PECADOS NA TERRA DO NUNCA

Junho 28, 2009

 

Este texto foi em escrito em 2003, num período em que Michael Jackson era o inimigo público número um da sociedade. Reparem que os mesmos que o apedrejaram naquele período hoje estão canonizando-o. Triunfo da hipocrisia é pouco.

Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, bastou o sujeito equilibrar um prato no nariz e controlar uma bola com o pé ao mesmo tempo que ele já se torna uma celebridade. Vivemos um período raquítico do ponto de vista cultural e vazio do ponto de vista pessoal. É como se a grande maioria das pessoas não tivesse vida própria e usasse, como saída, o método de viver a vida dos outros. Ainda mais quando o outro é uma “celebridade”, convenhamos, uma palavra que se desgastou a tal ponto que hoje em dia quer dizer qualquer coisa menos o que de fato significa. 

Dito isto, vamos ao Michael Jackson. Vejam bem : ele não é uma celebridade instantânea de reality show, tampouco um ator de novela das seis que tem chiliques em desfiles de moda. Ele é um artista. Sim, precisamos, neste momento de histérica confusão, separar o joio do trigo : Michael Jackson é um grande artista que, dentre outros feitos, gravou um dos melhores álbuns da história da música pop mundial, Thriller, em 82. Só este álbum, que influenciou e continua influenciando pessoas de todo o planeta, já seria suficiente para dar-lhe o título de artista. Ou melhor, de grande artista. 

E, curioso, é principalmente por ser um grande artista, que ele está escalando os sete círculos do inferno em sua vida particular. Fosse ele um bossal anônimo, um artista canastrão como tantos que circulam livremente pelas emissoras de tv, e ele já estaria absolvido, ou preso, enfim, seu destino já estaria traçado. Mas não, ele teve a infelicidade de se tornar Michael Jackson. 

É claro que existem outras razões secundárias ou periféricas para justificar sua sofrida escalada através dos sete círculos do inferno : suas plásticas faciais, o súbito embranquecimento de sua pele e a sua hipotética negação de sua raça. 

Não tenham dúvida. Pelo posicionamento da imprensa mundial em frente ao tribunal onde ele responderá por assédio sexual a menores numa pequena cidade da Califórnia, o julgamento vai se transformar numa espécie de reality show a céu aberto com uma audiência que deve superar os mais populares programas da tv mundial. E o componente mais aterrador desta novela já está no ar. Antes mesmo de ser julgado, já existe uma tendência de opinião pública a considerá-lo um notório pedófilo sem escrúpulos. Um psicopata que construiu uma cidade para crianças, a Never Land ou Terra do Nunca, com o único intuito de embriagá-las com taças de vinho e depois seviciá-las em inocentes carrocéis e rodas gigantes. 

Mas porque este comportamento, até prova em contrário, preconceituoso? Para responder a esta pergunta, teríamos que recorrer a alguns jargões da psicologia barata. Inveja, por exemplo. De quem ? De grande parte da população branca americana que detem os meios de comunicação e fazem o que bem entendem com a imagem de seus desafetos e com a mente daqueles que consomem suas informações. E de um outro segmento, conhecido por sua intolerância racial, que transita nas esferas judiciais e policiais. 

O delegado que o indiciou no ano passado, por exemplo, sofre de problemas mentais (e culturais) bem mais graves do que aqueles que Michael tem sido acusado. Pude vê-lo num documentário ( que certamente será reprisado durante a novela “ Pecados na Terra do Nunca”) e posso dizer sem sombra de dúvida : ele odeia com todas as suas forças o pop star americano. Trata-se de um ódio que exala de seus olhos, de suas sobrancelhas, de suas papadas, de seu suor. 

Desde que começaram as acusações e o “escândalo” veio à tona, a cerca de dois anos, 90% do que se veicula a seu respeito são histórias mal contadas baseadas em hipóteses imprecisas. Tudo embalado num mega-show onde a grande estrela é o preconceito. Os 10% restantes ainda lembram do inequívoco talento de Michael, de suas preciosíssimas interpretações e de sua dança única, inimitável e intransferível. 

É aterrador. Mas é o sinal dos tempos.

 

 


A BRUTAL FELICIDADE INTERNA DOS BUTANESES

Junho 23, 2009

but%C3%A3o

 

“A cobiça, a insaciável cobiça humana” disse o primeiro ministro do Butão ( país budista de existência duvidosa, mais para miragem do que para nação, situado, ao que tudo indica, no alto das Cordilheiras do Himalaia) Jigme Thinley, referindo-se ao que considera a causa principal da catástrofe econômica que o mundo está atravessando. “Precisamos mudar o rumo das coisas” disse ainda o butanês do interior do Palácio de Sonhos onde trabalha. “ Temos que pensar na Felicidade Interna Bruta. Produto interno bruto, como o próprio nome diz, é uma brutalidade além de uma tremenda promessa esfarrapada”.

 Conforme a nova Constituição Butanesa, aprovada no ano passado, os programas de Governo, da agricultura ao comércio exterior, passando pelos transportes, devem ser avaliadas não só pelos benefícios econômicos que podem gerar, mas também pela felicidade que produzem. Para que o mundo comece a levar a sério a Felicidade Interna Bruta, os governantes do reino budista criaram um modelo com normas e definições que podem ser quantificadas e medidas pelos mais proeminentes economistas da economia mundial.

O modelo é formado por quatro pilares, nove campos e 72 indicadores de felicidade. Os quatro pilares são a economia, a cultura, o meio ambiente e o bom governo. Estes se dividem em nove campos : bem estar psicológico, ecologia, saúde, educação, cultura, formas de vida, uso do tempo, vitalidade da comunidade e bom governo, cada qual com seu índice FIB. Tudo isto é analisado por meio de 72 indicadores.

No campo do bem estar psicológico, por exemplo, os indicadores incluem a frequência da prática da meditação e de sentimentos como egoísmo, a tranquilidade, a compaixão, a generosidade e a frustração, além dos pensamentos suicidas. Na imaculada cultura butanesa, contudo, o que se esconde atrás de um conceito tão maravilhoso quanto revolucionário é a palavra sobrevivência. “ A história do Butão hoje em dia é, em uma palavra, sobrevivência” disse Thinley. “A Felicidade Interna Bruta é uma poderosa arma para triunfar sobre as ameaças que nos impedem de sobreviver”.


ASSIM FALOU SERGE GAINSBOURG

Junho 17, 2009

Serge_Gainsbourg_d_c_s2_3_1991

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A burrice é a descontração da inteligência.

Eu acho que é mais aceitável fazer rock sem pretensão do que fazer uma canção ruim com pretensão literária. Isto é realmente insuportável.

A amizade é mais rara do que o amor e necessita uma integridade absoluta.

Não sou deste mundo. Não sou de mundo nenhum.

As mulheres, no fundo, adoram os misóginos.

O amor é um cristal que se quebra em silêncio.

Quando tudo vai mal é preciso cantar o amor, o belo amor. E quando tudo vai bem, cantamos as rupturas e as atrocidades.

A beleza é a única vingança das mulheres.

Jornalista : Você se ama? Gainsbourg : Não, não gosto de por na minha boca aquilo que acabou de sair do meu nariz.

Só lavo as minhas extremidades. Tenho a pele seca. De toda maneira, só as pessoas sujas se lavam.

Não tenho nenhuma pretensão de ser eu mesmo.

Jornalista : Em algum momento você mudou seu visual de maneira radical? Gainsbourg : Nunca fiz cirurgia plástica, se é o que você está me perguntando. Só cirurgia mental.

Até a decomposição, eu comporei…

O objeto mais precioso é a mulher-objeto.

Minha ocupação favorita? Escutar minha barba crescer.

 

Do livro Pensées, provocs et autres volutes, de Serge Gainsbourg. Traduzido por Mantraman


COMO ME TORNEI ENCANTADOR, SIMPÁTICO E DELICIOSO

Junho 9, 2009

tzara%20splatter

 Durmo muito tarde. Me suicido 65%. A vida me sai barata, não passa de 30%. Minha vida tem 30% de vida. Faltam-lhe braços, uns barbantes e alguns botões. Cerca de 5% são consagrados a um estado de torpor semi-lúcido acampanhado de crepitações anêmicas. Este 5% se chama DADA. Ou seja, a vida é barata. A morte é um pouco mais cara. Mas a vida é encantadora e também a morte é encantadora.

Há alguns dias atrás estava numa reunião de imbecis. Tinha muita gente. Todo mundo era encantador. Tristan Tzara, um personagem pequeno, idiota e insignificante, fazia uma conferência sobre a arte de tornar-se encantador. Para os demais ele era encantador. Todo mundo é encantador. E engenhoso. Por acaso não é delicioso? Para os demais, todo mundo é delicioso. 9 graus abaixo de zero. É encantador, não é ? Não, não é encantador. Deus não está à altura. Nem sequer está na Lista Telefônica. Mas de qualquer maneira, é encantador.

Os embaixadores, os poetas, os condes, os príncipes, os músicos, os jornalistas, os diplomatas, os diretores, os costureiros, os socialistas, as princesas e as baronesas são encantadores.

Todos vocês são encantadores, muito inteligentes, engenhosos e deliciosos.

Tristan Tzara lhes disse : queria fazer outra coisa, mas prefiro continuar sendo um idiota, um farsante, um embromador.

Sejam sinceros por um instante : o que acabo de lhes dizer é encantador ou idiota?

Existem pessoas ( jornalistas, advogados, amadores, filósofos) que consideram os negócios,os casamentos, as visitas, as guerras, os diversos congressos, as sociedades anônimas, a política, os acidentes, os bailes, as crises econômicas, as crises nervosas, como variações de dadá. Como não sou imperialista não compartilho desta opinião; mas acredito que dadá é uma divindade de segunda ordem, e que tem de ser colocada ao lado das outras formas do novo mecanismo das religiões de interregno.

A simplicidade é simples ou dadá?

Me pareço bastante simpático.

Tristan Tzara, do livro Sete Manifestos DADA. Tradução de Mantraman.


SOBRE A LAGE DOS PERSAS DISPERSOS

Maio 1, 2009

magrittelareconnaissanceinfiniec2bb1963

o maior perigo consistia em aprender a guiar o carro sem as mãos e deixá-lo à vontade em suas bárbaras manobras pelo desconhecido reino do asfalto como se ele fosse um cavalo que, ciente de sua inconsciência, nos levasse em viagens sobre extensas lages de concreto. ( Estacionamento deserto numa noite de chuva : “ em que lage chegamos?” perguntei “estamos caminhando sobre a Lage dos Persas Dispersos” respondeu a voz que vinha de dentro de uma tenda amarela , chovia, arrisquei : “ estou à procura de um portal, você sabe?, o Tal Portal….” ao que a voz respondeu “ você está parado diante de um, porque não entra?” esquivei-me do convite com outra pergunta “ depois deste portal tem outro portal?” a voz então seca e decidida “ entre e veja você mesmo” vinda da tenda amarela soou como se fosse um estalido interrompendo o ruído da água que escorria sobre a lona “ o que há aí dentro?” arrisquei sem pensar que a resposta viria fulminante como um raio que corta o espaço “ verá um belo e curioso espetáculo onde um cavalo alado canta uma ópera enquanto patina sobre um céu de gelo…ao fundo uma bailarina anã dança frenéticamente sobre uma torre de vidro…” interrompí a descrição “ e quanto ao portal de saída?” a chuva aumentava de intensidade e sobre a Lage dos Persas Dispersos a noite ia entrando no seu mais profundo movimento quando decidi entrar e ver se o tal espetáculo do cavalo alado e da anã dançarina ainda não tinha acabado e à medida em que ia entrando a chuva ia diminuindo e tudo que ficava para trás ia desaparecendo completamente ( em certo momento lembro-me de ter visto um distante mas luminoso incêndio e o súbito desaparecimento do portal enquanto que para frente surgia do vazio um concerto de imagens desconexas ( tigres girando numa multicolorida espiral e nuvens que de tão baixas tocavam a ponta das cartolas de cinco transeuntes que trafegavam através de uma avenida repleta de caixas azuis colocadas simétricamente ao longo das calçadas tortas que exalavam um vapor púrpuro que enevoava e eclipsava os cinco transeuntes “ será que é por aqui que devo seguir?” me perguntei ao me dar conta de que tinha percorrido um bom trecho da Lage “ será este o caminho, afinal?” como a resposta não me parecia fácil e já que aquele universo tinha se instaurado de uma maneira tão inusitada e repentinha à minha frente decidi seguir e quando caminhava sobre a calçada de pedras quentes avistei um camelo coberto de pelos de ouro que ao perceber a minha presença convidou-me “ não tenha medo vamos atravessar o Oceano das Ilhas Perdidas ” olhei de novo para trás e percebi que o incêndio começava a perder o seu contorno e já era um pequeno centro de luz encandescente “ conhece o portal que guarda a entrada de um castelo?” perguntei ao amigo camelo que mastigava uma xícara com asas que batiam como se fossem as asas de um pássaro e foi sómente depois de uns três grãos de areia que obtive uma resposta ( “ tudo o que vejo à minha frente são calçadas quentes”) e deixou escorrer de sua boca um caudaloso líquido verde que rapidamente encobriu toda a avenida formando um oceano por onde passava um navio de pesca ostentando a bandeira de um país cujo símbolo era uma espiral ( caminhei até o cais e quando o navio atracou pude ver claramente em seu convés um veículo metálico andando em zigue zague ( convés que lentamente foi se transformando num monumental autódromo cujo silêncio só era quebrado pelas cíclicas passagens deste veículo e foi só depois da queda de um terço de grão de areia que constatei que no centro do autódromo havia um lago e que em sua margem um pescador arremessava uma linha que caía lentamente sobre a sua superfície esverdeada ( era um homem muito velho cuja barba amarelada entrava lago adentro e os cabelos brancos desapareciam em meio às nuvens ( parecia estar completamente absorto em sua lenta pesca e talvez por esta razão não tenha notado a minha presença e quando me preparava para lhe perguntar “ desculpe, senhor, existe alguma coisa….” o seu anzol fisgou um cavalo que ( patinava q


despejart

Abril 20, 2009

mg21

inconsciente é a fonte determinante das imagens, homem-cabeça-de-pêssego, mostruário de nuvens elétricas distorcidas, um pé de montanha sangrando hortaliças e quando tudo tudo tudo nos remete à poesia intempestiva das noites em que os cometas singram os céus lilases a poesia renasce do desaprendizado ignorância sem essa de repetir o que já foi dito mil mil mil e uma vezes a aventura se limita a flutuar nos buracos quentes do inconsciente quando a mente pede um mentex dourado leve a vagar a prescrutar sem querer e de repente ver aquilo que é insondável um pirata com sua espada laranja mastigando entre os dentes roxos uma sereia claustrofóbica enfiada num pálido foguete metálico cujo vértice é uma tempestade de pétalas fluorescentes sim este psiconeosurrealismo às avessas tudo que pode vir dele e de nossos sonhos onde o chão é móvel e as cidades com seus céus de tapetes voadores e anjos larápios sim este bálsamo- sopro onde o fluxo jorra sangue despejart imagens como aquela em que um arco íris é visto pelos olhos de um sapo azul violeta sua língua salta para fora aassim asssim asssssim falou o tom para breton


SOU MONOGÂMICO, E DAÍ?

Março 17, 2009

163629465_fda7578d77

 

 

 

 

 

 

 

Uma das mazelas de se manter uma grande amizade durante muito tempo, é ter de ouvir da boca de seu amigo a mesma história dezenas de vezes. O Amaury ( “é Amaury com y, viu?”, ele sempre dizia quando se apresentava) foi meu amigo durante intensos dez anos. A amizade se deu no finado século passado : nunca mais o encontrei e não tenho a mínima idéia de onde ele está e o que está fazendo de sua vida. Ele sumiu, mas uma de suas histórias ficou guardada na minha memória. Não porque eu a tenha ouvido dezenas de vezes, mas porque, além de ser uma história, ela guarda um ensinamento precioso.

Ele geralmente a contava depois do terceiro ou quarto copo de uísque, fosse num bar ou na casa de amigos. Depois de fazer um preâmbulo sobre as virtudes da poligamia e a opressão que era o casamento monogâmico, Amaury relatava sem nenhum pudor que na noite de núpcias de seu casamento tinha dormido com uma outra mulher. Entrava em detalhes de como tinha sido sua transa, descrevia a beleza da outra mulher e suas encantadoras habilidades sexuais. “Queria provar para mim mesmo que o casamento não era uma prisão”, costumava argumentar. Se alguém lhe perguntava porque, então, ele se casara, a resposta era sempre a mesma “casamento ou delegacia, meu caro, ela estava grávida e sua família meio que me obrigou a me casar com ela. Mas eu a amava, não tenham dúvida. E foi por esta razão que me casei com ela…” respondia.

E, de fato, o Amaury era um convicto poligâmico. Traía sua esposa à luz do dia, da noite e na frente de quem quisesse ver. Quanto a ela, na minha opinião, fazia vista grossa, fingia que não sabia das estrepulias extra-conjugais do marido. Tinha algum outro interesse no casamento que até hoje não descobri exatamente qual era. Recentemente soube, através de uma amiga, que a farra de Amaury durou até uma noite em que ele estava em casa, à espera da sua esposa, e recebeu um telefonema. Era ela. Ele perguntou-lhe onde ela estava e a resposta veio com um cruzado certeiro no rosto bonitinho do meu amigo : “ Estou na cama com fulano…” . Detalhe : fulano também era um grande amigo de Amaury. Ao receber a notícia, ele teria desabado sobre o chão, esmurrando-o e chorando como uma criança. E dias depois entrou numa depressão que durou meses. Deduzí, de longe, que pela primeira em sua vida Amaury sentiu na alma, na pele, no coração, o que é um sentimento chamado ciúme.

Lembrei-me de Amaury na semana passada quando lia uma reportagem numa revista de comportamento que trazia na capa a manchete-pergunta “ A ciência explica a poligamia : nascemos para amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?”. A matéria, para encurtar o caminho, dava voz a um bando de pessoas desesperadas à procura de uma justificativa qualquer para legitimar a poligamia. Traz um tipo de relacionamento que será a “última moda” daqui há dez anos, o Poliamor (sic) que, segundo uma de suas praticantes “ defende a possibilidade prática e sustentável de se envolver em relações íntimas, profundas e eventualmente duradouras com vários parceiros simultaneamente.” Mas, calma, ainda faltam dez anos. Por enquanto só os modernóides antenadinhos é que estão praticando o Poliamor.

O que me deixa perplexo e ligeiramente indignado com relação à nova modalidade é o domínio que seus praticantes dizem ter com um sentimento chamado ciúme. Um dos parceiros de um quarteto que já completou dois anos de relacionamento disse que a transa a quatro se dá “com muito respeito e sem sentimentos ruins como ciúme ou posse”. Gostaria de acreditar, mas duvido.

Quando a fria ciência entra na discussão e um zoológo afirma que a monogamia “é incomum e difícil entre seres humanos”, o desespero parece atingir o seu clímax. Isto depois de expor complicadíssimas teorias sobre “bimaturismo” sexual, dimorfismo e outras teorias que, na minha leiga e contundente opinião, devem servir muito bem para explicar o funcionamento da vida sexual de besouros, bizões e abelhas da Polinésia.

Eu entendo o desespero desta gente. E aqui, tenho que ser o “Mantraman Flor de Obsessão” e repetir que, em matéria de auto-conhecimento estamos na idade da pedra lascada. Não avançamos ainda nem meio milímetro para dentro de nossas fronteiras e ainda vem esta gente falando em “evolução” dos relacionamentos amorosos. Ora, é claro que a poligamia entre humanos só vai existir quando conseguirmos dominar, minimamente que seja, um sentimento chamado ciúme. E como estamos longe disto!. Precisamos ainda caminhar muitas milhas, passar pelo desapego às coisas materiais, ao ego, continuar caminhando, começar a enxergar a si próprio para poder ver os outros e, finalmente, tentar algum tipo de contato mais civilizado com o bárbaro e irascível sentimento chamado ciúme.

Eu sou monogâmico. Não me acho antiquado ou demodê por ter optado por este tipo de relação com a pessoa que amo. E digo mais : monogâmico sem nenhum esforço. Ela, que é um tesouro que pouco a pouco vou conhecendo, me nutre de tudo o que há de bom no amor : é super amiga, uma amante reluzente, divertida, inteligente. E, portanto, vejam que simples, não tenho nenhuma necessidade de possuir mais ninguém, além dela. Caso esta necessidade venha a me assombrar algum dia, mais simples ainda, me separo. E, possivelmente, vou atrás da assombração.


GOSTAR OU NÃO GOSTAR

Março 6, 2009

 

dudjom_dilgo

  

Certa vez, S.S. Dilgo Khyentse Rinpoche falou a Dudjom Rinpoche a propósito de haver quem falasse mal ou bem dele. “Não se preocupe. Lembre-se sempre que, quando existir uma pessoa que não gosta de você, ou que pense que você é maluco, existirão outras cem pessoas que gostarão de você. De forma similar, sempre que haja uma pessoa que goste de você, não deveria ficar muito excitado porque existirão outras cem pessoas que não te suportarão.” E rematou Dudjom Rinpoche, anos mais tarde: “Por isso, gostar e desgostar é completamente irrelevante.”


SUJEIRA AUTO-LIMPANTE

Fevereiro 26, 2009

limpeza31

 

 

 

 

 

 

 

 

Ontem vi na TV de novo. Acho que foi a quarta vez em menos de um mês. Parece se tratar de uma daquelas pautas epidêmicas que, de tempos em tempos, virotizam os telejornais brasileiros. É o seguinte : casal resolve dividir as tarefas domésticas. Alegam que o orçamento não está dando para contratar uma empregada doméstica, e, principalmente, que as coisas mudaram muito depois que “a mulher conquistou o seu espaço no mercado de trabalho” ( não aguento mais ouvir esta expressão!).

Na reportagem de ontem, a imagem mostrava um rapaz de aproximadamente 27 anos, diante da pia, com uma bucha na mão, lavando sem nenhuma intimidade uma xícara que, suponho, fora usada no café da manhã do casal em questão. Enquanto ele, um claro iniciante naquele mundo de detergentes e espumas, tentava se entender com a parte que lhe cabia na nova divisão de tarefas domésticas, ela, trajando uma típica roupa que caracteriza as mulheres que ocupam cargos executivos – tailleur preto até o joelho, camisa de seda branca, sapatos meticulosamente discretos – era entrevistada pelo repórter. Nesta altura deste tipo de reportagem epidêmica, o texto é sempre o mesmo, seja qual for a emissora, o telejornal, ou a entrevistada. Algo como “ é… o mundo está muito diferente. Foi-se o tempo em que lavar louça era um trabalho feminino….”. E o resto do texto todo mundo já sabe de cor.

O que me deixa perplexo nesta ceninha ( aparentemente) cada vez mais comum nos lares do mundo inteiro é a aversão que se criou, historicamente, pela sujeira. Parece ser um dado atávico, imemorial, a ideia de que sujar é bom e limpar é ruim. Ou, por outra, limpar é degradante, torna a pessoa que se habilita a tal tarefa menor do que a aquela que se compraz em sujar. É uma espécie de continuação do sinal de ostentação ter alguém para limpar a sujeira depois que o banquete ou a festa se acaba. “Vamos nos fartar que depois alguém limpa”. Este parece ser o pensamento que domina a nossa sociedade.

Estou morando sozinho a cerca de três anos. Neste período, intenso para quem nunca tinha convivido com a solidão em quarenta e sete anos de existência, aprendi quase todos os macetes da limpeza doméstica. Devo confessar que, logo que assumi a solidão, parti para o velho expediente de ter uma faxineira que vinha na minha casa uma vez por semana. Com ela, fui aprendendo como e aonde se usa, por exemplo, a cândida, que tipo de produto de limpeza é melhor para limpar os vidros, o chão da cozinha, enfim, Dona Zica foi, durante um ano, a minha mestra e, principalmente, aquela que me fez perder aquele perturbador medo que até então eu tinha da sujeira.

Seguiu-se a esta primeira fase, de maneira natural, a minha total iniciação à manutenção do lar propriamente dito. Aprendi a fazer compras no supermercado e escolher de maneira criteriosa os produtos que de fato estou precisando e vou usar. Para quem não sabia distinguir uma rúcula de um agrião, uma salsinha de um coentro, este último ano foi de progresso absoluto. Por exemplo, ao comprar um abacate verde sei em quanto tempo vou poder consumí-lo, aprendi a distinguir os diversos tipos de tomate e suas finalidades, molho, salada, tempero. O resultado deste processo é que cada vez mais fui abdicando dos restaurantes e lanchonetes e me entendendo com o forno e o fogão da minha casa. Hoje posso receber amigos para um jantar e não fazer feio. Com muito auto-didatismo, especializei-me em algumas receitas que se tornaram clássicos da minha culinária. 

Considero que esta minha autonomia no serviço doméstico, foi, de longe, o legado mais importante de toda minha vida. Sem exagero. Bem, agora chega desta conversa que eu tenho passar cera líquida incolor no assoalho da sala. Querem saber que marca eu uso? Segredo de estado.


VOTO DE SILÊNCIO

Fevereiro 13, 2009

 

silencio3

 

No começo da semana passada, mais precisamente na terça-feira, comecei a sentir um cansaço inexplicável. Como sou um tipo que gosta de entender tudo o que se passa em meus domínios interiores, pus-me a observar, refletir e tentar categorizar o tal (inexplicável) cansaço.

A princípio supus que ele estivesse ligado ao malfadado estresse de trabalho. Mas não, definitivamente minha cabeça não estava debilitada pelo excesso de compromissos. Tampouco era um cansaço da rotina sentimental. Rotina que, aliás, não tenho tido por razões que não cabem explicar aqui. Enfim, tudo indicava que era um cansaço. Um cansaço simplesmente inexplicável.

Foi somente no fim da tarde de terça-feira, depois de um diálogo de quase uma hora no telefone com uma pessoa diretamente ligada aos meus problemas mais cotidianos e profundos, para quem tive que explicar pela centésima primeira vez em menos de duas semanas o porque das minhas atitudes e do meu comportamento, que percebi a verdadeira natureza da minha fadiga : estava cansado de falar. Sim, caros leitores, na verdade eu estava praticamente morrendo de tanto falar.

Naquela mesma noite, antes de dormir, lembrei-me de uma prática que aprendi num monastério budista no começo dos anos 90 : o voto de silêncio. “Eureka!” sussurrei para mim mesmo, “amanhã, faço voto de silêncio de cinco dias…” Na manhã de quarta-feira, logo ao despertar, tomei algumas providências necessárias para que a prática pudesse ter um bom andamento. A principal delas foi ligar para as pessoas mais próximas, aquelas com quem costumo falar diariamente, e, evitando explicações minuciosas, limitei-me a dizer-lhes : “Olha, vou ficar fora até domingo. Sendo urgente, deixe recado na secretária eletrônica ou na caixa de e-mail.” Desliguei o telefone e pronto : estava logisticamente preparado para a maravilhosa viagem ao Reino do Silêncio e da Solidão.

Durante os meus cinco dias de expedição neste mundo praticamente desconhecido para nós, ocidentais, descobri o quanto falamos sem a mínima necessidade de falar. Somos, por assim dizer, uma espécie de tagarelas compulsivos que sempre tem sobre tudo e sobre todos uma opinião, uma interpretação, enfim, um amontoado de palavras a dizer. Descobri, por extensão, que não emitir opinião sobre coisa nenhuma e nem ter que dar explicação oral sobre seus atos ou dos atos alheios a quem quer que seja, produz uma sensação tão boa quanto sonhar que está transando com a pessoa amada no Paraíso. E, principalmente, lembrei-me e refleti muito sobre uma frase que Buda disse : “Certamente, nós nascemos com um machado na boca e acabamos nos cortando com ele quando dizemos palavras tolas.”

É claro que ontem, domingo, quando quebrei o voto, tive que consertar alguns estragos produzidos durante a minha jornada silenciosa. Por exemplo, pessoas para quem não avisei que estava de partida e que me ligaram e me procuraram durante toda a semana, acharam que eu estava magoado com elas. Um recado de sábado dizia “Tá legal, Mantraman, você não quer mais falar comigo, mas ao menos me explica o que foi que eu fiz…” dizia a mensagem de uma amiga com a voz ligeiramente chorosa. Amanhã, quando voltar à rotina da tagarelice compulsiva, eu ligo para ela e tento explicar-lhe aonde estive, fazendo o que e tudo o que vi.

Sei que para quem trabalha fora de casa, tem família morando na mesma casa ou é adepto da psicanálise, deve ser muito difícil fazer um voto de silêncio. Mas, querem um conselho? : assim que entrarem em férias, comprem um bilhete de ida e volta para o revigorante e maravilhoso Reino do Silêncio e da Solidão. Mantraman garante : é uma viagem inesquecível.