. Acontece tanto quanto o amor por bunda. Existem centenas de outras falsas pistas que conduzem a falsos amores.

Em resumo, mais de noventa por cento dos romances que desfilam por aí com suas mãos entrelaçadas, seus sussurros bestiais, alianças e beijos ardentes não são romances. Que nome poderíamos dar a este tipo de relacionamento humano ? Embuste, passatempo, perca de tempo, ilusão, medo de solidão, neurose, exibicionismo. Ou pura e simplesmente exercício da mentira, prática da qual o ser humano vem se tornando um especialista. E é nesta prática que o falso amor mergulha quando está acabando. Lágrimas, tentativas de suicídio, maldições, depressões : tudo mentira.

Então ficamos com aquele grupinho de dez ou vinte que de fato entraram no tubo enlouquecedor e revelador do verdadeiro amor e lá conseguiram entender que este sentimento é verdadeiramente a única forma que existe para que nos auto-conheçamos ( porque desenvolve o desapego no sentido de que o egoísmo não tem vez nem voz no verdadeiro amor, a soliedariedade, massacra o ego – esta praga que os ocidentais tanto veneram em suas mórbidos cultos psicanalíticos -, dentre mil outras coisas), é uma droga de uma potência infinitamente superior às drogas ordinárias sobretudo quando associado ao sexo ( sim, meus caros, o sexo com amor é para os deuses e o sexo sem amor é para os cachorros) e, o mais importante, nos dá uma dignidade que não é maculada nem mesmo quando estamos rastejando no pântano inconformados com o fim daquele romance.

Este amor , que é o verdadeiro amor, não acaba. Porque estes ensinamentos vão permanecer conosco até o último dos nossos dias.

O amor pela bunda, pelo dinheiro também não acaba nunca. Porque nunca começa.


PASSO DOBLE SOBRE SR. HELENO

Outubro 2, 2009

                                                        

 

finalmente um sonho claro em minhas noites desconectadas de qualquer princípio real ~ ~ ~ uma pérola na ostra onírica : : : estava eu sob a forma de um sapo à beira de um lago coachando lágrimas – quando – alguém-ser sussurrou no meu ouvido anfíbio a fórmula que me levaria a renascer humano ~^~ ~^~ o dharma vem do pântano e do cosmos – - – acordo chorando

                                                                                           

 

aqui está o melhor & ali o pior” – - – “o ouro é mais valioso que a prata” – - – “cometas, borboletas e estrelas cadentes : grátis” ~~~~~~~ “ópio e poesia : fora de catálogo” – - – “o amor é bom e a morte é má” – - – “ratos, baratas e pernilongos : extermínio” – - – “sublime ignorância : pesca de extra-terrestres ~~~~~~~~~ “o crime é cadeia” – - – “fadas, anjos e deuses são invisíveis” – - – “linhas imaginárias” – - – “estágio atual : pré-primitivo” – - – “balanço final : falta”

 

                                                                                     

 

amanhã – amanhã não que é domingo – segunda de manhã – vou cortar a minha cabeça e dá-la de presente para o primeiro animal que passar na minha frente – junto com ela o felizardo levará como brinde o que restou da minha carteira de identidade – sapos não usam documentos – e uma vasta coleção de pensamentos – produto de uma intensa atividade mental exercida durante anos e anos

                                   

 

sensação ~ ostra ~ nuvem

 


ASSOCIAÇÕES PENSANTES LTDA

Agosto 28, 2009

 salvador dali

 

 

 

 

 

 

 

 

 

sempre sonhei com um guarda-noturno que zelasse pelas estrelas e que soubesse de cor os primeiros versos da divina comédia e os recitasse com profunda perplexidade misturando-os aos latidos e miados que povoam as madrugadas da rua onde moro 

 

é sinal divino a cordialidade num rosto velho  – -  quer dizer que o sol nasceu brilhou e se pôs – - quer dizer que a vida sob o céu é luminosamente mágica  – -  quer dizer sem palavras o que se deve ouvir – - quer dizer que o sol nasceu brilhou e se pôs ao mesmo tempo – - quer dizer nos ver 

 

neste exato instante em que os ponteiros do relógio começam a desaparecer soterrados por uma tempestade de areia + os três tempos contidos em cada grão + o vôo livre das associações pensantes ltda  + o quadro que estou pintando neste exato instante + a poeira que nubla a paisagem + o agora ex-relógio fadado ao túmulo

 

brilha prá ninguém já que ninguém tem

+ tempo para a poesia

+ a ilimitada margem que quer dizer imaginação 

 

biscoitos finos são sempre cordiais – - muito embora poesia rime com confeitaria

 

+ muito

 muito +

 

 


PARA FAZER UM POEMA DADAISTA (Tristan Tzara)

Agosto 14, 2009

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Pegue um jornal.

Pegue uma tesoura.

Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pensa dar ao seu poema.

Recorte o artigo.

Depois, recorte cuidadosamente todas as palavras que formam o artigo e meta-as num saco.

Agite suavemente.

Seguidamente, tire os recortes um por um.

Copie conscienciosamente pela ordem em que saem do saco.

O poema será parecido consigo.

E pronto: será um escritor infinitamente original e duma adorável sensibilidade, embora incompreendido pelo vulgo.

 


ORAÇÃO DE BOA SORTE

Agosto 9, 2009

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Alguns homens preferem a beleza do céu e dos espaços,

Outros preferem a riqueza das religiões infernais;

Boa sorte aos deuses e às serpentes!

 

Alguns se deliciam praticando a virtude,

Outros se divertem gastando a fortuna dos reis;

Boa sorte aos santos felizes e aos reis miseráveis!

 

Doutor Coutinho gosta de cavalos,

Mantraman gosta de gatos;

Boa sorte ao amante dos cavalos e ao amante dos gatos!

 

Elvis gosta de cerveja,

Tonico gosta de carne;

Boa sorte aos cervejeiros e aos carnívoros!

 

Senhora Tico Tico adora jogar bingo

Enquanto Almerino Pimpão adora cantar;

Boa sorte ao jogador e ao cantor!

 

Bela Bia gosta de recitar o mantra MANI PEME

Andreé Spanovich gosta de peixe;

Boa sorte à amante do Dharma e ao amante do peixe!

 

Anísio Bola 7 só é feliz quando dorme,

Vera Zung Zung só é feliz quando acorda;

Boa sorte ao passivo e ao ativo!

 

Ricardo Boa Praça gosta de religião

O livre Kunley gosta de sua parceira;

Boa sorte ao amante da religião e ao amante das mulheres!

 

Luís Eulálio é feliz no Brasil,

Juan Artigas é feliz na Argentina;

Boa sorte aos que amam o Brasil e aos que amam a Argentina!

 

Garotos bebem cerveja com um vigor heróico,

Vestem roupas transadas e portam anéis delirantes;

Boa sorte ao espírito da juventude!

 

As garotas vestem-se de seda e comem doces,

Adoram fazer amor e se meter no mundo dos meninos:

Boa sorte às garotas e às mulheres!

 

O sentido do Ensinamento e a orelha do ouvinte,

A importância do estudo e o caminho onde é praticado;

Boa sorte aos mestres e aos discípulos!

 

Poema escrito pelo iogue tibetano Drukpa Kunley ( 1455-1570 ) e traduzido livremente por Mantraman.

 

 

 


O VÍRUS DA BREGUICE SEGUNDO DALI

Julho 17, 2009

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O texto abaixo foi escrito nos anos 50 pelo pintor catalão Salvador Dali. O livreto no qual ele se  encontra chama-se “Libelo contra a arte moderna”. Embora seu tema seja a arquitetura, resolvi posta-lo neste Mundo de Mantraman em função de sua absoluta clareza e adequação para definir o que acontece hoje na arte brasileira e, quiçá, na arte mundial. Na brasileira, com certeza, as palavras do mestre surrealista encaixam-se como uma pluma no para-brisa de um veículo estacionado. Sugestão : durante a leitura, tentem mentalizar duplas sertanejas, a Ivete Sangalo, um grupo de pagode, as bandas de pop rock brasileiro.  

O Modern’ Style, Arquitetura fenomenal. Características gerais do fenômeno

Depreciação profunda dos sistemas intelectuais. – Depressão muito acentuada da atividade raciocinante, chegando aos confins da debilidade mental. – Imbecilidade lírica positiva. – Inconsciência estética total. – Automatismo ornamental.- Estereotipia. – Neologismos.- Grande neurose da infância, refúgio num mundo ideal, ódio à realidade etc.- Loucura das grandezas, megalomania perversa, “megalomania objetiva”. – Impudor absoluto do orgulho, exibicionismo frenético  do “capricho” e da “fantasia” imperialista. – Nenhuma noção de medida. – Eclosão majestosa com tendências eróticas, irracionais, inconscientes.

Não é incrível?


PECADOS NA TERRA DO NUNCA

Junho 28, 2009

 

Este texto foi em escrito em 2003, num período em que Michael Jackson era o inimigo público número um da sociedade. Reparem que os mesmos que o apedrejaram naquele período hoje estão canonizando-o. Triunfo da hipocrisia é pouco.

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, bastou o sujeito equilibrar um prato no nariz e controlar uma bola com o pé ao mesmo tempo que ele já se torna uma celebridade. Vivemos um período raquítico do ponto de vista cultural e vazio do ponto de vista pessoal. É como se a grande maioria das pessoas não tivesse vida própria e usasse, como saída, o método de viver a vida dos outros. Ainda mais quando o outro é uma “celebridade”, convenhamos, uma palavra que se desgastou a tal ponto que hoje em dia quer dizer qualquer coisa menos o que de fato significa. 

Dito isto, vamos ao Michael Jackson. Vejam bem : ele não é uma celebridade instantânea de reality show, tampouco um ator de novela das seis que tem chiliques em desfiles de moda. Ele é um artista. Sim, precisamos, neste momento de histérica confusão, separar o joio do trigo : Michael Jackson é um grande artista que, dentre outros feitos, gravou um dos melhores álbuns da história da música pop mundial, Thriller, em 82. Só este álbum, que influenciou e continua influenciando pessoas de todo o planeta, já seria suficiente para dar-lhe o título de artista. Ou melhor, de grande artista. 

E, curioso, é principalmente por ser um grande artista, que ele está escalando os sete círculos do inferno em sua vida particular. Fosse ele um bossal anônimo, um artista canastrão como tantos que circulam livremente pelas emissoras de tv, e ele já estaria absolvido, ou preso, enfim, seu destino já estaria traçado. Mas não, ele teve a infelicidade de se tornar Michael Jackson. 

É claro que existem outras razões secundárias ou periféricas para justificar sua sofrida escalada através dos sete círculos do inferno : suas plásticas faciais, o súbito embranquecimento de sua pele e a sua hipotética negação de sua raça. 

Não tenham dúvida. Pelo posicionamento da imprensa mundial em frente ao tribunal onde ele responderá por assédio sexual a menores numa pequena cidade da Califórnia, o julgamento vai se transformar numa espécie de reality show a céu aberto com uma audiência que deve superar os mais populares programas da tv mundial. E o componente mais aterrador desta novela já está no ar. Antes mesmo de ser julgado, já existe uma tendência de opinião pública a considerá-lo um notório pedófilo sem escrúpulos. Um psicopata que construiu uma cidade para crianças, a Never Land ou Terra do Nunca, com o único intuito de embriagá-las com taças de vinho e depois seviciá-las em inocentes carrocéis e rodas gigantes. 

Mas porque este comportamento, até prova em contrário, preconceituoso? Para responder a esta pergunta, teríamos que recorrer a alguns jargões da psicologia barata. Inveja, por exemplo. De quem ? De grande parte da população branca americana que detem os meios de comunicação e fazem o que bem entendem com a imagem de seus desafetos e com a mente daqueles que consomem suas informações. E de um outro segmento, conhecido por sua intolerância racial, que transita nas esferas judiciais e policiais. 

O delegado que o indiciou no ano passado, por exemplo, sofre de problemas mentais (e culturais) bem mais graves do que aqueles que Michael tem sido acusado. Pude vê-lo num documentário ( que certamente será reprisado durante a novela “ Pecados na Terra do Nunca”) e posso dizer sem sombra de dúvida : ele odeia com todas as suas forças o pop star americano. Trata-se de um ódio que exala de seus olhos, de suas sobrancelhas, de suas papadas, de seu suor. 

Desde que começaram as acusações e o “escândalo” veio à tona, a cerca de dois anos, 90% do que se veicula a seu respeito são histórias mal contadas baseadas em hipóteses imprecisas. Tudo embalado num mega-show onde a grande estrela é o preconceito. Os 10% restantes ainda lembram do inequívoco talento de Michael, de suas preciosíssimas interpretações e de sua dança única, inimitável e intransferível. 

É aterrador. Mas é o sinal dos tempos.